A Batalha

Uma vez ouvi um sábio falar que a linha entre o amor e a estupidez era muito tênue. Na época, não compreendi o que homem queria dizer. Pensei nele como um afeminado que dizia aquelas bobagens por não conhecer o calor entre as pernas de uma mulher, não sabia da doçura de mel nos lábios da amada. Agora cada palavra fazia tanto sentido que minha cabeça doía como se martelassem.

No momento em que estou, aqui, nesse campo cercado de guerreiros fedorentos, com escudo e machado nas mãos sem sequer saber manuseá-los, eu fui capaz de entender. Acho que quando a morte fica mais perto ficamos mais espertos, o que é uma grande merda. Porque se possuísse essa esperteza antes, reclamaria enquanto arava o campo, longe do fio das lâminas. Tarde demais para me tornar um homem sábio. Vai ver que o que faz o sábio ser sábio é saber dessas coisas antes de estar como eu, sentindo o bafo da morte no meu cangote. Veja só esse raciocínio, não me reconheço!

Parando para pensar com minha sabedoria recém-conquistada, não sei se de fato amo Maria. Estava certo que a amava quando parti para essa batalha, prometendo usar os espólios para pagar o casamento e nossa casa. Eu a achava a mulher mais bela do mundo, agora é sequer a mais bela da vila. Aquela morena de seios fartos, que é serva do carpinteiro, agora me apetece muito mais, posso enumerar algumas outras que também estariam no páreo.

Meu Deus! Começou a marcha! O que faço? Se eu tentar correr de volta, um dos colegas fedorentos me mata. Puta que pariu, no que eu me meti. Eu tô andando? Caralho, é tanta gente que eles tão me arrastando junto, pelo menos não sou linha de frente, vou demorar alguns minutos pra morrer. Lá vem eles também, estão urrando e xingando! Estão em maior número ou é impressão minha? Cada passo ecoa como um estrondo, choveu antes da batalha o chão tá todo enlameado, parece que tô andando na merda.

É agora, vou lutar e vou matar esses malditos, vou voltar e casar com a oitava mulher mais bonita da vila, vou ganhar respeito. Que trovão foi esse? Caralho, isso foi os escudos se batendo? Eu não sei nem porque, mas eu tô gritando também. Ainda bem que tem um escudo bem grande na minha frente. Cadê o cara que tava na minha frente? Tem alguma coisa agarrada no meu escudo. É um machado, ele puxou meu braço para baixo. O cara tá sorrido para mim e a lança dele atravessou meu peito.

Não tem nem graça matar esses merdinhas, a porra da minha lança ficou presa no peito daquele coitado, pelo olhar que me deu nunca pisou numa batalha e morreu sem saber o que é sair de uma.

Eu grito para que meus homens quebrem a parede de escudos deles. Isso para mim não é uma luta é um ensaio. É até um pouco indigno.

A parede deles está se recompondo. Isso me irrita pois só estão adiando o inevitável.

Eu me anuncio, grito para eles que quem encontrou o grande Josan em campo de batalha pereceu. Queria lhes lembrar de quem enfrentam, no caos da parede eles podem esquecer de me temer.

Me cerro na parede com meus homens, sinto os escudos se chocarem de novo. Vamos ganhar território a partir de agora.

Preparo meus guerreiros com gritos. Posso sentir os corpos se retesarem ao meu redor, ganhando força para o movimento brusco, sinto as lâminas raspando meu elmo e a cota das minhas pernas, mas falta habilidade no inimigo para causar algum dano.

Rasgando o barulho da batalha eu dou o comando para que empurrem. Uso toda a força do corpo contra meu escudo, os inimigos cedem como se eu não estivesse empurrando nada.

Espere. Não pode ser tão leve, estou de fato empurrando o nada. Tropeço no cadáver do jovem imbecil que matei e vou com meu corpo ao chão. Levanto a cabeça e noto que eles recuaram todos ao mesmo tempo, no exato momento em que empurramos. Criaram um espaço entre os dois grupos. Quando fomos no ímpeto perdemos o equilíbrio. Muito espertos, ainda dá tempo de um sorriso antes desse machado me acertar a cara.

