Música: uma pseudo-biografia

Eu respiro música. Não sei explicar como ou quando isso começou, mas as lembranças mais antigas e profundas que tenho têm trilha sonora.

Nasci em 1982. Cresci ouvindo rádio e assistindo videoclipes na madrugada. Minha adolescência, na década de 1990, foi passada entre um gravador e um Walkman, gravando e regravando fitas cassete.

Comecei a trabalhar no ano 2000, e migrei, devagar, para os CDs. Levava para lá e para cá, um Discman Philips azul, coisa mais linda. Andava com uma mochila cheia de livros e CDs, e minha melhor companhia nas longas viagens entre a casa e o trabalho eram as músicas.

Comprei meu primeiro computador em 2002, e isso deu início, para mim, à Era da MP3. Eu era o cara que, mesmo com uma conexão discada, conseguia achar qualquer música para qualquer pessoa. Havia até um ditado: “Se o Michel não achar, é porque não existe”. Nada tão dramático, diga-se de passagem, mas, se eu não achasse, é porque era muito, mas muito difícil mesmo.

Tornei-me referência dentro de meus estilos preferidos: clássica, rock, jazz, blues, pop, MPB… Nas conversas sobre música, nos barzinhos, eu tinha de estar presente ou ser citado. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
Confesso que esta era uma época muito boa.

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Ah, deixei passar um fato interessante: aos dezenove, comprei meu primeiro violão – um Giannini, série estudo. Simples, mas bonito. Aprendi a tocar sozinho. Comprava revistas de cifras nas bancas e ficava batendo nas cordas até uma da manhã.

Hoje não sou nenhum monstro, mas consigo tocar de maneira razoável. E, além do mais, gosto mesmo é de cantar. Sou um barítono com facilidade de alcançar notas altas, mas nada demais. Um treinamento mínimo e um bom ouvido, capaz de cantar afinado, mas sem dar show ou causar choros de emoção.

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Meu relacionamento com a música passou por fases muito distintas. Ouvinte de rádio, consumidor de música, músico amador… quando mais jovem, antes de comprar um carro, andava por todos os lugares com um MP3 player e fones de ouvido. Hoje, se estou dirigindo, há um pendrive cheio no som ligado.

A música está presente em minha vida da hora que acordo até quando vou dormir.

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As grandes paixões de minha vida foram vividas ao som de boa música.

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O momento presente é interessante: dividir. Nicholas – nove anos – e Julia – quatro – adoram música. Muitas vezes, ouvimos juntos, e também toco violão para eles. É um barato perceber que você passou a ser a referência musical mais importante para alguém.

E ambos têm suas músicas tema, desde o momento em que sabemos que viriam. E causam-me uma emoção absurda ao identificar uma canção, cantor ou banda.

– Pai, essa é dos Beatles – diz Maria Julia, em sua cadeirinha.

– Eu gosto dessa – diz o Nicholas, quando ouvimos Audioslave.
Isso me deixa muito feliz.

Mas também tomo muito cuidado para deixá-los livres com suas escolhas, sem impor meu gosto. Acho importante isso. Mesmo que eu não goste da escolha, eles têm que ser autênticos, não mini-cópias de mim.

De mim, um só é mais do que suficiente.

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O tempo também foi legal comigo, ensinando algumas coisas – muitas vezes na base da porrada. Música é algo que gera paixões, e discutir gosto musical pode terminar em briga ou processos. Durante minha juventude (tenho trinta e três, acho que já posso dizer isso), eu era muito apegado à ideia de que música boa é música que tem qualidade. Eu costumava pensar mal – ou não pensar de jeito nenhum – de pessoas que tinham um gosto “inferior”.

É tentador pensar assim. Faz bem ao ego acreditar que um amante de outro gênero musical é alguém menos culto que você. Mas é também muito arrogante e desumano. Tenho trabalhado isto em mim, e venho tentando ver as coisas com menos pedantismo. Aceitando melhor as diferenças, mesmo não concordando com elas. Mesmo não curtindo o som.

Acho que a tão falada “sabedoria que vem com os anos” começou a acenar para mim.

Pena que eu seja tão obtuso e teimoso, às vezes.

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Às vezes, sozinho, eu choro. Ontem, estava dirigindo para casa quando tocou “Brothers In Arms”, do Dire Straits. A sensação é bacana, um misto de tristeza, saudade e alegria. Vem com uns arrepios, e as lágrimas enchem os olhos.

Faz você se sentir meio cheio e meio vazio.

Faz você se sentir pleno.

Estranho, né?

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2015 foi um ano em que a morte esteve muito ocupada. Anteontem perdemos Lemmy Kilmister, um mito. B. B. King também se foi. José Rico, Selma do Coco, James Horner, Cristiano Araújo, Jim Diamond, Scott Weiland, Selma Reis, Júpiter Maçã, Marília Pêra (atriz e cantora, se você não sabia)… muita gente boa e insubstituível.

A obra, pelo menos, é eterna.

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Este era para ser um texto sobre música e paixão, mas acabou se tornando um pequeno tratado sobre o Michel. Não sei se isso é bom ou ruim, mas é assim que sou: não consigo me dissociar da música. Eu sou o que eu ouço.

Seja como for…

Este sou eu, desejando a todos um excelente fim de ano. Espero que, no Réveillon, estejam em lugares que gostam, cercados pela família ou amigos, comendo e bebendo com discernimento.

Mas acima de tudo, que ouçam boa música. Seja lá o que isso signifique para vocês.

Longos dias e belas noites a todos.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.