CA-TA-RI-NA

― E você, querida, vamos tentar mais uma vez? ― pergunta a professora, tendo uma das mãos pousada sobre o ombro de Catarina ― Primeiro, a meia lua. Em seguida, uma bolinha com uma perninha ao lado. Daí, um laço grande preso lá em cima com um prendedor. Mais uma bolinha e depois puxe a perna para o lado. O que vem agora é a mesinha, não é? Muito bem. Ao lado dela, ponha o abajur com a lâmpada na ponta. Lembra? Correto! E a próxima letra? É o camelo ou o dromedário? Você ainda sabe qual deles tem uma e qual tem duas corcovas? Isso! Quem vem agora é o dromedário. O que falta para terminarmos? Vou te dar uma dica: Você já escreveu essa letra duas vezes. Isso! Outra bolinha com uma perninha saindo para a direita. Pronto.  Eu mal ajudei e você fez tudo direitinho. Poderia ler para mim?

 ca-ta-ri-na.

Apesar de seus 72 anos, dona Catarina aparenta ter bem mais idade. Os sulcos em seu rosto traduzem a história da mulher que começou a trabalhar muito cedo e pouco conheceu os prazeres da vida. De jeito tímido e olhos castanhos que pedem desculpas por tudo, evita distrair-se com as conversas e brincadeiras dos outros alunos.

A catarata que cresce silenciosa em suas vistas não a impede de manter-se vigilante. Como se hipnotizada, acompanha o movimento do pincel bailando sobre a lousa feito uma varinha de condão. As palavras, depois de escritas, ganham sons ao serem reproduzidas pela boca da professora que, de tão bonita, deve lá ter mesmo dotes mágicos.

Ainda emocionada, Catarina deixa seus olhos se derramarem sobre a folha quase ferida pelo constante movimento da borracha e observa seu próprio nome como se admirasse uma fotografia na qual pudesse, pela primeira vez em sua vida, se enxergar bonita. A palavra que a designa salta do papel como a mão de um padre molhada em água batismal. Sua existência adquire significação suficiente para restituir o direito negado por tantas décadas: o de ser alguém.

Apesar de sua conquista, rejeita a felicidade emergente e apenas se permite experimentar uma tímida comoção. Sabe que o substantivo próprio escrito por sua mão é somente a primeira de muitas recompensas por seus esforços estudantis, mas duvida que as próximas alegrias tenham sabor superior ou ao menos semelhante a este primeiro suspiro de autorrealização: Ca-ta-ri-na.

Mesmo com suas dificuldades, não se acredita uma aluna ruim. Afinal, em uma única aula havia decorado todas as vogais e era, inclusive, capaz de distingui-las nos cartazes espalhados pelo asilo. Já as consoantes parecem destinadas a atravancar seu aprendizado. Promíscuas, misturam-se umas às outras e produzem novos sons, o que Catarina acha belíssimo, mas dificultoso.

Caso realmente queira ganhar da professora elogios menos comiserados, precisará treinar bastante sua escrita no caderno de pauta dupla. Nunca tivera problemas com números, sabia escrevê-los e operá-los como poucos idosos no Lar Santo André Avelino. Mas, decifrar palavras, ler as frases gravadas na cartilha, são desafios talvez ainda maiores que uma viuvez precoce ou o desafeto dos filhos.

Com aspereza, uma das cuidadoras pede licença durante a leitura do poema A Bailarina, de Cecília Meireles, e solicita que Catarina a acompanhe. Antes de prosseguir em seu tímido recital, a professora assente com a cabeça e permite que a aluna se ausente por alguns instantes. Agradecida, Catarina levanta-se de sua carteira e prende o caderno ao peito, antes de segurar o braço da mulher que a conduz para fora da sala.

