À noite, todos os gatos são pardos

Algum avô da família costumava dizer que só os gatos e os homens de alma triste entendem a noite. Nas festas de fim de ano, era possível perceber o olhar dele sobre aquele mar de crianças que levariam o amado sobrenome para o futuro. Franzindo a testa ao tentar adivinhar aqueles que seriam os homens e as mulheres “do dia”, os que virariam médicos e engenheiros concursados, e aqueles que seriam os fracassados, os beberrões, os flagelados por um gene de eterna insatisfação insistente na família há gerações: os “da noite”.

Imagino o olhar prepotente desse velho, possivelmente morto, encarando o meu eu de vinte e cinco anos. Tinha acabado de queimar parte da sobrancelha ao tentar acender um cigarro na boca do fogão. Não tinha conseguido achar o isqueiro na bagunça da casa. Era o último cigarro. Olheiras de insônia, ou das farras consecutivas, envelheciam o meu rosto. Horas pelado, horas vestindo apenas uma cueca velha, eu andava inquieto pelos cômodos da casa. Por vezes, eu parava em frente ao espelho e contemplava aquela figura que me tornei. Uma alimentação baseada em macarrão instantâneo e pão com ketchup havia me engordado. Tatuagens aleatórias, uma barba por fazer e um membro modesto e levemente torto para a direita. Que ironia política!

É preciso um preparo mental, uma vocação e uma sensibilidade apurada para ser um admirador da noite. Na verdade, somos escolhidos. Assim como os gatos, que buscam uma brecha do céu entre as redes de proteção da área de serviço para ali ficarem, por horas, encarando a lua.

É preciso saber ouvir a noite. Ouvir os grilos. Ouvir os carros freando nos cruzamento. Ouvir o caminhão do lixo.

Há algo solitário nos sons do caminhão do lixo. É uma sequência de ruídos que incomoda o sono de quem dorme bem, mas que distrai e até serve de relógio para os com insônia.

Aqui o caminhão de lixo passa às duas da madrugada. “Puta merda! Eu já deveria estar dormindo”, costumo pensar ao ouvir os primeiros ranges-ranges e apitos. E por minutos vejo no verso das minhas pálpebras toda a movimentação na rua.

Os homens saltam da caçamba, pegam os sacos plásticos lotados e fedidos em uma pilha e arremessam em lances dignos de três pontos. E as sacolas se batem revelando o segredo do que contêm. Por vezes, uma garrafa se despedaça no que seria o grande momento da noite. E lá se vai o caminhão com os apitos e as luzes amarelas em busca de outra pilha de lixo.

Só os solitários notam a rotina do caminhão do lixo.

— Querido, você ainda não dormiu?
— O caminhão do lixo ainda não passou.

Eu costumava ser uma das únicas crianças da vizinhança numa Fortaleza da década de noventa. Era um bairro de velhos. Na minha cabeça, a culpa era do cemitério que ficava ali perto e atraía os idosos que, diante da proximidade da morte, mudavam-se para já ir se acostumando com o bairro derradeiro e eterno de suas moradas. Se fossem bons vizinhos, a facilidade logística talvez rendesse uma visita ao túmulo vez por outra. Os mortos precisam de alguém para arrancar os matos que grosseiramente crescem na lápide. Os mortos não são solitários, mas os velhos sim. “Nasce-se dia, morre-se noite”, teria eu dito ao velho patriarca.

***

Só os solitários fazem um bom café.

Parece um preço justo a pagar pelo talento no preparo do pretinho.

Era unânime: o melhor café da cidade era o feito por Mirtes.

Duas ou três vezes por dia, o aroma escapava do apartamento da solteirona empestando todo o condomínio e entrando até pelas janelas mais bem vedadas. Os vizinhos já pareciam ansiar aquele cheiro. E havia sempre uma visita despretensiosa: “Olá, Mirtes! Estou indo ao supermercado e vim saber se você precisa de algo”. E ela sempre convidava para um cafezinho. Quando saía, levava uma xícara para o porteiro: Seu Jaime.

