Star Wars e diversidade. Ou: adeus, dinossauros.

Muito já foi dito sobre a importância deste novo Star Wars para a cultura pop. Em um mundo cada vez mais conectado, com a internet finalmente servindo para dar voz a grupos historicamente emudecidos pelas elites de sempre, nada mais natural que um blockbuster seja tão colorido e diverso quanto seu público, certo?

Parece óbvio, mas acredite: para os figurões de Hollywood e a mídia em geral, apostar em protagonistas mulheres, negros e latinos ainda é uma ousadia perigosa.

Na excelente série Master of None, da Netflix, há um episódio em que o personagem de Aziz Ansari, um ator de ascendência indiana que busca construir uma carreira em Nova York, ouve de um produtor de TV que fazer uma série com mais de um ator indiano no elenco fará com que o produto seja visto como algo exclusivo para o público indiano, ou seja, “uma série indiana”. E o mesmo vale para negros, latinos, orientais e qualquer etnia. Em outras palavras, os produtos culturais devem seguir um default onde os personagens são brancos e heterossexuais, e subentende-se que essa é a forma de fazer com que todos se sintam representados na obra. É um absurdo cultivado há tempos pela indústria cultural. Faça uma experiência: ao ler um livro, se o autor não especificar a etnia e/ou o sexo de um personagem, como você o imagina? Pois é.

Por isso mesmo, devemos aplaudir Star Wars – O Despertar da Força. Desde o começo, sabíamos que John Boyega, um negro, seria um dos protagonistas ao lado de Daisy Ridley, uma mulher. E assistindo ao filme, percebemos que além de figurarem nos papéis principais, os dois não sofrem com estereótipos. Finn, interpretado por Boyega, é bem construído, profundo, transitando entre a comédia e o desespero (uma proposta difícil e magistralmente bem executada pelo ator). Já a carismática Ridley dá vida a Rey, uma personagem autêntica e forte, que resolve seus próprios problemas e, finalmente!, escapa da masculinização e da hiperssexualização que os roteiros hollywoodianos reservam às heroínas de ação. Cabe a Rey ser a figura central da trama, e Ridley não apenas cumpre o papel à perfeição, como entrega a melhor interpretação já vista em um filme da franquia.

Com menos espaço em tela, o guatemalteco Oscar Isaac também é um tapa na cara dos conservadores. Talvez não seja tão impressionante para nós, brasileiros, ver um latino com tanta importância em um blockbuster, mas a etnia de Poe Dameron, o piloto interpretado por Isaac, foi assunto em fóruns online por meses logo após a escalação do ator. Chola mais.

Sim, o filme tem muito a ser discutido. Desde o excelente vilão Kylo Ren (Adam Driver), com seu andar curvado, carregado de cobiça e angústia, até o retorno do elenco clássico encabeçado por Harrison Ford, Carrie Fisher e Mark Hamill. Temos a direção precisa de J. J. Abrams (que precisou filmar dois Star Wars no universo de Star Trek para enfim assumir o lugar certo), os ótimos efeitos práticos evitando o exagero de CGI, e o roteiro eficiente mas carregado das idiossincrasias próprias da saga escrito por J. J. em parceria com Lawrence Kasdan, roteirista de O Império Contra-Ataca. Mas confesso que, para mim, tudo empalidece quando comparado à diversidade presente na película.

Em um ano marcado pela polêmica envolvendo racismo, misoginia e homofobia no maior prêmio de ficção científica e literatura fantástica, o Hugo Award, a diversidade de Star Wars – O Despertar da Força assume importância redobrada. Agora é esperar que os novos filmes não apenas repitam esse marco, mas que o expandam. O livro Star Wars: Marcas da Guerra, recentemente lançado pela Aleph, por exemplo, apresenta personagens gays e não apenas uma ou duas, mas muitas mulheres fortes. Que as próximas obras cinematográficas sigam o seu exemplo.

Não comemoro porque acredito que deva existir uma cota ou coisa que o valha em obras de ficção. Comemoro porque talvez – eu disse talvez – os produtores de conteúdo começam a perceber que a humanidade é formada por muito mais que o padrão homem-branco-machão-que-salva-o-mundo-e-resgata-a-donzela. Maior diversidade significa maior criatividade e melhores histórias. Significa variedade, e é a variedade que nos faz interessantes.

E sim, quem escreveu isto aqui foi um homem, branco, cisgênero e heterossexual.

PS.: Como não poderia deixar de ser, nem tudo são flores. A Hasbro resolveu lançar uma coleção de bonecos de Star Wars – O Despertar da Força com Kylo Ren, Chewbacca, Finn, Poe Dameron, um Stormtrooper da Primeira Ordem, e um piloto de TIE Fighter, Ou seja: simplesmente deixaram de lado Rey, nada menos que A PROTAGONISTA DO FILME. Vamos todos balançar nossos sininhos e gritar para a Hasbro/Disney: SHAME!

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.