Coluna, coluna e coluna

E agora tenho uma coluna.

Ter um espaço para escrever rotineiramente pode ser tanto um privilégio quanto uma maldição. Arrumar tempo e tema não é tarefa das mais simples. No meu caso, preocupam-me mais as falhas de comunicação que as crises criativas. Minhas opiniões são estranhas, minha escrita é tortuosa. As chances de meus textos serem mal interpretados são altas. Eis um colunista com medo.

Mas ser mal interpretado, às vezes, pode render bons resultados. Lembrei, inclusive, de uma anedota de guerra dos tempos do império romano que trata do assunto.

A cena: descampado até onde a vista alcança, alguns morros formando um estreito vale, uma multidão de homens portando lanças e escudos, bandeiras vermelhas flamulando ao vento, outra multidão idêntica oitocentos metros adiante com bandeiras azuis. A tensão que precede a batalha dominando os nervos dos legionários; do outro lado, os cartagineses parecendo calmos à distância, mas só parecendo.

Do alto de um imponente cavalo branco, Caius Aondius Quiserius, idoso e respeitado general romano, remexia-se na cela. Não, ele não pensava nas fileiras inimigas que já se preparavam para o confronto. Seu problema era mais comezinho: dormira de mau jeito.

Ao seu lado, Thedous Tudos Deboas, centurião de maior confiança do general (desses babões que fazem qualquer coisa pelo chefe, vocês conhecem o tipo), percebia a aflição do superior. Porém, mesmo sendo estúpido como uma porta, Thedous sabia de algumas coisas, entre elas que Caius já tinha chegado àquela idade em que se responde a bom dia com monólogos de trinta minutos. Tentou permanecer calado, mas, tendo o general começado a gemer, sua lealdade canina o obrigou a perguntar se estava tudo bem.

— Nada, Thedous! Marte deve desejar nossa derrota, só pode. Acordei com uma dor nas costas medonha. Venha, ajude-me a tirar a armadura.

— Mas senhor, os cartagineses…

— Ande logo!

Três legionários apareceram para ajudar, e em instantes o general encontrava-se deitado no capim, despido dos ferros.

— Que dor, que dor!

Não é de hoje que soldado é afeito a mexericos, e em pouco tempo tudo que é legionário já sabia que Caius estava caído (perdoem-me por essa), chorando feito um bebê. Uns falavam em uma certeira flecha cartaginesa, outros cogitavam traição, alguns pensavam em vingança dos deuses, e havia quem apostasse na caduquice do general.

Daí que certo soldado, viajante que há pouco chegara do extremo oriente, ofereceu-se para ajudar e já foi esfregando as mãos para massagear o lombo do velho. Naquela época ninguém entendia direito as maravilhas da quiropraxia, mas funcionava – a escola oriental, então, era uma beleza. Mais uns dez, quinze minutos, tudo ficaria bem, mas a comoção no exército romano já era grande demais para passar despercebida aos cartagineses e seu comandante (que não era o Aníbal, nem seu pai, Amílcar; vamos chamá-lo Joilson, porque na verdade seu nome pouco importa nessa história).

Pois bem, Joilson, percebendo a desorganização do rival, lançou-se ao ataque. E lá foi a turba na direção de nossos queridos romanos, mais bagunçados que delegacia na quarta-feira de cinzas. Gritaria, correria, trombetas, tambores, as músicas de “Coração Valente” e “Gladiador” tocando ao fundo, o inferno. Ninguém se entendia.

— General, o que fazer? — perguntou o desesperado centurião.

— Mais embaixo, mais embaixo.

— Tropas, desçam o morro!

E os romanos correram para o vale, num dos piores movimentos táticos que o mundo antigo já viu.

— Não, seu idiota!

O massagista parou.

— Você não — o general lançou um olhar de gelar a alma para o soldado massagista, que imediatamente retomou o trabalho. — Isso, isso, pode continuar.

— Tropas, continuar!

Os cartaginenses caíram matando na legião, pedaço de sandália voando pra tudo quanto era lado.

— Senhor, vamos perder! — o centurião já chorava.

Nesse exato momento, as mãos ágeis do massagista passaram de relance pelo ponto nevrálgico (adoro essa expressão) nas costas do general: era ali, era ali.

— Aqui?

— Não, ali.

— Senhor…

— Aqui?

— Não, não.

— Os cartagineses, general, estão nos massacrando. Qual a ordem?

— Aqui?

— Um pouco para esquerda!

— Tropas, para esquerda!

— Ah, aqui…

— No meio da coluna, porra, no meio da coluna!

— Tropas, atacar o meio da coluna! O meio da coluna!

E os legionários, obedientes como o centurião, juntaram os escudos e concentraram o ataque, quebrando a formação tão bem montadinha dos cartaginenses. A batalha virou em poucos minutos, de tal modo que quando o general Caius levantava aliviado os romanos já triunfavam. O jogo só termina quando acaba, amigo.

De pé, o general estalou a coluna, satisfeito, observando a coluna do exército rival destruída.

Consta que Tito Lívio escreveu uma coluna a respeito.

E este será o tom deste colunista. Sinto muito.


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

  • Michel Euclides

    Genial, meu General! Genial!

    Porém, tenho para mim que não deves te dirigir nem mais para esquerda, nem para a direita, pois acertaste o ponto nevrálgico aqui.

    Excelente! Que venham mais!

  • Emerson Braga

    Bicho, você me desmantelou aqui com o Joilson! Tu é fera, meu bom! Parabéns pela estreia épica! Rs!

  • Wilson Júnior

    Adorei! Joilson foi demais pra mim.

  • Lara Forte

    apenas morta com os nomes do povo! kkkkk Curti demais.