Futura duquesa de Rimelfar

Afrontei os olhos opacos do espelho oval. Era um belíssimo espelho rústico de moldura majestosa com pedraria azul cintilante. Apesar de sua beleza externa, seus olhos eram tristes e fundos, desses que refletiam a melancolia das lembranças por dentro. Estranha disparidade. Errada, na verdade.

A euforia tomava todo o quarto. As meninas riam animadas, enquanto rebolavam o vestido de um lado para o outro. Mamãe soltou algumas palavras de censura, o tom autoritário. Estava preocupada com o vestido, não queria que nada de mal lhe acontecesse.

Briana tomou o vestido das mãos das meninas, empertigada. Observei-a por alguns segundos, ponderando sobre sua personalidade seriamente cética. Era a filha favorita de mamãe. Tomava conta de todas nós. Ou assim pensava. A verdade era que ela nos deletava a todo momento. Briana era a razão pela qual eu estava aprisionada ali.

Ela passou as pontas dos dedos no tecido, hesitante. Fiquei surpresa ao vê-la caminhar em passos lentos até o outro espelho do quarto a fim de se olhar.
Um puxão repentino me devolveu para minha realidade. Escovavam meus cabelos com aspereza e precisão. Não grunhi ou reclamei. Havia uma dor maior que me incomodava. Voltei a encarar o espelho. Os grandes olhos de desolação ainda estavam lá. Suspirei, resignada. Temia que jamais visse olhar diferente naquele espelho tão magnífico. Ironia excruciante se quer saber. Em poucas horas aquele espelho seria meu e tudo o mais que estivesse presente naquele patético quarto.

— Anime-se — disse-me mamãe, o sorriso pulava no rosto. — Ficará ainda mais linda, Mel. Vamos prender um lado de seu cabelo. Já viu a presilha? — Não respondi. Não tinha vontade. Ninguém fazia ideia de como minha alma apodrecia no meio de toda aquela riqueza. Mamãe continuou. — Henrique já está pronto. Seu pai me disse ainda há pouco.

A moça de cabelos ruivos escovava a parte direita de meu cabelo para trás e a outra de cabelos escuros separava mechas do lado esquerdo e as enrolava até minha orelha, enquanto Mamãe não parara de falar sobre Henrique. Remexi-me na cadeira, incomodada. Não queria saber nada sobre ele. Não o odiava, embora jamais fosse capaz de amá-lo. No entanto, ele não passava de uma peça abusada pela cobiça, assim como eu. Pobre alma. Não tão miserável quanto a minha, imagino.

Raul me repreenderia por dizer tais palavras. Não havia percebido antes. Mas sua insistente mania de ver bondade em tudo me ajudara bastante nos últimos anos. Se ele soubesse a falta que me fazia. Se eu tivesse a chance de poder dizer. Ou, ao menos, a chance de olhar em seus olhos e vê-lo retribuir meu olhar. Esses “se” e “ou” arrasavam comigo. Como era estúpida, admito.

Se tivesse tido coragem. Se tivesse aceitado sua proposta. Se tivesse fugido. Sem dúvidas, estaria sorrindo alto em qualquer lugar por aí. No campo, atrás dos muros da cidade, perto do trilho dos trens. Quem poderá saber? As lembranças refletiam no espelho. Um sorriso escapou de meus lábios. Raul conseguia me fazer bem até mesmo quando a situação me despedaçava.

— Ouvi dizer que Henrique está bebendo como se não houvesse amanhã — soltou Ariane, aproximando-se de mim. — Parece que anda triste por um motivo…

— Ariane, não diga asneiras! — zangou-se Briana, puxando seu braço para longe de mim.

— Ele está apenas comemorando — explicou-se mamãe, entregando a estupenda presilha à moça de cabelos ruivos.

— Dizem que tem o mesmo problema que você, Mel — berrou Ariane, tentando se livrar dos olhares mortíferos de Briana.

Ariane urrou. Não pude vê-la porque não podia mover a cabeça, mas adivinhei que Briana havia lhe repreendido com alguns de seus beliscões, pois costumava fazer isso conosco quase a todo instante. Detive-me nas palavras de Ariane e no que poderiam significar. Eu não possuía nenhum problema, exceto o que estava para acontecer. Espere. Arregalei os olhos. Havia outro alguém na história?

— Briana, tire-a daqui…

— Espere! — gritei, decidida. — Preciso ter com Ariane. Deixem-nos a sós.
— Mel, falta pouco para o seu casamento. Não vou permitir que…

— Você já está fazendo o suficiente, não acha, mamãe? — indaguei. — Conseguiu o que quer. Não pode me privar. Deixe Ariane aqui e saiam, por favor.