Não era a qualidade do pó, ou o tempo de cozimento, ou o pano de coar. Era a atenção dada ao preparo. Quando se vive só, tem-se ao menos que saber fazer um bom café para esquentar nas noites frias, para inspirar, para pensar, para perguntar à xícara uma opinião terceira. Há quem prefira uma xícara de café a um abraço. E Mirtes sempre foi só.

Mas, um dia, Mirtes arranjou um namoradinho. Apaixonada, esqueceu de fazer o café nos horários habituais. Os vizinhos se preocuparam. Teria acontecido algo? Perdeu a mão. O café passou a ser só café. Seu Jaime sofria calado em sua guarita solitária. A gota d’água foi quando uma caixa de uma dessas cafeteiras elétricas foi entregue na portaria como presente de casamento. Anoiteceu no Montese.

***

E o escritor cearense, traído pela própria simplicidade, ganhou fama escrevendo sobre mulheres únicas. E todas as mulheres queriam ser únicas. E o apartamento tornou-se um entra e sai delas. Belas. Com fantasias inusitadas que inspirassem algumas páginas no próximo sucesso do poeta ou confiando-se no próprio talento para deixarem marcas profundas nele e quem sabe ganhar uma letra de samba. E a falta da solidão roubou-lhe o talento. Começou a escrever para uma agência de turismo.

***

A garota no vigésimo andar foi lavar o vibrador e molhou a parte que não podia. O aparelho queimou e a ‘parte divertida’ não mais funcionava. O vibrador tinha nome: Hulk. Vibradores têm nomes. Nunca pensei nisso. Nunca pensei em possíveis nomes para vibradores. Por fim, a garota comprou um novo. Posicionou-o na pia do banheiro e buscava inspiração divina para batizá-lo, mas nada vinha-lhe. Tinha que ser um nome forte, preciso. É que ela é dessas que ainda se importa de saber o nome primeiro.

E em bairros distintos e distantes da capital alencariana, duas mulheres eram veladas. Uma freira e uma prostituta. Ambas com apenas seis pessoas ao redor do caixão.

No caixão da freira, muitas flores. A pobre puta de vinte e cinco anos tinha um pano branco bordado cobrindo-lhe o tronco e pernas. A freira vestia um hábito. A puta não vestia roupa de puta, usava um vestido emprestado que talvez a dona cedeu com pena, porém convicta da boa ação, pois ninguém deve chegar ao céu com roupa de “mulher da vida”. Minha mãe costumava dizer algo parecido quando eu insistia em sair de casa maltrapido.

— Se você morrer hoje, vai chegar ao céu usando essas roupas ridículas.

— Mãe, eu não vou para o céu.

— Não importa. É sempre bom causar uma boa primeira impressão.

No velório da puta, numa sala onde os sofás tinham sido afastados para caber o caixão, ninguém disse belas palavras. As amigas de profissão começavam discretamente a combinar a partilha de clientes da falecida.

No velório da freira, as amigas olhavam com tristeza, talvez imaginando qual delas seria a próxima e torcendo para que mais gente viesse para a despedida. Essa preocupação não passava na cabeça das prostitutas. As freirinhas rezavam mistérios e salve-rainhas. Acredito que as putas se confundem se ‘Ave Maria’ vem antes ou depois de ‘Santa Maria’. Curiosamente, as putas também se chamam por irmãs.

Uma muito casta, outra tão pagã quanto se pode ter notícia. Ambas mulheres de ninguém. Sós. Com seis pessoas para velá-las o corpo. Uma com tantas primaveras, outra com agostos e agostos.

***

A solidão não tem escrúpulos.

Éramos os filhos da noite. Solitários. Ótimos fazedores de café. Envelhecidos pelos excessos mentais. Desempolgados. Meu avô estava certo: “Pobres coitados de olhares vagos. Vão adoecendo de dentro para fora. Perdidos nos mais sinceros e intensos pensamentos. Mas há uma beleza neles. Um mistério encantador. Como se eles soubessem muito mais sobre a vida do que nós. Talvez saibam mesmo. E a melancolia é o preço da compreensão. Pobres coitados. Vão morrer sozinhos”.

— Mas não morremos todos?

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

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Thiago Noronha

Administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!