A morte pode ser divertida com os Dead Man’s Bones

Quem me acompanha aqui sabe que em 2015 eu estive em uma longa busca pela trilha sonora do meu Halloween. Ouvi algumas músicas cheias de potencial, mas nenhuma delas me deixou tão empolgado quanto a introdução do álbum homônimo da dupla “Dead Man’s Bones”:

“Minha mala está pronta

Contendo todas as batidas do seu coração

Eu caminho no ritmo delas

E sigo rumo ao sol

Assim minha sombra cobrirá

As lágrimas no chão

Estou partindo do lugar

Em que você deu seu último suspiro

Para encontrá-lo, meu amor

Na magia da vida após a morte.”

Sim, isso foi maravilhoso, mas é apenas o tímido começo de um disco de 12 faixas escritas e interpretadas pela dupla Zach Shields e seu amigoRyan Gosling (sim, o ator, diretor, produtor e filantropo também é um cantor e compositor para lá de competente). Logo no primeiro encontro, os rapazes perceberam uma obsessão em comum pela Mansão Assombrada da Disneylândia, e tamanha foi a empolgação que logo estavam escrevendo músicas com temática fantasmagórica. Foi daí que surgiram os pequenos contos sobre amor, morte, fantasmas e até lobisomens – ou seja, tudo o que a gente gosta!

Após a primeira faixa, “Intro”, o disco segue com a sombria “Dead Hearts”. Nesta música é possível perceber o tom que ditará o álbum: lúgubre, porém incrivelmente divertido. Embora a música seja instrumental na maior parte do tempo, ainda é possível ouvir Gosling, o vocalista principal, sussurrando uma melodia que diz coisas como “Eu estou enterrado nesta casa/ Eu nunca deixarei este chão”. Arrepiou? Há também efeitos sonoros que se repetirão ao longo do disco (como batidas de coração e som de objetos quebrando) mas não tiram o tom orgânico da produção, e que preparam o ouvinte para a próxima música.

“In the Room Where You Sleep” é uma das mais animadas do disco, e também um dos singles do projeto. Aqui a voz de Ryan Gosling aparece soturna, e apesar de parecer cantar sem esforço, ele faz um trabalho fantástico em criar a aura necessária para tornar a música crível. O arranjo dos instrumentos vem diretamente do rock de garagem, das saudosas bandas que nasceram nos anos 1960 e 1970. A partir deste ponto, o álbum ganha uma aura de juventude transviada, por vezes, depressiva.

A próxima é “Buried in Water”, melancólica e pesada, é a primeira a apresentar o coral de crianças que aparece em boa parte das músicas que se seguem (sim, ASSUSTADOR). Como Ryan e Zach decidiram que as faixas fossem gravadas em no máximo dois ou três takes, para que parecessem menos perfeitas e mais autênticas, é fácil encontrar alguns deslizes tonais por parte do coral nessa música, o que não diminui em nada sua beleza.

As crianças voltam para “My Body Is a Zombie For You”, um número quase catártico e uma das melhores por ser simples, divertida e arrebatadora a seu modo. É perfeita para cantar com os braços pra cima, e provavelmente deve ser ótima em sua versão ao vivo, assim como a próxima, “Pa Pa Power”, que é o ápice do folk rock no projeto. Há um quê de modernismo nela que a faz destoar do resto do álbum de maneira muito positiva.

Provavelmente a essa altura você já se divertiu horrores (Entenderam? Horrores!), e elegeu Dead Man’s Bones como o melhor álbum de Halloween da sua vida. O disco se permitiu ainda diminuir um pouco o tom e voltar com a melancolia gostosinha em “Young & Tragic”, seguindo com a simpática “Paper Ships”, uma música que nos leva ao doo-woop dos anos 1950 e que apresenta o coral em uma de suas melhores performances, numa celebração à música e à morte. Adorável.

Em “Lose Your Soul” o disco retorna à aura assombrosa, com uma batida oca, ansiosa, enquanto os vocais repetem que “Você perderá a sua alma esta noite”. Isso é o suficiente para que a música fique na sua cabeça por muito tempo, a não ser que você se entregue ao desespero lupino de”Werewolf Heart”. Nesta faixa em especial, fica claro (caso não tenha ficado antes) que esse disco foi feito para nossa pura diversão, começando pela influência latina, as alusões ao lobisomen, a interpretação dos vocais e os monólogos que nos levam pela mão até o final arrepiante. É uma das favoritas deste trevosinho que vos escreve.

A próxima, “Dead Man’s Bones”, é o rock que a essa altura sabemos que a dupla sabe fazer muito bem. Nervoso e inconstante às vezes, nos eletriza uma última vez antes de nos encaminhar para “Flowers Grow Out Of My Grave”, a última faixa. Sim, acabou, e de uma maneira bela e macabra. Essa música se torna o encerramento adequado, pois apesar de curta e até simples, tem em sua melodia uma gratidão só sua, e serve como uma comemoração pelo disco que começou e terminou cumprindo muito bem o seu papel.

Dead Man’s Bones não é um disco perfeito. Ele é competente, saudosista, às vezes previsível e não vai fazer nada que você já não tenha visto. Entretanto, uma vez que seu coração esteja aberto para ele, não tem como não se entregar. Ele consegue tirar leite de pedra e fazer uma temática tão batida soar renovada, e com fôlego para muito mais.

Infelizmente a dupla só lançou este trabalho, em 2008. Entretanto, eu sou tão grato por este álbum que sinto como se não pudesse reclamar: ao invés disso, coloco ele pra tocar mais uma vez, e se eu fosse você, faria o mesmo… Não, não agora, agora você foge, pois acho que vi alguma coisa atrás de você!

Tem 24 anos e uma alma sofrida que precisa beber música para esquecer os problemas. Prefere sempre o lado B dos discos e acredita que isso tem muito a dizer sobre ele.

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João Paulo Duarte

Tem 24 anos e uma alma sofrida que precisa beber música para esquecer os problemas. Prefere sempre o lado B dos discos e acredita que isso tem muito a dizer sobre ele.