Para onde ir esta noite

— O tempo passa em ondas – falei. – Já reparou?

Estávamos na casa de um amigo em comum. Pessoas iam e vinham, cervejas na mão. Ela sorriu e mexeu no cabelo.

— Como assim?

Peguei sua mão na minha. Era macia e pequena, uma extensão de suavidade e leveza. Nosso contraste era evidente, mas confortável. Um arrepio e um calor subiram por meu braço.

— Quando fazemos algo de que não gostamos, o tempo vem como maré baixa: ondas lentas e constantes… um mar infinito, que corrói a tudo, sem pressa alguma – eu acariciava sua mão devagar, num gesto de vai-e-vem.

Ela me olhava nos olhos, e seu sorriso tornava-se mais largo. – Já quando fazemos algo prazeroso, as ondas transformam-se em ressaca violenta, destruindo tudo com velocidade incomum.

Aumentei a velocidade e a intensidade da carícia em sua palma, subindo por seu braço. Seu olhar, outrora indecifrável, tornou-se claro e preciso: ela gostava daquele contato, do toque quente da ponta de meus dedos contra a sua pele.

— Então… o tempo e o mar. Analogia interessante – disse. – Inesperada.

Sua voz era um sussurro próximo. Ela havia puxado a cadeira para mais perto, e agora nossas pernas se tocavam e trocavam calor. As pessoas conversavam e passavam, mas ali só havia nós dois.

— Eu queria te dizer como você é linda, mas acho já te dizem isso demais – falei.

— Tem razão – disse ela, mexendo no cabelo mais uma vez. A luz amarela da casa delineou seu rosto contra a noite que nos cercava. – Ouço isso demais.

Os olhos dela brilhavam. O rosto corado, os lábios vermelhos… tudo nela pedia um beijo. Ao fundo, um rapaz tocava Elvis.

— Você é diferente – ela falou. – Diz as coisas sem dizer.

— E você consegue ouvir?

Ela fez que sim. A brisa fria trouxe seu perfume para mais perto. Inclinei-me em sua direção, e o beijo foi doce, quente e macio.

Urgente.

O tempo veio em ondas violentas e velozes. Eu a abraçava e tentava cobrir cada centímetro e cada textura de seu corpo e cabelos. Ela absorvia e era absorvida com a mesma intensidade.

Éramos únicos.

Não sei quanto tempo se passou. Ficamos em silêncio. Ela me olhava, eu tentava decifrá-la.

— As pessoas estão indo embora… que horas são?

— Já passa das três – falei. – Posso te levar em casa?

Ela fez que sim. Segurei sua mão e fomos até o carro.

Após alguns minutos rodando pela madrugada, ela pediu que parasse. Estávamos em frente a uma casa antiga, de fachada colonial. Beijamo-nos de novo, mas, desta vez, não com a mesma intensidade.

— O que foi?

— Não podemos ficar mais – disse ela.

— Por quê?

— Eu tenho namorado.

Mais uma vez a dor. Raiva. Frustração.

— Tá tudo bem? – perguntou.

— O que não pode ser, não pode ser – falei.

Sorri, e fiquei orgulhoso de minha coragem fingida. Ela tentou me beijar, mas virei o rosto. Ela sussurrou um adeus trêmulo e entrou em casa.

Fiquei pensando nas possibilidades, nos amigos que tínhamos em comum.

Nada impedia que pudéssemos nos encontrar mais uma vez, e, que num futuro possível, ficássemos juntos. Mas, mesmo que isso acontecesse, nunca seria a mesma coisa. Nunca mais seria igual.

O tempo vem em ondas lentas que afogam. Solidão é algo que entranha e sufoca. As luzes passavam, coloridas, pelo para-brisa úmido de orvalho.

Estacionei e desci. Talvez o ar frio da madrugada me deixasse dormente, e me fizesse esquecer.

Fortaleza parecia sozinha e fria. Eu não sabia – nem havia – para onde ir esta noite.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.