Variações

Aldir estava sentado à janela, contemplado o fim da tarde. A cidade corria lá embaixo, veloz e cinzenta. Ele quase não tinha mais cabelos, e os poucos fios que restavam eram finos e brancos.

– O tempo é um ladrão silencioso e pretensioso, garoto – disse ele, as mãos cruzadas sobre o colo. Tinha um nariz longo e pontudo, que se destacava mais ainda no rosto magro e enrugado. – Um dia você vai dormir e, quando acorda pela manhã, percebe que há um velho estranho te encarando no espelho do banheiro.

Ele tinha trinta e oito anos e um tipo raro de câncer, descoberto há menos de três meses. Era um cético incurável, devorador de livros e poeta. Adorava música clássica. Neste momento ouvíamos Bach – As Variações Goldberg.

–Bach é o mais próximo que consigo chegar de Deus – dizia ele.

Aldir não tinha filhos, e estava separado da esposa. Ela tentou fazer uma reaproximação ao saber de seu estado, mas ele a dispensou.

– Se não por amor, jamais por pena – falou, a mão magra fazendo um gesto de adeus. Mas ele aceitou o beijo dela, embora rejeitasse suas lágrimas.

Aproximei-me da janela, tentando ver o que ele via. O ocaso coloria a cidade cinzenta de tons de laranja e vermelho. Estava quase bonita.

– Sinto-me como uma criança, sabe, Emanoel? Sentado aqui, sem poder levantar, com todos estes tubos e fios enfiados em mim…

– A morte te assusta, Aldir?

Ele desviou os olhos da vista pela primeira vez.

– Você, garoto, é a primeira pessoa que me faz essa pergunta.

– Desculpe – falei.

– Não, não! – disse, a mão ossuda levantada. – Eu só tenho a agradecer. De todas as pessoas que conheço, somente nós dois tocamos a morte de frente.

Quanta bravura de sua parte!

Eu não sabia se se ele estava me elogiando ou zombando de mim.

– Mas respondendo à sua pergunta, Emanoel… não, eu não tenho medo da morte. Não há o que temer. O morrer é que é complicado, mas venho ganhando certa experiência há um tempo nestes assuntos.

Senti-me triste. Senti-me… vazio. Ele percebeu.

– Não há necessidade disso, meu jovem – disse. – Enxugue os olhos. Vamos, não sinta pena de mim, ou perderei meu respeito por você.

Caminhei até uma pequena cômoda no quarto e apanhei um lenço. Limpei o rosto, respirei fundo e voltei para o lado dele.

Fiquei em silêncio por alguns instantes. A respiração dele estava difícil, e fazia um assobio alto. Ele mexeu na velocidade do gotejamento da medicação e suspirou.

– Alivia a dor, mas embota a mente. Que grande tentação! – disse, e sorriu. – Eu daria qualquer coisa por um cigarro agora.

– Você quer ir para a cama, Aldir?

– Não – disse ele. Estava ofegante agora. – Quero morrer sentado. Não abrirei mão de minha dignidade. Mas tenho um pedido a fazer.

– O que é? – perguntei, chegando mais perto.

– Fique aqui. Não tenho medo de ficar só, mas gosto de sua companhia. Seu olhar tem muitas perguntas. Parece o meu.

Puxei uma cadeira e fiquei ali, olhando para ele enquanto olhava para a noite que cobria as ruas antigas.

– A noite sempre foi a parte mais bonita do meu dia – falou ele. Sua voz era apenas um sussurro rouco agora.

Ele esticou a mão com sua última força, e eu a apanhei antes que ela caísse.

Ele me agradeceu com um olhar que foi perdendo o brilho, e sua cabeça pendeu para o lado.

Fiquei segurando sua mão fria durante mais alguns minutos, até que um enfermeiro entrou na sala e nos separou. Gentil, pediu que eu saísse.

Olhei uma última vez para o que restara daquele homem que eu admirara tanto. Será que havia algo depois? Será que ainda nos veríamos, algum dia?

– Não importa – ouvi sua voz em minha cabeça. – Saia daqui e viva.

Deixei o quarto. Pude ouvir as Variações Goldberg ficando cada vez mais distantes enquanto ia me afastando no corredor.

Saí do hospital e comprei uma carteira de cigarros. Eu não fumava, mas hoje, em homenagem a Aldir, acenderia um. Incensaria assim a morte de um grande homem que não acreditava em nada.

Engasguei-me com o a fumaça e joguei o cigarro fora. Sentei na mureta do estacionamento e comecei a assoviar a Aria das Variações de Bach.

Lembrei de Aldir. Ele costumava dizer que quem não teme a morte não pode morrer.

A cidade rugia ao meu redor. A noite estava pontilhada por luzes, e eu tinha o resto da vida pela frente.

Rumo ao nada, pelo tempo que for.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.