Chocolat – a trajetória de um homem negro no circo francês

O filme “Chocolate” (Chocolat), do diretor Roschdy Zem, é uma das produções francesas trazidas pelo Festival Varilux, que está em exibição em vários cinemas da cidade de Fortaleza até o dia 22 de julho de 2016 (quarta-feira).

O filme conta a trajetória do palhaço Chocolat, entendido como um dos primeiros artistas negros de sucesso na França.  É apresentado o seu início num pequeno circo, em número conjunto com o palhaço Footit, e o sucesso posterior dos dois no famoso “Nouveau Cirque”, em Paris.

A narrativa segue a ascensão do artista do anonimato à fama e os conflitos pessoais e sociais que esta gerou. Sem hesitação, bem demonstra o mundo dos artistas franceses do final do século XIX e começo do século XX, não deixando de tratar de temas como o vício em jogo, o alcoolismo e, é claro, o evidente racismo do período.

O personagem Chocolat, interpretado por Omyr Sy (ator bastante conhecido pelo filme “Intocáveis”), é bastante vivo e carismático. A atuação é incrível e o desenvolvimento do personagem é feito com maestria. Apesar de ser o personagem principal, sabemos pouco sobre ele inicialmente. É apenas na segunda metade do filme, por exemplo, que conhecemos a história de como chegou na França e o seu nome “de verdade”.

Com “flashbacks” de momentos do passado, assim como diálogos chave, revela-se a vida do artista e a correlação de acontecimentos anteriores com os momentos pelos quais ele passa durante a narrativa. É uma história sobre crescimento e conscientização social.

É também uma história sobre relações, e as mais fortes no filme são a amizade conturbada de Chocolat com George Foottit (James Thiérrée), seu parceiro de número; o romance com a enfermeira Marie Hecquet (Clotilde Hesme); e a amizade com o subversivo Victor (Alex Descas), quem abre seus olhos para questões raciais.

As atuações foram bastante satisfatórias, em especial a do ator suíçoJames Thiérrée, conhecido por ser o neto de Charles Chaplin e, ele mesmo, um artista circense. Ele trouxe belamente o aspecto acrobático da palhaçaria da época e criou um personagem trágico e interessante.

A relação de Chocolat e Footit é representativa dos próprios conflitos sociais, e a química entre os personagens é muito boa. Footit inicialmente não parece compreender o desconforto pelo qual Chocolat passa ao se apresentar num número em que “apanha” para fazer os brancos rirem, com a notória conotação racista do espetáculo.

Apesar das intensas cenas de drama e injustiça, há momentos de triunfo e superação na trama. Prefiro não apontar os momentos um a um para não estragar o suspense, mas toda a trajetória de Chocolat e o seu crescimento como pessoa são maravilhosos de se assistir. No fim, tristes ou felizes, os momentos servem para compor a história do artista e torná-la forte e real. A intensidade das relações e dos acontecimentos colaboraram para compreensão mais completa do personagem.

Ainda é preciso dizer que, mesmo que biográfica, a história toma diversas liberdades artísticas. O filme, por exemplo, apresenta Chocolat e Footitcomo os pioneiros da forma clássica dos palhaços europeus do século XX se apresentarem, com um palhaço “branco” e um palhaço “augusto”.

Entretanto, esse título é discutível e, muitas vezes, atribuído aos seus rivais no Nouveau Cirque, os palhaços “Pierantoni & Saltamontès”. Mesmo assim, é inegável a importância da dupla para o gênero e a história da palhaçaria.

Ressalto, ainda, que a forma com a qual o filme apresentou os números foi muito boa e respeitosa com os artistas retratados. É emocionante ver a gravação original de Chocolat e Foottit ao final e comparar com as apresentações mostradas ao longo do filme.

Resumindo, é um filme belo, intenso e bem produzido. Quem puder e quiser se emocionar, corra pra assistir!

Coeditora do Escambau, formada em direito, cheia de interesses e sem tempo. Escritora das horas vagas e de outras nem tanto.

LEIA TAMBÉM:

Ana Luiza Ferreira

Coeditora do Escambau, formada em direito, cheia de interesses e sem tempo. Escritora das horas vagas e de outras nem tanto.