A Dança

Eu me apaixonei pelo riso fácil e pelos olhos negros sublimes.

Na pista de dança, eu ensaiava um básico 1,2,3 – 1,2,3 com os braços para cima, meio perdido, meio tentando me perder, quando a vi/senti/ouvi/cheirei

ela estava suada, os cabelos castanhos amarrados atrás da cabeça, uma camiseta branca, um perfume floral e uma dança – sim, pois aquela era uma pessoa que sabia dançar. Era dona de cada membro, músculo, passo e gesto. Estava a menos de três metros de mim, e a única coisa que eu queria era poder tocá-la.

E a energia do universo condensava-se ao seu redor criando um halo único de beleza e agressividade, transformando sua dança num nervoso processo de entropia místico-musical, até que

Nossos olhos se encontraram.

Eu jamais esperava que aquilo fosse acontecer. Havia dezenas de outras pessoas ali, mas

ela veio para junto de mim num misto de dançar e andar, gingando pela pista, rompendo a multidão com uma suavidade líquida, e naquele momento o tempo pareceu se contrair e parar, pois por algum motivo inexplicável, só existíamos nós dois.

Começamos a dançar, achando alguma harmonia no caos. Ela ria de mim, de meu esquisito arremedo de dança, e eu ria com ela, de sua beleza selvagem, de sua pureza suada.

Tão intimamente estranhos.

Toquei-a, e ela cedeu a meu toque, que era forte, imperioso e cru, um conquistador espanhol invadindo as Américas puras e livres do cristianismo sanguinário, mas não do sangue.

O beijo não tardou, vindo à crista de uma pressão urgente e obsessiva, cumulando os esforços, os anseios e sonhos de um rapaz inseguro e cheio de expectativas que ainda não havia beijado ninguém aos dezessete.

Mas o destino – ou fado – tinha outros planos, pois a moça logo me largou e, rodopiando como um dervixe alucinado, doou-se a outros tal qual tinha se dado a mim.

FrustraçãoDelírioLoucuraMedoRaivaSolidãoRevolta

Nada mais fazia sentido. Onde estava o amor, aquele que povoava os livros de poesia e os filmes, tão desejado sobre o travesseiro forrado de insônia, solidão e desejos secretos?

Fugi e me escondi no balcão mais próximo. Cercado de estranhos, pedi uma vodca. “A garrafa”, falei, imperioso, tentando me sentir mais homem. Talvez aquela bebida alienígena fizesse com me sentisse em casa.

Bebi até que nenhum sentimento tivesse mais supremacia, e o bar fechou e todos se foram, e eu cambaleei até a praia para ver o nascer do sol e dormir na areia e acordar as nove da manhã de ressaca com a cabeça quase explodindo e gosto de vômito na boca.

Nunca a esqueci. Minha carne lembrava com precisão da pressão, do cheiro, do gosto de sua língua, de sua temperatura, da voz rouca roçando meu ouvido e arranhando minha alma.

Jamais consegui esquecer aquela dança.

*         *         *

Despertei com o barulho da chuva.

Eu sempre soube que nunca mais me sentira assim, e que aquela noite jamais se repetiria, nessa vida ou em outras. Mesmo assim, após vinte anos, sabia que tinha tudo para ser feliz.

Beijei a testa de minha esposa, que se mexeu incomodada – pelo frio, talvez –, e ajeitei seu lençol.

O que ela estaria sonhando agora? Que lembranças povoariam sua mente quando se achava entediada? Jamais conheceremos ninguém! Os filhos, a mulher, pais, irmãos e amigos… uma legião de estranhos, cada um com uma história feita de recortes e escuridões, com muitos segredos e poucas coisas a mostrar.

Tentei dormir, mas o sono não encostava em mim. Eu deveria sair de casa às sete, pois era diretor-geral, e os diretores têm de dar exemplo chegando na hora, mas

talvez depois do expediente eu saísse para tomar uma vodca e dançar um pouco, 1,2,3 – 1,2,3.

E talvez aquela moça – que agora deveria ser uma senhora, como eu era um senhor – se aproximasse com mil promessas vazias no beijo. Mesmo sabendo que isso era improvável, esperava que não fosse impossível

Porque eu continuava indo à mesma pista toda sexta-feira, e dançava 1,2,3 – 1,2,3, mas ela nunca apareceu. E eu sabia porquê.

Ela fora capaz de fazer o que não conseguira: perdera-se numa pista de dança nos anos 1980, para sempre lembrada e desejada por este menino que envelhecera por fora, mas por dentro era só arrependimento e desejo de sumir na estrada.

Será que ela, algum dia, pensou em mim, no nosso beijo, na nossa dança?

Virei-me na cama e senti, junto com o braço de minha esposa, o desespero diminuir.

Apenas o necessário para que eu dormisse mais uma vez.

Eu tinha tudo para ser feliz.

1, 2, 3 – 1, 2,3.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.