Mamãe ficou imóvel, atônita. Briana soltou Ariane e me revelou olhos grandes de aversão. As moças haviam soltado meus cabelos e se apressavam em sair do quarto. Mamãe soltou uma guinada e deixou o quarto. Briana e as outras meninas correram às costas de mamãe.

— Onde ele está, Ariane? — perguntei, sem mais delongas.

— Ele está no bar. Foram apenas rumores, Mel. Nenhum de vocês dois podem fazer nada a respeito — respondeu Ariane, compadecida.

— Preciso encontrá-lo. — Levantei-me da cadeira. — Não saia daqui.

Corri para o corredor. Meu hobby voava em meus calcanhares ardilosos. Cheguei ao bar, ofegante. Os olhares logo me encontraram. Não me importei. Precisava encontrá-lo. Procurei nas mesas, nos banheiros e nos corredores. As pessoas olhavam-me como uma louca. Interrompiam conversas e cochichavam sobre minhas vestes. Que indecência a minha, protelei.

— Espere! — pediu alguma voz atrás de mim.

Virei-me. Era Henrique. Eu o havia visto apenas uma vez. Fora até minha casa com seu pai quando ainda éramos muito jovens. Lembro-me de um rapaz tímido e confortável em realizar todos os desejos do pai. Escutei quando meus pais me prometeram a Henrique. Naquela época tal promessa não significava nada além de curiosidade para mim. Agora, porém, destruía-me as entranhas.

— Você deveria estar se arrumando. Não podemos nos encontrar…

— Preciso falar com você. Agora.

Puxei seu braço e o carreguei para perto dos banheiros, onde era mais reservado.

— Você me ama? — perguntei. — Não fique com medo. Só responda.

— Não, Melane — segredou Henrique.

A âncora deserdou meu peito frágil. Alívio.

— Nem eu. Sei que ama outra. Eu também. Vou lhe propor um acordo…

— Sua família jamais permitirá — desacreditou Henrique, parecia desalentado.

— Ouça-me. — Insisti, desesperada. — Você vai receber o dinheiro por nosso casamento. Vamos herdar tudo de seus pais quando assinarmos os papéis. Ninguém precisa saber. Só você e eu. Prometa-me que usará parte do dinheiro para encontrar a sua amada e a quem verdadeiramente amo. Serei sua esposa oficialmente assim como será meu marido. Nada, além disso. Eles nos arrancaram nossas vidas, mas nós podemos resgatá-las.

           

Henrique tinha os lábios selados e olhos difusos. Por outro lado, meu corpo todo trepidava, minha garganta secava e minha boca acumulava saliva. Aquela lá era proposta de uma moça decente se fazer. Raul teria rido com a minha coragem. Sempre admirou minha imprevisibilidade. Arregalei os olhos para Henrique, quanta espera para uma simples resposta.

— Tudo bem — sussurrou. — Fique tranquila. Vou encontrá-los.

— Sinto muito por seus pais, Henrique — pulei em seus braços, agradecida. Ele não pôs os braços ao redor de minha cintura. Deveria estar surpreso ou constrangido. Não importava. Sua resposta trouxera alegria àquele fatídico dia.

Corri de volta para casa. Esbarrava nas pessoas e soltava desculpas apressadas. Subi as escadas. Havia tanto em mim. Meu corpo se enchia, minha mente levitava até o céu e meu coração se refazia. De repente, eu era um corpo transbordando. Não de dor. Mas de contentamento. Entrei no quarto num átimo. Repousei as costas na porta fechada. Ariane me observava, estranhada.

— Chame mamãe e as outras — disse-lhe. — Preciso me casar.

— Mas, Mel… Você ama o Raul — retorquiu Ariana, cética.

— Sim. Com todo meu coração. — Sentei-me a frente do espelho. Encarei-o e descobri olhos felizes. Dançantes. Cheios de esperança. Era revigorante. E o melhor é que eram os meus olhos. — Entenderá. Um dia.

Coeditora do Escambau, escritora, feminista, estudante de Letras, fantasista e cheia de dicotomias. Pratica yoga, ouve música, lê, caminha pelos bosques e escreve para manter a mente sã.

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Tamires Branu

Coeditora do Escambau, escritora, feminista, estudante de Letras, fantasista e cheia de dicotomias. Pratica yoga, ouve música, lê, caminha pelos bosques e escreve para manter a mente sã.