Entrevista com Jana P. Bianchi

Mais uma da série de entrevistas que pretendemos fazer com os novíssimos nomes da literatura fantástica nacional, esta conversa com a loba Janayna Bianchi trata de seu aclamado livro “Lobo de rua” e de seus novos projetos.

Fale-nos um pouco sobre você, quando começou a escrever, o que te inspira…

Jana: Fala, pessoal do Escambau! Obrigada pelo convite! Eu sou uma escritora que, por mistérios da vida, acabou virando engenheira. Eu tenho guardados algumas coisinhas que escrevi quando tinha seis anos. Meu pai guardou e me entregou há pouco tempo. Eu lembro de “brincar de escrever” desde então, mas eu resolvi que ia fazer algo sério com isso quando estava no meio da faculdade. Mas a vida estava tão caótica que só entrei nos eixos em 2014. Bastante coisa me inspira… Coisas que consumo têm muita influência, mas também o que vejo pela rua. Tendo essa queda pela fantasia urbana, andar pela cidade é sempre fonte de mil ideias novas ou soluções pra problemas velhos.

E “Lobo de rua”? De onde veio a ideia?

“Lobo de Rua” nasceu da necessidade de falar sobre a Galeria Creta antes de lançar o primeiro romance, que ainda estava meio cru. Queria algo curto passado no universo da Galeria, em São Paulo, mas eu também tivesse um enredo fechado. Pro enredo fechado, resolvi falar sobre o mito clássico que mais me agrada: o lobisomem (tem uns causos esquisitos sobre lobisomem na minha família, achei que ia ser ideal). A ideia de ser um lobisomem menino de rua, especificamente, nasceu no ônibus – enquanto olhava a cidade –, quando pensei que seria uma ideia legal contar como seria a descoberta da licantropia por alguém abandonado, despreparado pra qualquer baque emocional desse tipo.

O que é a Ggaleria cretaalera Creta?

A Galeria Creta é um estabelecimento único que fica nos submundos de São Paulo. É uma mistura de Galeria Pajé com Lâm
pada Mágica. Hehe… É uma grande feira, gerenciada por um demônio em forma de Minotauro, onde qualquer um pode encontrar a realização pra qualquer desejo. Os preços são salgados, mas alguns dizem que vale a pena. Além de Lobo de Rua, que tem como pano de fundo – entre outros cenários – a Galeria, ela já apareceu em alguns outros contos e, agora, estou escrevendo o primeiro romance
ambientado nela.

 

Por que você escolheu o caminho da publicação online?

A princípio, não tinha a intenção de publicar Lobo de Rua, e meu romance estava longe demais de estar pronto pra eu pensar em publicação. Mas aí alguns amigos leram a novela e acharam que seria legal publicar. Resolvi experimentar, porque queria que a história chegasse a mais pessoas. A publicação online é legal pra mim por ser prática como é. O lado ruim é que a gente precisa tomar cuidado com muitas coisas – qualidade e revisão do texto, divulgação – e, se o trabalho não for bem feito, corremos o risco de queimar o nome e até mesmo prejudicar a imagem de colegas que escolheram esse caminho também. Outra coisa complicada é que tem muita coisa na Internet, é difícil não se deixar engolir por tudo o que é postado e divulgado todos os dias.

Com tem sido para você escrever Literatura Fantástica no Brasil?

Escrever fantasia pra mim é um prazer enorme. Descobri cenários fantásticos (com o perdão da piadinha hehe) nas nossas cidades, cenários ainda têm muito espaço para serem explorados. Ainda não posso opinar muito sobre PUBLICAR fantasia no Brasil – só tenho uma publicação e ela é independente, e o mercado independente é muito diferente (pro bem e pro mal) do mercado tradicional. Mas o que vejo quando leio sobre isso é que é um bom momento pra se escrever fantasia no Brasil. A cultura nerd está cada vez mais forte, movimentando muito dinheiro em várias mídias, o que abra espaço pra mais publicações dentro do gênero. Com mais espaço, é mais fácil da gente – escritor nacional e iniciante – se intrometer.

Muito tem se falado a respeito do machismo no mundo nerd, e a literatura fantástica faz parte disso. Você sente isso em seu meio?

