Dias de luta

É sabido que, desde o início, o Escambau se posicionou. Ainda considerado um recém-nascido, cedo se colocou a favor do que é humano, do que é livre e diverso. Pautas como feminismo, violência, desigualdade e lutas pelos direitos sempre estiveram dentro de nossos textos, conversas e Escambacasts.

Esse posicionamento, entretanto, não foi algo imposto, ou artificial. Acontece que nós, que fazemos parte deste grupo, vimo-nos afinados e harmonizados desde o início. Esta afinidade natural, entretanto, não vem com concordância cega. Ela gera discussões que, pautadas pelo bom-senso e pelo respeito, trazem a todos os que aqui estão um crescimento necessário. E a necessidade de se ter um olhar mais humano, mais tolerante e respeitador, é cada dia mais visível.

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Nossa semana começou com o fenomenal Escambacast “Ocupando a escola”, onde fomos até a escola Adauto Bezerra conversar com a galera que ocupa esta instituição. Apesar de ser um cast gravado de maneira incomum, ele traz, pelas mãos de Wilson Júnior, um retrato fiel do que representa este movimento polêmico, que veio mostrar para a sociedade que alunos e professores em greve não são os monstros que a mídia revela para nós nos telejornais. Os alunos falam o que pensam sobre sua situação, e nos dão uma pista de que, apesar da escuridão que atravessamos no Brasil, a nossa juventude tem discernimento e capacidade para ser agente de mudança.

Fica a dica: escute, comente e se posicione. Não dá mais para negar que esta luta é constante, e que ela também é nossa.

Ainda na segunda, tivemos um conto curtinho, mas poderoso, de Lily Costa: “Fazenda Bela Rosa”. Ela nos faz refletir sobre o que temos feito à natureza em nome do progresso e de nosso egoísmo. Publicado no dia seguinte ao Dia Mundial do Meio Ambiente, faz com que a gente perceba como é fácil justificar nossas mesquinharias em nome de algo que parece ser melhor – mas sabemos que não é.

Na terça, João Paulo Duarte marcou presença nesta semana, trazendo para nós uma análise interessante do álbum homônimo da duplaDead Man’s Bones, formada por Zach Shields e o ator Ryan Gosling. Com uma sonoridade sombria, o duo nos mostra que a morte pode ser artística e divertida. Com certeza, um álbum imperdível.

Na outra postagem de terça, Michel Euclides nos trouxe uma crônica com sabor de pé de moleque e milho: “É junho, é São João”, entrelaçando o ensolarado mês de junho às coloridas e alegres festividades de São João.

Na quarta, entramos na cabeça de “Osvaldo”, na crônica divertida e bizarra de Diego Sampaio. Um diálogo inesperado, lembranças, revelações e palitos de picolé entram em cena enquanto observamos o desenrolar desta situação – que seria cômica se não fosse trágica. Você não pode deixar de ler.

Na quinta, Michel Euclides apareceu mais uma vez, agora com o conto “Variações”. Nele, um par de amigos conversa sobre vida, morte e Bach. Com honestidade e simplicidade, uma reflexão sobre as coisas importantes da vida.

Na sexta, Julia Soares nos brindou com o emocionante “As Meninas”, escrito para a coluna Marminina. Uma bonita reflexão sobre união e diversidade, sobre força, igualdade e despertar. E nada nem ninguém vai impedi-las de ter seu espaço garantido!

No sábado, Suellen Lima nos emocionou com o lindo poema “Dominicais”. Com sublime talento, ela nos pinta um quadro colorido e singelo sobre os domingos quentes, casais em bancos de praças, convenções e bicicletas. Um perfeito sonho de amor, escrito com maestria, e uma reflexão sobre o dia dos namorados.

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E a semana terminou estranha, com mais um sinal de que este mundo não está preparado para lidar com a diversidade. Em Orlando, nos Estados Unidos, um homem armado entrou em uma boate LGBT e massacrou mais de cem pessoas, deixando dezenas de mortos e feridos. Guiado por uma ideologia e por uma noção religiosa distorcida, foi o algoz de gente que queria apenas se divertir.

O preconceito e a intolerância são, atualmente, as armas mais perigosas de que a humanidade dispõe. Não percebíamos antes o quanto estas coisas eram fortes por estarem diluídas pelo tempo e a distância. Mas agora, quando estas dificuldades são transpostas com facilidade, graças à Internet e outras inovações tecnológicas, as pessoas que só sabem odiar o que é diferente se unem sem muito esforço, e fazem pressão e barulho, e destroem tudo aquilo o que não entendem, ou com o que não concordam.

São dias estranhos estes, em que temos de lutar por coisas que, a nós, parecem óbvias em sua necessidade, mas que são negadas a tantas pessoas, e justificadas através de pensamentos egoístas e atitudes mesquinhas.

São dias de luta, mas não de glória. É uma época negra, em que as pessoas demonstram, com facilidade, seu pior lado, e unem-se numa esmagadora maioria homogênea.

Não podemos nos calar diante de atrocidades como esta. Não podemos deixar de nos perguntar que mundo queremos deixar para nossos filhos, e como seremos lembrados daqui a cem anos.

Não queremos silenciar diante de uma corja de corruptos no poder, de uma parcela da sociedade que pune quem luta por seus direitos, de um mundo que pensa que tudo pode ser comprado e vendido.

Não somos mercadorias, nem massa de manobra, nem engrenagens. Somos gente. E continuaremos lutando. 

Deixamos aqui as palavras de Charles Chaplin, retiradas do filme “O Grande Ditador”, para que possamos, juntos, refletir e iluminar as trevas que nos ameaçam.

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