― Quando um dos colegas é chamado no meio da aula, é porque tem visita ― pondera mentalmente a solitária educando ― Faz tempo que não recebo nem mesmo ligação de Seu Ninguém. Será Marina ou Carmelo? Talvez um de meus netos. Ah, não importa. Vou mostrar meu nome escrito com a minha própria letra. Eles vão gostar. Quem sabe me levem pra dar uma volta, dormir uma noite na casa deles…

― Avozinha ― diz a diretora do asilo no instante em que Catarina é acomodada diante de um velho e imponente birô ―, tudo bem com a senhora?

― Meu nome é Catarina, com três “as” ― esclarece, mas sem rispidez.

― Bom ― prossegue a mulher sem dar muito importância à fantástica observação de sua interna ―, o assunto que precisamos tratar é um tanto delicado, entende? Por isso eu precisarei de sua total atenção e sinceridade. Há dias os velhinhos que vivem em sua ala vêm reclamando do sumiço de suas cartas. Antes acreditávamos que eles mesmos haviam perdido os envelopes ou jogado as correspondências fora e não se lembravam de o terem feito. Hoje, uma das arrumadeiras encontrou em um móvel de seu quarto todas as cartas que haviam desaparecido, dezenas delas, organizadas e presas por fitinhas coloridas, como se fossem suas. Muitas delas sequer foram abertas, o que é um alívio, pois poderão retornar intactas a seus donos e donas. A senhora nunca deu problema, acho que nunca a vi nesta sala. Eu não entendo. Roubar cartas, Dona Catarina? O que há? Não tem pena de seus pobres amigos, que pouco recebem visitas? Tudo que eles têm são palavras no papel. Não é justo e nem correto o que a senhora vem fazendo.

― Aqui não tem jornais, nem livros ou revistas. Naquela tal de internet que botaram pra gente no salão, nenhum de nós sabe mexer ― tenta explicar-se ― Depois que eu lesse cada uma delas, eu iria devolver ― confessa Catarina quase sussurrando. Está envergonhada. Tem a cabeça baixa e seus olhos lacrimejam.

― Como? ― exalta-se a mulher que a interroga com severidade desproporcional ao delito ― Espere um pouco, acho que não entendi… A senhora ainda confirma que pretendia mesmo ler as cartas? Ai, Jesus! Ainda bem que é analfabeta. São as histórias de outras pessoas, Dona Catarina! Nenhuma delas lhe pertence, compreende? Sei que é sozinha, mas isso não lhe dá o direito de tomar para si a vida dos outros.

― Então você não vai me deixar levar as cartas de volta? ― pergunta a velha mulher, em prantos, como se arrancassem de seus braços o corpo sem vida de um filho.

― É claro que não! ― grita a gestora da instituição ― E se dê por satisfeita por eu não dizer para os outros avozinhos que foi a senhora quem pegou suas cartas. Ora! Que coisa feia! Onde já se viu? Roubar depois dos setenta! O que diriam seus filhos? E nada mais de aula hoje pra senhora. Desde que começou a estudar ficou cheia das ideias. Anda, leva ela daqui ― solicita à cuidadora, que a tudo assiste com um desastrado sorriso no rosto.

Já no quarto, Catarina acomoda-se sobre o colchão e observa com pesar as gavetas movidas e vazias de seu móvel de cabeceira. Poderia deitar e chorar pelo resto do dia, mas havia deixado de ser assim. Algo se modificara dentro dela, não choraria mais por aqueles que eram incapazes de enxergá-la.

Corajosa, ergue-se e afasta com alguma dificuldade o pequeno e tolo criado-mudo que não soubera guardar seu segredo. Tendo a parede disponível diante de suas revolucionárias pretensões, retira o lápis da bolsa e escreve seu nome sobre a superfície limpinha, com uma letra bem escura e grande.

― Ai, se uma delas me pega! ― diz Catarina com um riso, antes de devolver o móvel à sua posição original, a fim de camuflar seu mais recente delito ― Acho que virei uma criminosa. Ao menos meu nome, a mais importante de todas as palavras, ninguém conseguirá arrancar de mim. E, quando eu terminar o curso, vou pegar aquelas cartas de volta. Quero só ver a polícia levar presa uma mulher de setenta anos que sabe ler e escrever!

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.