A farsa e a verdade em “A morte de um embusteiro viajante”

O que é o palco?

Das muitas passagens notáveis de “A morte de um embusteiro viajante” (Penalux, 2016), estreia em romance do cearense Emerson Braga, a pergunta acima é talvez o trecho que melhor defina a obra. Ainda que o xodó do autor seja o retorno (“retornar é o diabo” aparece repetidas vezes, como a nos lembrar de que há ali um inevitável acerto de contas, tardio e rejeitado), é o questionamento a respeito da natureza do espaço cênico que marca o livro. Afinal, é no palco que o ator se realiza em sua plenitude e, sendo um grande ator o protagonista, o palco pode ser traduzido como a própria vida.

Será, pois, a vida transformada em espetáculo que os leitores verão desvelada, toda ela resumida na complexa e trágica figura de Lázaro Bardo. Ator em fim de carreira, Lázaro decide despedir-se dos palcos em sua cidade natal, Campos do Jordão, muito graças ao convite de um velho amigo diretor de teatro, uma vez que se encontrava já há algum tempo no ostracismo. Orgulhoso e desapegado da realidade, Lázaro começa a se arrepender de ter voltado à cidade enquanto espera, em seu camarim, a estreia da peça que encenará, “Martelo Agalopado de Sófocles”, questionando a qualidade do roteiro e dos companheiros de palco, todos uns “deslumbrados que arrotam textos amadores”.

As coisas pioram quando bate à sua porta ninguém menos que Romeu, o personagem de Shakespeare, em carne, osso e renascentistas calças leggings, para anunciar a Lázaro que aquele será seu último dia de vida. Daí em diante, um a um, todos os grandes personagens shakesperianos já interpretados por Lázaro aparecerão para acompanhá-lo em suas horas derradeiras.

Apropriar-se da criação do maior dramaturgo de todos os tempos poderia ser grandioso demais para um romancista de primeira viagem, mas Emerson Braga consegue fazê-lo de modo natural. Optando sempre por apresentar a faceta mais aparente de cada um, desde o incurável romantismo de Romeu até a carência senil de Lear, o autor acaba resvalando no óbvio para evitar riscos desnecessários. No final da difícil empreitada, o saldo é positivo, exceto talvez por Macbeth, justo ele, que acaba subaproveitado na trama.

É bom que se diga que, mesmo competindo com os mais marcantes personagens de todos os tempos, toda a luz é de Lázaro. Vil, cruel, invejoso e egocêntrico, o velho ator é uma criatura pela qual não conseguimos sentir qualquer piedade, mas que sabe como ninguém conquistar a atenção da plateia. Sua presença é de tal modo magnética que mesmo os seus longos monólogos ao começo de cada capítulo não cansam, apesar de quebrarem o ritmo do texto. De fato, estamos diante de um verdadeiro artista que, por sua vez, está diante da morte.

Presente desde o título, a morte não assume papel maior que o de catalisador para a história. Mesmo com os constantes avisos de Romeu, Hamlet e, mais à frente, de Lear, a princípio nada de novo desperta em Lázaro, pelo contrário: a proximidade da morte apenas fortalece suas fantasias ególatras. Se não se percebe propriamente o medo da morte, é porque há um temor maior oprimindo o protagonista, o pavor supremo de (quase) todo artista: o esquecimento. Lázaro não se preocupa com céu e inferno, não nutre saudades antecipadas da vida. Artista reconhecido que é – ou foi –, seu desejo é a imortalidade através da arte. Ou como o próprio diz: “quero viver para sempre em livros e revistas”.

São nas reflexões a respeito da arte e da marca que o artista quer deixar no mundo que reside o grande trunfo de “A morte de um embusteiro viajante”. Sempre através do olhar ácido de Lázaro, somos levados pelos caminhos da vaidade artística, que em sua mente doentia se confunde com o próprio talento. “Todos os homens que não sabem direcionar a própria vaidade têm mortes terríveis”, ele diz a si mesmo, “então deverei sofrer uma morte emblemática, memorável”. É notável a importância que Lázaro dá ao sucesso, ao reconhecimento, à memória, como em uma de suas muitas reclamações a respeito da peça: “de onde o Agrela tirou essa ideia de adaptar o conto de um autor que ninguém ouviu falar ou sabe quem é?”. Para ele, só merece atenção aquele que a conquista à força, traço marcante de uma personalidade individualista e cínica que apenas ao final da leitura entendemos como se forjou.

E é também no final que entendemos os motivos que levaram o autor a optar por um texto tão teatral, para além da clara relação com o protagonista. Os atos e as cenas são cuidadosamente postos para um resultado catártico que, mesmo carregando um tanto no lirismo, entrega uma curva de desenvolvimento de personagem honesta e crível. O narrador, que na maior parte da obra aparece quase como um intruso, assume a função de traduzir os sentimentos de Lázaro quando monólogos já não são mais possíveis, em um feliz encontro do teatro com o romance.

Se em seu famoso solilóquio Macbeth declara que a vida é som e fúria, Emerson nos mostra que ela pode ser transformada em paixão e água, derramando-se pelos muitos palcos em que a encenamos. E faz isso em apenas um dia, um dia louco.

Ou melhor, “LOKO”.

PS.: O conto “Martelo Agalopado de Sófocles”, que inspirou a peça no livro, não só existe como é de autoria do próprio Emerson Braga. Confira neste link.

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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