As manhãs em que cantávamos juntos

Lembro com muito carinho das manhãs em que cantávamos juntos. Naqueles dias doces e iluminados – em que o mundo era eu e você – as multidões eram feitas de figurantes, e os lugares eram simples cenários montados para que eu pudesse encenar meu amor.

Havia carinho entre nós. Uma conexão forte, constante e sutil. Lembra? Quando cantávamos as antigas canções…

Você talvez não saiba, mas aprendi a cantar por tua causa. Aprendi a dedilhar o violão – ainda que tosco – por ti. Eu sentava na calçada com as revistas de músicas cifradas e ficava ensaiando as canções que nós adorávamos por horas e horas após o colégio. Afinei minha voz e melhorei meu inglês para te impressionar.

Eu ficava diante do rádio esperando nossas músicas, amaldiçoando os comerciais que as cortavam no meio. Gravei muitas fitas-cassete com as canções que cantávamos juntos. Gosto de pensar que você as escutava enquanto pensava em mim.

Eram bons tempos aqueles. Eu te amava com pureza e honra, e a música era o fio condutor do meu amor. E enquanto o trem seguia, fosse indo ou voltando, eu te tinha por alguns minutos a cantar e o mundo parava. Como era bom.

Como era luminoso.

Hoje à noite fiz uma daquelas seleções. Ouvi uma música e, sem perceber, comecei a ligá-la a outras. Quando vi, estava de novo cantando para ti. Uma saudade boa doeu prazerosa aqui dentro, e eu nos vi através daquela lente impiedosa e meio gasta do tempo que passou.

Não pude evitar sorrir de minha ingenuidade, de minha inocência, da sede romântica de amar e de te cobrir de versos e de músicas.

Não pude deixar de invejar o jovem que sonhava acordado contigo.

Hoje lembrei das manhãs em que cantávamos juntos. Alimentei-me daquele carinho e daquela energia e senti-me feliz como há muito tempo não me deixava ser.

Obrigado pelas canções e pelas manhãs.

P.S.: A Playlist – As antigas canções.https://open.spotify.com/user/12178948860/playlist/1Gsfp8Qs7JD6Iygv6FC8Er

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.