“O Príncipe Muito Encantado”

Pergaminho Rascunho Biográfico da Realeza

Era uma vez, um Príncipe Muito Encantado. Encantado a ponto do próprio sol ter que pedir para iluminar diariamente suas madeixas douradas. Encantado o bastante para sua musculatura perfeita e seu tamanho único preencher a armadura cravejada de esmeraldas, como no dia em que esta história se passou. Ele era tão encantado, que todas as suas qualidades, somadas aos bons modos com o povo, já chegaram a ser justificadas por um bardo como “encanto de bruxaria”.

– Serei eu quem substituirá esse outro bardo. Mas não peçam explicações, afinal, ninguém vai querer saber que fim ele teve.

Num belo dia, esse Belo Príncipe Muito Encantado se cansou das não-tão-belas-moças do reino, então resolveu se casar. Para conseguir o que queria, precisaria de uma pleonástica Donzela Pura e Casta, presa em uma das trocentas torres longínquas, guardadas por trocentos monstros trocentamente terríveis.

Bastou uma conversa com o alto sacerdote, para que o Príncipe Muito Encantado soubesse qual a torre longínqua mais próxima. É na chegada dessa torre que nossa história se inicia.

Após um quarto de dia no trajeto, todos os perigos deram com joelhos ao chão contra a bravura do Belo Príncipe Muito Encantado. Os presentes de batalha eram tão visíveis quanto a beleza contida naquele suprassumo da masculinidade.

Nota de rodapé¹

  1. “Presentes de batalha” – É como Bardos, como eu, preferiam descrever.

  2. “Uma dor do caralho” – Foi como o vossa majestade muito encantada me narrou.

Os ferimentos não foram o bastante para destruir as amarras do destino, afinal, apenas os deuses seriam capazes de impedir o Príncipe de tomar sua bela donzela. O braço quebrado ou a hemorragia na coxa, mal eram notados e, mesmo que fossem, a virilidade de um futuro rei jamais daria espaço para fraquezas como o pranto.

Uma longa escada foi o último monstro a ser batido pelo senso de justiça, o Grande Príncipe encantado não mediu esforços para superar os trocentos degraus. Até que, no andar mais alto, ele usou o corpo para abrir a porta grossa de madeira.

– Santa mãe dos deuses! – o grito exacerbado se deu conforme uma extensa poça de sangue se espalhava pelo chão. – Mataram a Bela Donzela Pura e Casta?

Porém, ao escancarar a passagem, o Belo e Grande Príncipe Muito Encantado notou que a nascente do líquido viscoso se tratava de um pescoço masculino, grudado a um corpo (por coincidência, também masculino) caído ao chão, e do outro lado da sala (na verdade era um quarto feminino), Ela observava o horizonte com seus “belos” cabelos jogados pelo vento.

Nota de rodapé²

  1. “Belo” – meu mestre chamava essa palavra de “o segredo do sucesso”, mas será que não estamos exagerando um pouco, Senhor-Grande-Belo-Másculo-Príncipe-Muito Encantado?

  2. “pescoço masculino” – pensei em colocar que o pobre homem preferiu a morte ao invés de confronta-lo, majestade. Ou podemos manter a história original e deixamos vossa jornada mais heroica. O que acha?

– Bela Donzela Pura e Casta? – chamou o Príncipe, sem muita certeza.

A moça da janela não atendeu de imediato, mas quando o fez, suas olheiras e fios emaranhados não assustaram tanto o Príncipe Muito Encantado quanto o punhal sujo de sangue que ela segurava com suas “frágeis” mãos.

– A gente até tenta ser bela, mas é difícil num lugar dess… – ela parou de súbito – pera aí, o que você tá olhando?

O Príncipe Muito Encantado pareceu perdido, mas sua realeza jamais permitiria permanecer calado em frente a uma donzela.

– É que você não deveria estar com essa faca. – seu tom era tenso – Os deuses dizem que os itens de um suicida são carregados de maus presságios.

– Como é que é? – numa careta, a Donzela continuou sem compreender.