Sim, e de várias maneiras. O machismo ainda se expressa bastante na hora de encontrar conteúdo representativo pra ler – mas a coisa está ficando cada vez melhor, preciso admitir. Não muito tempo atrás, personagens femininas eram meros acessórios em histórias de fantasia e ficção científica. Em ficção científica – com raras exceções, em geral escritas por mulheres como Ursula Le Guin – mulheres não eram nem isso. Hoje isso está mudando. Ainda esbarramos em muitos estereótipos femininos que são um saco, mas os autores (e outras mídias, como o cinema) já estão percebendo que é importante ajustar essa participação feminina na cultura pop e nerd. Como uma escritora mulher de fantasia, vejo um outro lado também. Ninguém nunca me disse com todas as letras que não ia ler meu livro porque eu sou mulher, mas ainda há uma certa desconfiança quando falo que escrevo sobre lobisomens e fantasia urbana. Alguns acham que, só porque sou mulher, meus lobisomens são gostosões cheios de sex appeal, tipo Crepúsculo. Não são, mas e se fossem? Qual o problema? Já cheguei a ouvir que meu livro era muito bom, tão bom que nem parecia ter sido escrito por uma mulher. (Sim. Já ouvi.)

Como é seu processo criativo?

Eu sou do tipo que planeja a história (seja conto, novela ou romance) que estou escrevendo. Tem ideia que eu tenho que me dá necessidade de escrever alguma coisa e também tem ideia que eu preciso trabalhar quando já existe alguma demanda de texto por concursos de contos, exercícios de cursos, desafios e tal. Mas, de qualquer modo, eu tenho a ideia e começo a destrinchar a premissa principal até construir um plot. Faço um outline de cada capítulo ou trecho e, só então, começo a escrever. Os detalhes de cada cena eu crio na hora, e direto o outline é subvertido, mas é importante ter essa espinha dorsal pra começar. Eu sou meio lenta pra executar a ideia, então ia demorar décadas pra escrever alguma coisa se fosse tendo as ideias ao longo da escrita. Não tenho nenhuma particularidade ou necessidade especial pra criar ou escrever. E tenho dias super inspirados, em que escrevo muitas páginas (o rascunho de Lobo de Rua nasceu em três dias) ou dias em que eu só dou uma mexidinha ou outro no texto, crio um ou outro parágrafo novo… A única coisa que eu garanto fazer é mexer ou falar de literatura todos os dias. Não é algo forçado, mas hoje é a coisa que mais me dá prazer.

Você é bem ativa na comunidade de autores. Como isso tem ajudado na sua escrita?

Nossa, isso me ajuda de muitas maneiras, direta e indiretamente. De maneira direta, foi por meio dessas comunidades que encontrei cursos, grupos de discussão e artigos sobre escrita que já me fizeram sentir muita diferença na minha escrita. De maneira indireta, estar conectada com essa comunidade de leitores e escritores empolga e anima. É legal ver o que os outros estão publicando, o sucesso que estão alcançando (mesmo que sejam sucessos pequenos, um por vez hehe)… É legal também falar sobre a nossa criação. O pessoal comenta, conhece, e tudo isso acaba gerando uma expectativa legal sobre o nosso trabalho. Dá uma certa pressão, sim, mas pra mim a pressão eslobo-de-rua2tá sendo boa. Estou bem mais produtiva, apesar de passar algumas horas online.

Ainda busca por editoras ou prefere seguir no caminho da auto-publicação?

Eu nunca submeti Lobo de Rua à avaliação de nenhuma editora e, por enquanto, acho que vou manter isso assim. Mas pretendo tentar editoras tradicionais para a publicação do romance da Galeria Creta sim. Se não rolar nada dentro de um ano, aí pretendo abrir um financiamento coletivo e fazer uma publicação bem legal do romance, ainda assim.

Algum outro trabalho em vista ou sua atenção ainda está no Lobo?

Ainda estou divulgando bastante o Lobo, mas o meu projeto principal no momento é o tal romance que já tinha iniciado antes da novela (mas que agora, foi totalmente reformulado) que conta a história do Téo, personagem apresentado no trecho final de Lobo de Rua. É um romance de fantasia urbana que se passa em São Paulo, também, tanto dentro como fora da Galeria Creta. Espero terminar o rascunho ainda esse semestre, mas não tenho a menor ideia de quando rola a publicação. Tudo vai depender da procura pelas editoras ou lançamento de financiamento coletivo, como comentei.

Como encontramos seus trabalhos?

Eu tenho uma página no Facebook (Galeria Creta) onde concentro todas as publicações sobre minha escrita. Lá tem link pras resenhas que já saíram pro Lobo de Rua, tem link de referências, novidades… Nessa página também explica como comprar Lobo de Rua físico, já que fiz uma tiragem independente impressa e ainda tenho alguns exemplares. Quem quiser comprar o ebook, Lobo de Rua, é só clicar. Se quiserem adicionar a novela no Skoob ou Goodreads, é só clicar. Como sou independente, qualquer comentário ou resenha na Amazon, Goodreads, Skoob e blogs pessoais ajuda DEMAIS! Mas se você for tímido e quiser dar seu feedback direto pra mim, também adoro! Quem quiser pode me procurar pelo Facebook ou mandar e-mail pra mim (janayna.pin@gmail.com) ou direto pro Minotauro da Galeria (galeriacreta@gmail.com).

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.