Heist – Parte 1

– Lana, como vão as coisas no Setor A? Câmbio. – Perguntou a voz de Odisseu, através do comunicador, enquanto caminhava pelo corredor até a sala de controle.

Ele e Lana haviam se separado há alguns minutos. Ele não estava preocupado com as câmeras nem com os droides da segurança. Fora criado para invadir lugares. Já Lana era uma ciborgue de curtos cabelos roxos e vermelhos. Sua pele branca, envelhecida pelo sol, era enrugada no rosto e tensa sobre os fortes músculos. Grande parte de seu cérebro era robótico, o que dava a ela certas habilidades.

Assim como Odisseu, ela fora criada pelos Laboratórios da ONU. Supersoldados enviados a infinitos mundos em busca de um novo lar com condições para que a humanidade não sucumbisse a morte de seu próprio Sol. O projeto havia começado milhares de anos antes, superseres indo e voltando dos mais diversos ambientes, conhecendo alienígenas, coletando informações, montando um grande mapa da galáxia onde a raça humana se espalharia e se tornaria eterna.

Bem, pelo menos essa era a história contada. Assim que os planetas foram listados e se calculou como seria caro levar toda a raça humana até lá, na distante galáxia de Andrômeda, tomaram a decisão mais humana de todas: Quem pudesse pagar se salvaria. Quem não tivesse condições, queimaria junto ao Sol.

Há decisão mais humana que essa?

– Dez droids a frente, Od. Posso lidar com eles. Câmbio. – Respondeu Lana, ajoelhando-se e observando o corredor através das câmeras de segurança.

As máquinas eram grandes e estavam armadas até os dentes. Humanoides, de cabeça redonda, com três câmeras oculares azuis, dando lhes uma visão de trezentos e sessenta graus. Mãos de três dedos, cada uma com a capacidade de se converter numa arma semiautomática de grosso calibre e disparos rápidos.

– Odisseu, preciso que você limpe a sala de segurança. Se eu entrar muitas vezes ou permanecer muito tempo nesse firewall serei detectado e a missão vai para o brejo. Lana, precisa de uma expansão? Câmbio. – Disse Lúcifer, o hacker, também no comunicador.

– Me linka nos dois primeiros, Lucy. Câmbio. – Pediu a ciborgue.

Pelo comunicador ela escutou os dedos ágeis de seu companheiro no teclado. Fechou os olhos e fez uma prece a qualquer deus que estivesse ouvindo. Se tomassem aquela base, salvariam pelo menos umas duzentas pessoas. Pessoas de verdade. Não aqueles monstros cheios de dinheiro que os fizeram andar metade da galáxia para salvar suas bundas gordas.

– Conectada. Esperando o Odisseu. – Informou Lúcifer, o hacker.

Odisseu abriu a porta da sala de segurança, onde os humanos coordenavam a ação das máquinas que protegiam as naves construídas para salvar a vida dos ricos, e entrou.

Ao ver a porta se abrir sem motivo aparente, os três seguranças, duas mulheres e um homem se entreolharam. Uma das mulheres, de pele morena e cabelos escuros, veio até a porta e a fechou; deu de ombros e voltou ao seu lugar.

– Estranho. – comentou o homem, careca, branco de olhos finos. Girou a cadeira para frente e voltou ao seu trabalho, mexendo os botões na tela e observando as imagens das câmeras de segurança.

Odisseu respirou fundo. Não gostava de matar. Pensou naqueles que salvaria, nas vidas inocentes, desamparadas e pobres que salvaria matando aqueles homens e mulheres.

Salvarei 200, pensou, e então matou uma mulher e um homem, tão próximos um do outro que os ceifou com um único movimento. Seu braço esquerdo projetou a lâmina que atravessou o pescoço do homem e seu braço direito a lâmina que penetrou o pescoço da mulher. O casal morreu imediatamente, sem sofrimento. Os corpos tombaram sobre o painel de controle. A morena estava prestes a gritar, mas Odisseu foi mais rápido, correu em sua direção, apertou seu pescoço e a ouviu sussurrar:

 – Quem é você?

 – Eu sou ninguém. – respondeu, olhando-a com seus profundos olhos azuis.

Matou-a com um golpe limpo no pescoço e Odisseu sentiu o sangue sobre sua pele negra.  Soltou seu corpo e fez o sinal da cruz, pedindo perdão por mais um de seus inúmeros pecados. Ligou o comunicador e avisou:

– Lúcifer, a sala é nossa. Como faço para desativar os droids?

– Não é seu propósito. – Disse a doce voz de serpente do rapaz. – Apenas conecte o dispositivo que eu lhe dei e a ONU não saberá que a base foi tomada. Cada base foi construída como um sistema fechado e apenas a sala de controle tem comunicação com o mundo externo. A base é nossa. Agora, Odisseu, os ricos que fizeram reservas estão dormindo no andar de cima, quero que você dê um jeito neles. Lana, os labirintos ao redor da sala de controle, assim como o deck de lançamento, estão cheios de droids; destrua-os.

-Estou indo para o andar de cima. – Disse Odisseu enquanto terminava de conectar o dispositivo. – Eles estão dormindo?

 

– Yep.

– Menos mal. Lana, quer ajuda?

– Me encontra no corredor depois do extermínio, Odisseu. – Pediu Lana. – Lucy, me conecta.

Através do comunicador, Lana ouviu Lúcifer ao teclado e sentiu a parte eletrônica de sua mente ser jogada na nuvem pelo hacker e enfiada a força no corpo de dois dos robôs que protegiam o corredor. O firewall das máquinas parecia um inseto diante da programação do hacker e rapidamente Lana estava no controle de duas das dez máquinas de combate que defendiam o corredor.

Seus dois robôs se viraram, seus braços se transformaram em armas e começaram a metralhar os antigos companheiros de vigília. Quatro deles foram alvejados pelas balas; o restante iniciou o contra-ataque.

Lana entrou no corredor, deixando que seus dois escravos servissem de escudo. Protegida, ela lançou uma granada que exterminou o restante dos inimigos. Após a explosão, ergueu-se e os robôs que ela controlava caíram, cheios de buracos de balas, queimados e inutilizáveis.

Um alarme soou.

– Lúcifer? – Perguntou ela, transtornada.

– Não se preocupe. É interno. Estou mandando um sinal da sala de comando dizendo que está tudo bem. Ninguém lá fora saberá o que está acontecendo aí dentro. E não se preocupe com os ricos; Odisseu cuidou deles.

– Não precisava de ajuda? – Perguntou Odisseu, sua pele negra se materializando no corredor e observando os droids em pedaços.

 – Faltam nove corredores. – Disse Lana, erguendo o rifle e avançando para o próximo corredor.

  – Te dou cobertura. – Disse Odisseu, desaparecendo.

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

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Oziel Herbert

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.