Ovelha negra

Há dias em que nos estressamos tanto a ponto de sentirmos dor de cabeça. Naquele, em específico, todo o meu corpo sentia algum tipo de dor. Quando abri a porta de casa, entrei e decidi me trancar para, só então, me sentir livre. Tirei os sapatos de maneira nada cautelosa e arranquei do meu peito minha blusa, quase a rasgando. Peguei na minha coleção de CDs algumas obras da década de setenta e coloquei para tocar minha música predileta. O som começou – “Levava uma vida sossegada…” – Depois veio a minha parte favorita: “Você é a ovelha negra da família…” e somente após a compreensão das palavras a dor me habitou. A música “Ovelha Negra” sempre possuiu esse dom – o de me tocar o íntimo.

O dia fora sombrio, o que é estranho cogitar em um dia ensolarado. Discuti, logo cedo, com um cobrador do banco do qual sou cliente por ele exigir que eu pague taxas que eu já jamais tomei conhecimento e até mesmo um seguro de vida que nunca solicitei. Quando informei que não pagaria por nada, ele me explicou que já havia debitado tudo da minha conta pessoal. Surtei e questionei o porquê, mas não entendi nada daquela explicação baseada em protocolos que jamais tive acesso. Desliguei e optei por não me estressar mais – ao menos, me exilar daquilo.

No trabalho fui repreendido por meu chefe por algo que não fiz – quero dizer, algo que jamais me pediram embora a posterior cobrança. Todos me viram ser humilhado por aquele homem gordo sem escrúpulos que sempre gritava por motivos supérfluos. Mais tarde a revelação, o erro não era meu (ele havia solicitado a outro atendente, não a mim), contudo não houve pedido de desculpas pela falsa acusação da parte de ninguém. Ao longo do dia, os clientes da Sindeaux Advocacia – empresa onde trabalho – decidiram que, ao lado do universo, estariam contra mim. Foram diversas reclamações sobre trabalhos prestados justificadas por motivos plausíveis e em alguns casos com direito a palavrões ofendendo minha pessoa. O que eu fiz? Só ouvia e tentava resolver ou minimizar os problemas.

No final do dia, quando eu já me preparava para sair, meu chefe – o gordo careca que só fala gritando – me mandou formular alguns relatórios. Imaginei que eram dois ou três, e, junto à falta de disposição em negar-me, optei por fazer. Quando recebi os documentos necessários na minha mesa, não se tratavam de apenas dois ou três relatórios, mas trinta e sete. Quase chorei e liguei para sala do meu chefe para perguntar se eu não poderia fazer os relatórios no dia seguinte, pois à noite eu teria um jantar especial com minha namorada. Ele se limitou a dizer um seco “não”, e comecei a fazê-los.

As memórias daquele dia me incomodaram tanto que quase esqueci que meu rosto agora estava encharcado por lágrimas. Chorar é o melhor remédio para o estresse, raiva ou dor sentimental, já dizia minha mãe. Eu não tinha o trabalho que eu queria, não tinha a vida que desejava, apenas a namorada que eu sempre sonhei, entretanto sempre soube que só vence na vida os que estão dispostos a mostrar a que vieram. Aquela água salgada – doces lágrimas – já estava molhando até meus cabelos, e a música não parava – “Baby, Baby, não adianta chorar… Quando alguém está perdido, procurando se encontrar”.

Eu gritava alto – era o segundo vocal. Cantei como se o fim do universo estivesse batendo à minha porta. Em um determinado trecho da música, Rita Lee errou a letra – sim, eu sou do tipo de pessoa que reclama quando as palavras cantadas pelo intérprete não condizem com as minhas. No espelho eu via aquele homem fragilizado e quase assassinado pelo cotidiano. Aqueles olhos verdes avermelhados não condiziam mais com aquele cabelo loiro marcante que um homem vaidoso faz questão de manter. Meus lábios avermelhados e carnudos não podiam mais chamar atenção enquanto o semblante de tristeza me habitasse.

A campainha tocou. Tão rápido quanto a luz, desliguei o aparelho de som, falei com minha voz habitual algo como “já estou indo”, limpei meu rosto, troquei de roupa e de expressão, retirei “Ovelha Negra” da minha mente e enfim abri a porta. Alguns podem dizer que eu sou hipócrita em não demonstrar ao mundo quem sou e o que faço quando tudo parece estar contra mim, porém cada um tem sua maneira de curar-se das enfermidades da vida – aquela era a minha. O que poderia eu fazer? Não sei, mas faço o de sempre. Choro e liberto minhas lágrimas no quarto e cesso minhas fraquezas e invento novos sorrisos na sala. Como creio que já citei, o mundo é daqueles que sabem mostrar a que vieram.

— Espera um pouco. Logo estarei pronto para o nosso jantar — era minha namorada na porta com um singelo sorriso no rosto.

Sua alegria nata, dentre todas as suas qualidades, era a melhor.

De muito falar de si esqueceu quem é, e transcreve os dados que encontrou: Admirador assíduo da fantasia inglesa, culpado por adorar o humor argentino, fã de Caetano e alguém que se sente velho apesar da idade. Não sabe o que essas informações podem oferecer a quem lê, mas sabe que escreve, pois só preso a isso consegue viver em liberdade.

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Conrado Franconalli

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