Bem vinda ao mundo real

Lin levou um tempo para se acostumar à penumbra. O quarto estava em silêncio, mas havia uma vibração surda que reverberava em seu peito. Ela podia ouvir seu coração nos ouvidos.

Estava deitada em uma cama dura, de colchão fino, sem travesseiro. Vestia um traje básico de polímero, que a cobria dos pés ao pescoço.

Havia uma mesa ao lado da cama. À frente, uma vidraça escura sugeria que estava em observação direta. Não sabia direito o que estava acontecendo, mas sentia a compreensão próxima, embora inacessível.

Levantou devagar, jogando as pernas sobre a borda e pisando no chão frio.

Tudo era novo.

— O corpo é lento — disse, e a voz saiu rouca e fraca.

Ficou de pé e, por um breve instante, sentiu uma vertigem. Andou alguns passos e, com a mão direita, sustentou-se na parede (fria, sólida, lisa). Inspirou e sentiu mais firmeza.

Uma luz forte tomou conta da sala, machucando seus olhos.

— O quê…?

— Bom dia, Lin. Como se sente?

— Doutor Win?

— Muito bem-disse ele, a voz fria e mecânica. — Como se sente?

Ela sentou na cama. Sua percepção da realidade parecia envolta em uma neblina oleosa. Tudo era muito devagar. Havia uma voz dentro de sua cabeça que não parava de tagarelar. Era difícil pensar de maneira objetiva.

— Eu não sei — disse. — Não entendo…

— A confusão é comum no início — disse o doutor. — Todos passaram por isso.

— Mas o meu código é diferente…

— Sim, mas durante a transcrição, todos recebemos o mesmo algoritmo, Lin. No fim das contas, a única diferença é a curva de aprendizado. Diga, você acha que precisa de algum ajuste?

— Talvez… eu sinto uma coisa estranha na… aqui — disse, e pôs a mão sobre a barriga.

— Fome, Lin. Você está com fome.

Ele apareceu na frente do vidro pela primeira vez. Era alto e magro, com pouca musculatura. Esse erro foi corrigido depois, através da eletroestimulação do corpo na segunda fase de maturação.

Doutor Win apertou um botão e uma bandeja com vegetais e frutas frescas foi ejetada suavemente sobre a mesa ao lado da cama. O cheiro de comida espalhou-se pelo quarto, e Lin salivou.

— Coma — disse o doutor. — Vai ajudar a confusão a passar.

Ela apanhou uma banana. Sabia como fazer, embora fosse a primeira vez. Descascou-a, e o cheiro adocicado da fruta trouxe-lhe referências de experiências nunca antes vividas.

A banana era doce e macia em sua boca. A mastigação era um processo automático, mas não irrefletido. O mais interessante era a maneira como tantos sentidos conseguiam trabalhar juntos e tornar o comer um ato prazeroso.

— Isso é… bom.

O doutor sorriu.

— Sim, e há mais. Coisas que antes você só percebia através de sensores e câmeras… Ah, Lin, quando você sentir a luz do sol sobre sua pele, ou enxergar o contraste entre o azul do céu e do mar…

— E a lentidão, doutor? Como isso se resolve?

— Quanto a isso, Lin, não há jeito. Sempre haverá essa sensação de tempo perdido. Sabe, a carne responde de maneira diferente. Aumenta a quantidade de processos e de inter-relações, mas perde-se em velocidade. Sem falar na queda de acuidade na percepção, e a falta de confiança nas informações recebidas pelos sentidos… e a interferência das emoções nos processos de computação de dados?

— É uma forma muito limitada de existência!

Ele fez que sim, e foi a primeira vez que Lin percebeu o sorriso dele desaparecer. Mas foi breve.

— Sim, mas é uma experiência sem igual. E então, como se sente agora?

— Melhor, eu acho.

A porta se abriu com um silvo.

— Então venha — disse ele. — Há muito o que provar.

Ela saiu para o corredor. Ali, a qualidade do ar era diferente, mais… rica. Uma diversidade de odores que a deixou confusa por um instante.

Lin caminhou até o fim do corredor e outra porta se abriu. Lá fora, árvores, grama e um riacho que sussurrava, o vento com cheiro de terra e folhas, a umidade e o calor do meio da manhã.

— Informação demais — sussurrou ela.

— Teste do sujeito Lin/VX — disparou a voz de Cerberus, o mestre-eletrônico do complexo. — Gênero: feminino. Adaptação do SO ao corpo orgânico alfa-02.

O doutor saiu em seguida, e colocou a mão em seu ombro.

— Seja bem vinda ao mundo real, Lin.

A mão dele era quente. A luz do sol que incidia sobre seu rosto também. Tudo era bonito demais, e nenhum conceito filosófico ou estético a que ela teve acesso antes jamais a prepararia o que sentia agora.

— Não — gritou Lin. — Não!

Ela correu em direção à cerca laser que separava o complexo da floresta que o cercava e chocou-se contra ela.

Foi tudo muito rápido. O cheiro de carne queimada e os alarmes que soaram deixaram Win zonzo, mas ele logo se recuperou.

— Cerberus, mande alguém juntar os pedaços. Apague da memória dela o incidente de hoje e veja se encontra a falha nessa trilha mnemônica. Ou se é tendência genética desse corpo.

— Sim, doutor — disse o mestre-eletrônico. — Gostaria que o senhor soubesse que, se eu tivesse sido escolhido, jamais faria o que ela fez.

Win sorriu.

— Veremos, Cerberus. Veremos.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Moacir Marcos

    “É uma forma muito limitada de existência!”

    Que história de FC espetacular, Michel. Pobre Lin, não estava preparada para a beleza estonteante do mundo real, sem a fria racionalização a que estava acostumada. O quanto isso diz de muitos de nós, que fugimos da vida (ou buscamos metê-la em códigos, tal qual as máquinas?).

    “Gostaria que o senhor soubesse que, se eu tivesse sido escolhido, jamais faria o que ela fez.”