A Sensibilidade como Inteligência

Há quem acredite que a Literatura por si mesma é capaz de humanizar as pessoas. São incontáveis os defensores do ato de ler como magia para o tratamento da brutalidade, da natureza instintiva e animalesca do homem.

Uma responsabilidade e tanto para Arte, mas principalmente para a Literatura. Esta, ao reaproximar o homem de outro ser, provocaria deslocamento tal, que o homem jamais voltaria a ser o mesmo.

De tantas abordagens, a Literatura tem violência, morte, preconceito, autoritarismo, amor, respeito, coragem… praticamente toda a matéria que nos torna contraditórios e, consequentemente, humanos. Por conta disso, acredita-se que a arte da escrita funciona como um espelho a refletir nossa verdadeira face e dessa forma nos mostrar do que somos capazes. Ela, então, nos intimaria ao mergulho no autoconhecimento.

No entanto, da palavra escrita, dos livros em geral, conheço poucos leitores. Na verdade, com algumas exceções, a maioria de nós conhece muitas pessoas que não são “chegadas” a ler um livro, mas que são de assistir novela, jogar baralho, sentar na calçada, falar da vida alheia, trocar receitas e métodos sobre remédios, beleza, comidas e relacionamentos.

Teríamos, portanto, dois tipos diferentes que não compartilham o mesmo universo: os já leitores e defensores da literatura e os “não-iniciados” na fé literária.

Ora, desses tipos tão díspares, temos leitores assíduos, mas embotados no trato humano. Enquanto há analfabetos literários tão mais sapientes de si e da vida que qualquer dotô. São muitas as variantes de cores e tonalidades; sim, o mundo não é preto no branco. E nosso juiz e algoz interior insiste em definir e comportar tudo numa conformidade que não condiz com a pluralidade do mundo.

A variedade da vida pulsa no dia-a-dia conforme elevamos nossa cabeça e enxergamos o que está a nossa volta. Desse movimento motor do nosso corpo, nasce a matéria do romance, da poesia, da crônica e do conto. Esse movimento se chama SENSIBILIDADE.

Entendo, aqui nessa reflexão, sensibilidade como uma inteligência e também como um despertar:

Inteligência, porque para nos tornarmos sensíveis é preciso esforço, trabalho árduo de conhecimento de si e do seu estar no mundo. É preciso desenvolver a empatia, a alteridade e a compreensão de que a relação com o outro pode ser pautada em instâncias diferentes do julgamento, do preconceito e da competição por despeito. Um tratamento longo, mas necessário para se começar a ler os livros e a vida.

Despertar, porque ao desenvolvermos essa inteligência sensível somos capazes de evitarmos a banalização, a acomodação, o conformismo. Esse despertar é na verdade uma inquietação, é sentir-se tocado pelo outro, pela sua complexidade… trocando em miúdos, é ter a capacidade de retirar os olhos do próprio umbigo.

Ou seja, ler bem literatura é ler bem o mundo, se sensibilizar consigo e com os outros, entender suas angústias, seus medos, seus desejos, seus amores. Se isso é válido para a leitura, qual a implicação disso para a escrita criativa?

Será que é o bastante sermos simplesmente holofotes das injustiças? Como deixamos de ser apenas denunciantes para sermos transformadores da realidade? Podemos, enfim, propor soluções, profundidade de sentimentos, mostrar as nuances, as dores e glórias do processo e, sobretudo, as transformações possíveis? Podemos deixar de lado a imobilidade do vitimismo e a vingança pueril?

Imagem: Steve Mc Curry – Travelers, Reading

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