Matei Josan! Vou ser um herói, uma lenda, vão cantar sobre meus feitos. Puxo o machado para matar o próximo desgraçado, que se aproxima com uma estocada furiosa ao ver seu líder tombar. Meu machado não sai da cara do desgraçado, dou um segundo puxão, mas é inútil. Pelos deuses ele já está em cima de mim. É mulher? Vejo a lâmina cortando o vento. Não queria morrer assim.

Vi a alegria se transformar em medo, e agora vejo o brilho desaparecer dos olhos como uma vela soprada. Minha lâmina atravessou-lhe a carne mole do pescoço, maldito seja, matou Josan para depois morrer como uma criança. Me esquivo de uma espada e uma lança e volto para a segurança da minha parede de escudo. Usaram uma estratégia muito sagaz, quem será o líder desses guerreiros? Seja quem for, está conseguindo infligir duras perdas em nossas linhas usando sujeitos pouco hábeis.

Esse último movimento quase destruiu nossa parede, mas do meu lado lutam homens treinados e não se mata guerreiros de verdade assim tão fácil. Josan era forte, mas era um tolo, vencia com força bruta, um dia alguém esperto o faria pagar pela arrogância. Ouço os gemidos dos feridos a nossa frente, agora as duas paredes estão separadas por uma pilha de corpos. O ar está estafado, e, quando respiro, sinto o gosto de sangue, merda e medo descendo pela minha garganta.

Não há o que fazer, temos que avançar. Assumo o papel de Josan e comando os homens para frente, mas não sou tola, os ordeno para ir devagar. E assim começamos a marcha sobre os corpos, um passo de cada vez. O terreno é escorregadio, você tenta achar um espaço firme para pisar entre os cadáveres, mas são tantos que não há chão, apenas carne. O pior é pisar em alguém e ouvir o gemido, é o que acontece comigo. Olho para baixo e meus olhos encontram os do sujeito caído, não sei se é aliado ou inimigo, mesmo na escuridão posso ler em seus lábios o pedido de socorro. Desço minha lâmina curta em seu olho, sinto um leve espasmo subir pelo meu braço, uma morte rápida é a melhor ajuda que se poderia dar.

Que eu morra pelo fio da espada ou do machado com um sorriso no rosto, não sufocando sob uma pilha de defuntos. Escuto um barulho de movimentação na parede inimiga, abro uma pequena fresta para saber o que acontece.

Na mosca! Não acredito que acertei! Não acredito que acertei! Estão me olhando supressos, vou fazer pose de quem sabia o que estava fazendo. Era para ser só um tiro no escudo para atrapalhar a marcha, ela colocou a cara bem na hora, que azar. O dela, é claro. Agora talvez eu ganhe um pouco mais de respeito dos homens. A linha de escudos deles quebrou, eles aproveitaram a brecha e destroçaram a linha, parece que ela estava liderando depois da morte de Josan, pelos deuses eu matei alguém importante, que sorte. Agora meu pai vai parar de me chamar de covarde.

É uma barbárie, ainda bem que não tenho que ir para as linhas de frente, acho que hoje foi o dia de mais sorte da minha vida, a vitória é nossa.

Eles gritam meu nome, dá um orgulho ouvir as vozes reverberando pela parede. Papai me olha satisfeito, ele nunca me imaginou como herói de guerra. Me chamam de olhos de águia agora, por causa do tiro certeiro. Vou até ganhar um arco do maior artesão do reino. Nunca vou dizer que foi pura sorte. Contei para eles como antecipei que ela sairia de trás do escudo para ver o barulho, foi quase como se os deuses me mostrassem o futuro. Urros, brados, vivas, gargalhas e vinho.

Esse pombo assado está delicioso. Encho a boca com uma coxa e entorno o vinho para empurrar. Que sensação estranha, ficou preso. O osso tá preso na minha garganta, eu tô tossindo e ninguém me ajuda, estão todos rindo, eles pensam que é brincadeira. Não consigo respirar, o mundo tá escurecendo, tento gritar mas não sai som nenhum. Alguém percebeu, está me apertando, mas não sai, não sai! Essa porra de osso não sai! Sinto um solavanco, tapas nas minhas costas, não tá saindo. Eu vou morrer! Eu vou morrer engasgado com um osso de pombo. Ninguém mais tá sorrindo.

Que correria é essa na minha cozinha? O povo saiu de repente, no mínimo deve ter bebuns brigando lá fora. Eu não quero saber de briga. Grito para alguém mandar uma serva levar o porco, ele tá pronto e eu caprichei.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.