O caçador de flores

O sol estava se pondo. Por trás das árvores altas, o tom alaranjado dos últimos raios se misturava à escuridão da noite que estava por vir. Parei e acendi a tocha. Os cabelos da minha nuca já estavam eriçados. Olhei por sobre o ombro, um reflexo de quem se sente perseguido. O chão da floresta estava coberto de folhas secas que denunciavam a minha aproximação e não me permitiam ver onde pisava, um perigo em uma região com criaturas rastejantes, espinhos e outras armadilhas naturais.

Eu andava há horas, e pela indicação do mapa eu já deveria ter chegado. A ansiedade tomara conta de mim uma hora antes do sol se pôr, e naquele ponto já se tornara desespero. A única coisa que me protegia era o volume das folhagens que bloqueava o luar.

Mesmo assim, passei por um raio de luz prateado que atravessa as copas das árvores. Meu corpo estremeceu. Estava próximo. Olhei para trás ansioso, buscando um perseguidor invisível, minha mão instintivamente indo até o punho da espada.

Aquele maldito que me vendeu essa indicação vai pagar caro, mas o que esperar de informações fornecidas em tabernas? Apenas um tolo desesperado para cair nessa.

A sensação de ser espreitado voltou, porém dessa vez era outra coisa. Farejei o ar e senti um odor diferente, quase camuflado no cheiro doce da floresta. Odiava ver minha posição mudar de caçador para presa. Esperei, odiando a perda de tempo precioso. Escorei-me numa árvore e fiz um corte na mão com a adaga, espalhando o sangue ao redor para enlouquecer o predador. Afinal, não tinha a noite toda.

Deu certo: a fera saiu das sombras, correndo rápido em minha direção, certa de que eu não escaparia. Escutei o farfalhar violento das folhas: era o bote. Abaixei-me, evitando o golpe letal, e pude ver a beleza da fera passando por sobre mim, a pele de sua barriga sendo lacerada por minha lâmina, o sangue jorrando de seu abdômen e derramando-se sobre minha face.

Uma bastet. O pelo vermelho como quase tudo naquele lugar, o corpo comprido e musculoso, presas e garras tão afiadas que nem os melhores ferreiros conseguiriam imitar. Arquejava sobre as folhas secas. Eu não a deixaria sofrer. Ela me lançou um olhar quase grato enquanto minha adaga deslizava para seu coração. Reconheceu minha vitória.

— Me desculpe garota. Em circunstâncias diferentes eu não teria que fazer isso — me despedi dela com um toque suave, sentindo o último sopro de vida se esvair.

Tudo piorou. O odor de sangue atiçou o verdadeiro perseguidor, o predador invisível. Eu tinha que me apressar. Corri ensandecido, banhado em sangue, a perfeita imagem de um demônio.

A maldita floresta se abriu de repente, as árvores mais espaçadas, a luz da lua cortando a escuridão em fachos longos. Parei à beira da última penumbra, respirei fundo algumas vezes e corri como quem foge de um monstro. E eu corria exatamente disso. Não podia vê-lo, mas ele estava ali, espreitando, esperando-me baixar a guarda. Cada pequeno contato com a luz prateada mandava choques pelo meu corpo. Não ia dar tempo, eu sabia. Fracassei. Que os deuses tenham piedade daqueles que a encontrarem.

Cheguei numa imensa clareira. No centro, solitária e dominadora, a bela flor repousava. Acônito. Seu azul poderoso quebrando aquele oceano vermelho da floresta, como que afastando as árvores em volta.

A luz prateada me envolveu por completo. Meu olhar é puxado para o céu, e eu encaro a poderosa lua cheia pela primeira vez naquela noite. A luz me entra pelos olhos como agulhas perfurando a carne.

Eu estava tão perto…

Meu corpo se curvou como se levasse um soco no estômago. Senti a pele de minhas costas rasgar, escutei o rosnado da fera dentro de mim. Tentei segurar minha mente, mas ele me golpeou com violência. As botas se rasgaram, a calça também. Minha espada estava indo ao chão, mas com um ímpeto eu venci a criatura e segurei na empunhadura com tanta força que as unhas quase me atravessaram a mão. Não podia desistir.

Usei as pernas poderosas da criatura para saltar próximo à flor. Tentei abocanhá-la, mas a fera descobrira a minha intenção e virou o pescoço para me impedir, emitindo um ganido de dor com a proximidade. Não conseguia lhe atrapalhar o movimento. Em desespero, golpeei cegamente com a espada, e no movimento cortei o caule grosso da flor, fazendo-a jorrar seiva como um animal ferido jorra sangue, banhando a lâmina com seu plasma púrpura. A seiva que eu deveria consumir. O cheiro cítrico dominou o ar e aumentou o desespero da criatura, que tentava se afastar de qualquer modo. A agonia lhe dava forças para se livrar do resto de meu controle. A espada foi arremessada longe.

É o fim…

Fiquei ali, preso naquele corpo que não era mais meu. Ele farejava intensamente, buscando as presas. Tudo o que podia fazer era observar o mal que ele causaria, impotente.

Minhas memórias me golpeavam, punindo-me por meu fracasso. Via as crianças caídas no chão de madeira tingido de rubro, a mãe gritando em desespero, o pai tentando me expulsar com o forcado; via as vísceras e membros separados dos corpos, alimentos para a ira ensandecida por sangue. Mulheres, velhos, animais… O monstro não tinha critérios. Eu não tinha. Se ele faz, eu faço.

Então não poderia deixá-lo fazer novamente. Ele olhou em volta enquanto eu me concentrava para dominá-lo. Precisaria de toda a minha vontade. Percebi a espada no chão, presa pela empunhadura entre raízes, a lâmina virada para cima.

Ele farejou algo. Torci para que fosse na direção certa; era na direção contrária à ponta da lâmina. Ele preparou o impulso, e eu pensei nas crianças. Ele deu sua carga de corrida e eu a minha de vontade. Fiz tudo que pude. Ele não percebeu, mas o coloquei em direção à espada. O corpo grande, surpreso pela falta do controle, esbarrou contra a arma. Senti a lâmina de prata queimando minha carne. A besta uivou, um uivo selvagem e cheio de rancor e ódio, um uivo que despertaria demônios. Aquilo era demais até mesmo para a fera, a lâmina banhada em seiva de acônito.

Senti a consciência se esvaindo. Era um modo bom de partir. Ao menos eu venci no final. Não haveria mais crianças, nem pesadelos, nem pecados.

***

Acordei com o gosto do sangue em minha boca, o sol queimando minha face, a lâmina ao chão e o ferimento no peito fechado. Peguei uma muda de vestes na bolsa enquanto me recompunha. Olhei para a flor caída, seca e sem vida. Sem querer, uma lágrima escorreu. Busquei na bolsa pelo mapa. Uma nova indicação. Uma nova corrida contra o tempo. Acreditei que teria um descanso, mas os deuses parecem querer que eu sofra um pouco mais para pagar os pecados cometidos.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Claudia Jeveaux Fim

    Assim que eu me acalmar, eu comento! Ufa! Fiquei ali, assistindo a tudo, Wilson! Excelente! Parabéns!

  • Angela Cristina

    Caraca!
    Você me transportou para a floresta.
    Ótima história, parabéns!