Santo Tolstói contra o Dragão do Estado

Pode ser mera coincidência o aniversário de 188 anos de nascimento do escritor e filósofo russo Lev Nikolayevich Tolstoi (mais conhecido por aqui como Leon Tolstói) cair justamente em uma semana marcada pelo uso abusivo de violência policial contra cidadãos brasileiros. Mas as coincidências, se nada dizem, servem a quem quer dizer.

Tolstói chegou a ser tão famoso como pensador quanto é como escritor. Morto em 1910, sua amarga crítica da sociedade acabou suplantada por golpes, nacionalismos, guerras mundiais e recessão. Mais de um século se passou e hoje pouco se sabe do revolucionário pensamento político do autor de “Guerra e Paz”, ainda que seus ensaios continuem tão relevantes como eram à época.

Nascido em rica família aristocrata, Tolstói já era um escritor de grande prestígio aos cinquenta anos. Porém, após o lançamento de “Anna Karenina”, a vida do autor passou por uma transformação. Já há alguns anos buscando satisfazer um anseio espiritual que não sabia dizer de onde vinha, ele percebeu na fé dos camponeses o caminho para a serenidade que tanto almejava. Começava ali a sua tardia conversão ao cristianismo.

Quantas vezes invejei o analfabetismo e a ignorância dos mujiques. Naqueles preceitos da fé que para mim pareciam obviamente absurdos, eles não viam nada de falso; conseguiam aceitá-los e conseguiam acreditar na verdade, naquela verdade na qual eu também acreditava.

O problema é que o espírito irrequieto de Tolstói não se adequava aos dogmas da Igreja Católica Ortodoxa, nem de nenhuma outra. Desde o começo, o Cristo que o havia impressionado não era aquele que ressuscitara no terceiro dia, mas o que convidava todos os povos a se unirem e todas as pessoas a amarem umas às outras. Era um Cristo que não aceitava dogmatismos.

A partir de sua interpretação do Sermão da Montanha, especialmente do trecho em que Jesus convida a oferecer a outra face quando ferida a face direita, Tolstói construiu uma sólida crítica às instituições que regiam a sociedade. O Estado, a Igreja, a nobreza, o capitalismo, os intelectuais: ninguém escapava à sua pena.

Apesar de ter sido excomungado pela Igreja Ortodoxa por conta de seus posicionamentos, o grande alvo de seus ataques era mesmo o Estado. O Estado que promove guerras, que se impõe sobre um território, que exige idolatria a seus símbolos, que recruta pobres para encarcerarem seus vizinhos, que açoita, que mata: Tolstói não podia aceitar a existência de uma organização que se comportasse tão à revelia dos ensinamentos de Cristo. A justiça do Estado não passaria de ilusão, uma ilusão desnecessária quando as pessoas passassem a se respeitar, como deixou claro em “O Reino de Deus está em vós” (1894):

O cristianismo, em seu verdadeiro significado, destrói o Estado. Isto foi assim compreendido desde o princípio e por isso Cristo foi crucificado. Foi assim compreendido em todos os tempos por homens não presos à necessidade de justificar o Estado cristão.

Nem mesmo a democracia fazia sentido para Tolstói, uma vez que uma decisão ser escolhida pela maioria não a tornaria uma decisão mais justa. Uma vez que o Estado usa de coação para garantir o cumprimento da vontade da maioria, necessariamente a vida se dá no regime do terror e da obediência cega, nunca da liberdade. Retire-se a violência e o Estado não é capaz de se fazer obedecer. Retire-se a violência – ou a ameaça – e o Estado não existe.

Chegamos à situação em que (…) os que detém poder deixaram de demonstrar o que consideram ser o mal. O mal existe, mas eles dizem diretamente que consideram o mal aquilo de que não gostam, e as pessoas que obedecem ao poder começaram a fazê-lo não porque acreditam que a definição do mal dada por esse poder seja justa, mas apenas porque não podem deixar de obedecer. (…) E aconteceu o que temos agora: algumas pessoas exercem a violência não mais em nome da resistência ao mal, mas em nome de seu próprio proveito ou capricho, e os demais se submetem à violência não porque considerem, como se supunha antes, que a violência é feita contra eles em nome de sua libertação do mal, mas só porque não conseguem se livrar da violência.

Tolstói dedicou as últimas três décadas de vida a desenvolver sua filosofia, que muitos chamariam, para horror do próprio, de “anarquismo cristão”. Mas Tolstói nunca se quis anarquista; acreditava tão somente que viver de acordo com os ensinamentos de Cristo ia na contramão do que exigia a sociedade da época.

E, nos termos do autor russo, a sociedade atual é pouco ou nada diferente.

Vocês viram – alguns sentiram nos próprios lombos – o quanto o Estado contemporâneo depende de cassetetes, sprays de pimenta, bombas e balas (as de borracha e as de metal) para impor sua vontade. Não é de hoje, e nem é prerrogativa de governos autoritários. Ditas democracias têm apelado à força quando as coisas não caminham como o planejado, quando a massa não se permite manobrar. Foi assim nos Estados Unidos de 1964, na França de 1968, na Argentina de 2001, na Ucrânia de 2004. E está sendo assim no Brasil de 2016.

Nas botinas dos PMs que atacam manifestantes está impresso todo um século de sangue e morte, quer em delírios autocráticos como o Nazismo ou em expedições capitalistas como a Guerra do Iraque. Os governos continuam a reclamar para si o monopólio da violência como meio de manter uma paz que parece cada vez mais distante, usando-a indiscriminadamente contra aqueles que ousam de opor aos interesses dos detentores do poder. O Estado do Século XXI, maior e mais institucionalizado, continua violento, enquanto igrejas e templos se espalham por seu território.

Conheça mais da obra de não-ficção de Tolstói: “A Confissão” (1882), “O Que Eu Acredito” (1884), “O reino de Deus está em vós” (1894), “O Calendário da Sabedoria” (1910).

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Emerson Braga

    Obrigado pelo texto, garoto!

    • Moacir Marcos

      Valeu, Emerson!

  • Suellen Lima

    Muito pertinente esse texto.
    Uma vez, em um centro espírita, vi um livro psicografado do Tolstói,
    falando como foi chegar lá do outro lado e viver a palavra do Cristo sem
    os dogmas da igreja e sem os ditames do Estado.

    • Tamires Nunes

      Sussu, se cê não tivesse comentado, eu iria comentar. Tolstói tinha mesmo uma visão espirita já em seu tempo. E os dogmas da igreja nada mais são do que rituais externos que o home pratica para manter as aparências diante da sociedade. Na verdade, esses dogmas só servem para criar rivalidades, alimentar as seitas e para serem usados como máscaras pelos homens.