Bom Partido

Quebrar um coração pode parecer uma tarefa simples, mas, na verdade, demanda certo esforço. Afinal, só se é capaz de quebrar um coração que nos pertence, e ele só está irreversivelmente quebrado quando perde a capacidade de nos perdoar.

No casamento de Cláudio e Renata, foi ela que terminou de coração partido, mas, muito antes de quebrar a relação deles além de qualquer reparo, Cláudio foi cuidadoso ao escolher quais as partes de Renata ele estilhaçaria primeiro.

Poucos meses depois do casamento, ele golpeou sua independência, quando declarou que mulher sua não trabalhava fora de casa e que ele era homem suficiente para dar a ela o que ela precisasse.

Depois do nascimento do primeiro filho, seu alvo foi a autoestima, quando exigiu dela um corpo completamente inatingível, gritando por cima do choro da criança sobre seu desleixo e sua preguiça.

Em seguida, foi a vez da confiança, quando passou a chegar tarde e a acusou de ser insuportável, de ter que procurar na rua o que não podia encontrar em casa.

A dignidade ele arrancou de uma só vez, quando virou a cabeça dela no travesseiro e exigiu seus direitos de marido mesmo enquanto ela chorava pedindo que parasse. Como resposta, ele disse que dava apenas o que ela queria. Perguntou se ela gostava de ser a puta.

Para ela, não foi uma grande surpresa quando passou a golpear-lhe o corpo, irritado com sua falta de espírito, esbravejando sobre uma mulher que ela nunca foi. Exigiu mais e mais. Sem nada oferecer.

Renata passou a frequentar a igreja. Pedia perdão por seus pecados e por sua fraqueza. Frequentava o culto todos os sábados e seguia sofrendo em silêncio.

Mas Cláudio não aceitava que tivesse amigas, teve ciúmes do pastor e, pela primeira vez, lhe partiu a cara, para que tivesse vergonha de sair na rua.

Renata tinha mesmo muita vergonha, principalmente de seu filho, educado pelo pai. Não tinha nem dez anos e já lhe cuspia nos olhos. Cláudio achava graça, o menino era uma figura.

Quando se percebeu oca, inútil e sozinha, Renata deu-se conta do próprio coração. Coisa frágil, entregue sem cuidado nas mãos erradas. Estraçalhado, roto, amargo, batia fraco por motivo nenhum.

Pensou em ser livre.

Encontrou a liberdade somente na morte.

Todos abraçaram Cláudio, viúvo muito sofrido. Homem honesto, pai exemplar e marido apaixonado.

Advogada e feminista. Tem o sonho de ensinar e paixão por aprender. Escritora iniciante e leitora veterana, resolveu tentar a sorte no caminho das letras. Colecionadora de causos, histórias, livros, canecas, bottons e qualquer outra coisa que chame vagamente sua atenção.

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Lara Forte

Advogada e feminista. Tem o sonho de ensinar e paixão por aprender. Escritora iniciante e leitora veterana, resolveu tentar a sorte no caminho das letras. Colecionadora de causos, histórias, livros, canecas, bottons e qualquer outra coisa que chame vagamente sua atenção.