– Ou talvez os deuses desconsiderem, visto que há ensinamentos que fogem a compreensão de mentes inferiores, como a das mulheres e tamb…

– EPA, EPA, como é que é? – a Donzela interrompeu e se caminhou para perto do Príncipe com o dedo em riste, seu vestido mal lavado se arrastava pelo chão com o trajeto – você invade meu quarto, me chama de burra, não fala coisa com coisa… Vem cá, qual é a sua?  Você é maluco, por acaso?

E sem deixar o Príncipe abrir a boca, ela prosseguiu.

– Escuta aqui, meu filho. Deixa eu te explicar dois pontos que incrivelmente você não foi capaz de ligar. Fui eu quem matou esse filho da puta que está aí no chão. Ele achou que, por ter me sequestrado, eu seria escravinha dele em várias coisas. Então, desde que chegamos aqui, por dias disse que estava indisposta e quando ele veio me trazer pão e leite para o desjejum dessa manhã, esfaqueei a jugular do desgraçado. – disse uma palavra seguia da outra em ritmo acelerado, porém sem perder a dicção. A Donzela parecia não precisar respirar – Tá ok? Tá Satisfeito? Agora me faz o favor de sair daqui, porque antes de você chegar eu estava pensando exatamente sobre como eu vou voltar pro meu reino.

No início, o Príncipe Muito Encantado ficou sem jeito, mas conforme percebeu até onde aquela conversa iria, achou melhor resolver os “por menores” para, só depois, averiguar a veracidade daquela história.

– Não tenha medo, Doce Donzela Pura e Casta. – mesmo ferido, a pompa deu forças para estufar o peito e aveludar a voz – É exatamente para isso que estou aqui, vim lhe salvar das garras desse terrível malfeitor e fazer de ti a rainha de meu castelo!

– Tá brincando com a minha cara, né?

Por alguns segundos ambos se encararam.

Isso não deveria acontecer dessa forma. – pensou o Príncipe Muito Encantado antes de prosseguir com a barganha.

– Não estou, minha Doce Donzela. Farei de ti a mulher mais importante do meu reino! Andará ao meu lado para cima e para baixo enquanto todas as plebeias e escravas cobiçarão sua sorte por me ter todas as noites na mesma cama.

Outro intervalo resumido a troca de olhares.

– Ok. Definitivamente você é doido de pedra – concluiu a Donzela, dessa vez caminhando em direção à porta para estender o braço num gesto de “sai fora daqui”.

O Grande Príncipe Muito Encantado não acreditava no que estava acontecendo, era o primeiro não que recebia em sua vida, então vociferou.

– Não pode me mandar embora assim! Você não tem ideia dos perigos que tive de enfrentar, dos dragões, dos monstros venenosos, dos saqueadores, e muito mais!

– Olha, – rebateu a donzela – Esse que tá aí no chão disse a mesma coisa quando me tirou de uma outra torre que fica a dois dias à cavalgue. Acha mesmo que eu me importo com o que você enfrentou pra chegar aqui? – e finalizou – Escute, ou você sai daqui, ou terei que usar essa faca mais uma vez. ADEUS!

Dito isso, o Grande Príncipe esvaziou o peito e tomou o caminho de volta para casa. Sabia que em melhores condições poderia tomar a garota a força, mas nenhuma donzela pura e casta valeria a honra perdida após uma derrota contra o sexo “inferior”.

Nota de Rodapé³

  1. Vossa majestade, peço perdão por não conseguir encaixar na história a escrava que tomou como donzela, talvez não seja bom dar asas à imaginação do povo.

  2. Que tal substituir seus diálogos com a Donzela por apenas, “Se beijaram, voltaram para o reino e viveram felizes para sempre”?

  3. Assim que escolher as alterações que preferir, adaptarei o texto e comporei uma bela canção para as tavernas do reino. Vida longa ao Grande Príncipe Muito Encantado.

Ass.: AJ, O Bardo.

Leitor da filosofia de banheiro público, além dos doces toques de uma boa e velha trama de horror. Aspirante a escritor e podcaster nas horas vagas.

LEIA TAMBÉM:

AJ Oliveira

Leitor da filosofia de banheiro público, além dos doces toques de uma boa e velha trama de horror. Aspirante a escritor e podcaster nas horas vagas.