10 incríveis poemas engajados nacionais

Chega nove de setembro de 2016 e, com a data, o aniversário do escritor e poeta José Ribamar Ferreira.

Quem?

Ferreira Gullar, oras!

Ele é o grande expoente da “poesia engajada”, ou “poesia social”. De cunho crítico, a poesia engajada aborda assuntos políticos e sociais e, além disso, como ressaltou o próprio autor*, é a poesia de assunto político, mas na qual se busca também a qualidade artística. Assim, fazem-se críticas sociais e políticas, mas o valor predominante do poeta é, ainda, fazer boa poesia.

Como a data não poderia passar em branco, o Escambau homenageia a “poesia engajada”, fazendo uma seleção de poetas e poemas nacionais que unem a crítica e a qualidade artística. Vamos lá!

01) NÃO HÁ VAGAS – FERREIRA GULLAR

Para iniciar, não se poderia fugir do poema “Não há vagas” do homenageado Ferreira Gullar, com sua crítica em tom irônico:

“O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira”

02) A FLOR E A NÁUSEA – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O poeta Carlos Drummond de Andrade também produziu bastante conteúdo crítico, sendo o poema “A flor e a náusea” do livro “Rosa do Povo” de 1945, uma de suas obras mais conhecidas e de mais forte teor político. Vejamos um trecho:

“Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.”

03) SETE QUEDAS – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Outra obra crítica de Drummond, dessa vez acerca de um problema ambiental, é “Sete quedas”. Nesta, o autor tratou da destruição do “Salto de Sete Quedas”, a maior cachoeira do mundo em volume de água, para a formação do lago da usina hidrelétrica de Itaipú. Vejamos um trecho:

“Sete quedas por mim passaram,
e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele
a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta o mínimo arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do planeta.”

04) EPITÁFIO PARA O SÉCULO XX – AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

Outro belíssimo poema crítico é o “Epitáfio para o século XX”, de 1997, do mineiro Affonso Romano de Sant’Anna. O autor produziu diversos poemas de conteúdo engajado, sobretudo no período da ditadura brasileira. O “Epitáfio para o século XX”, entretanto, ganha o lugar no “podium” do dia, com este trecho:

“1.
Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.

2.
Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.

3.
Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.”

05) O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO- VINICIUS DE MORAES

Ainda, não se pode deixar de citar o poema “Operário em construção”, de autoria do poeta e músico Vinicius de Moraes. A obra relata a história de um operário que se dá conta da condição injusta de trabalho, fazendo uma crítica à situação a qual os trabalhadores são submetidos. Confiram um trecho:

“Era ele que erguia casas
Onde antes so’ havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Nao sabia por exemplo
Que a casa de um homem e’ um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa quer ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.[…]”

06) NA LUTA DE CLASSES – PAULO LEMINSKI

Em seguida, trazemos um poema escrito pelo autor brasileiro Paulo Leminski. Simples e de poucas palavras, demonstra o impacto da escrita na luta social:

“Na luta de classes
todas as armas são boas
pedras
noites
poemas”

07) A CANÇÃO DO AFRICANO – CASTRO ALVES

O poema “Canção do africano” é datado de 1863 e de autoria do poeta Castro Alves. O autor demonstra claro engajamento abolicionista, expondo, na obra, a dolorida situação dos escravos do período. Vejamos um trecho:

“[…]O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!”

08) É PRECISO FAZER ALGUMA COISA – THIAGO DE MELLO

Um dos maiores poetas do Brasil, o amazonense Thiago de Mello é mais conhecido pelo belíssimo “Os Estatutos do Homem”. Aqui, porém, podemos ver seu olhar sobre o que é preciso fazer para salvar o homem de si mesmo, diante de sua indiferença perante a beleza das pequenas coisas da vida. Segue um trecho do poema:

“Dentro do riso torto que disfarça
a amargura da tua indiferença,
na mágica eletrônica dourada,
no milagre que acende os altos-fornos,
no desamor das mãos, das tuas mãos,
no engano diário, pão de cada noite,
o homem agora está, o homem autômato,
servo soturno do seu próprio mundo,
como um menino cego, só e ferido,
dentro da multidão.
Ainda é tempo.
Sei por que canto: se raspas o fundo
do poço antigo da tua esperança,
acharás restos de água que apodrece.
É preciso fazer alguma coisa,
livrá-lo dessa situação voraz
da engrenagem organizada e fria
que nos devora a todos a ternura,
a alegria de dar e receber,
o gosto de ser gente e de viver.”

09) A TRISTE PARTIDA – PATATIVA DO ASSARÉ

Direto do Ceará, o poema “A triste partida”, de autoria do cearense Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré. A poesia oral de Patativa tornou-se popular, diante de sua simplicidade e beleza. O poema “A triste partida” ganhou ainda mais notoriedade com a gravação musical de Luiz Gonzaga, e o texto do poema/música comove, trazendo relatos da trajetória dos retirantes do nordeste de Patativa. Do poema, um trecho:

“Em riba do carro se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará![…]”

10) POEMA SUJO –FERREIRA GULLAR

Para encerrar, temos, novamente, o aniversariante, Ferreira Gullar, com o poema considerado mais célebre de sua poesia engajada: o “Poema Sujo”.
O “Poema Sujo” foi escrito em plena ditadura militar. Como relata Gullar**, era uma época em que vivia um impasse, pois não sabia o que aconteceria com ele. Havia saído da ditadura chilena, e, na Argentina preparavam outro golpe. Com o passaporte vencido não poderia entrar na Europa. Segundo o autor, a situação era insuportável, mas o fato de ser capaz de expressar o impasse ajudava. O título da obra já indicou que tratava de assuntos sofridos, de pobreza, do sujo da vida.
No fim, a publicação do poema acabou por dar notoriedade ao autor, de modo que, quando chegou ao aeroporto do Rio, uma multidão o esperava e os militares não puderam prendê-lo. Pelo menos até o dia seguinte. Mas foi logo solto, ele mesmo assegura.
Vejamos, um trecho do poema:

“[…] meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino

♦   ♦   ♦

Foram estes dez poemas incríveis e engajados de escritores nacionais! Os dez foram uma seleção dentre muitos, visto que a literatura brasileira é rica em poesia critica.

Mas o que se pode tirar de tudo isso? A poesia engajada de Gullar e os belos poemas críticos de outros autores brasileiros demonstram com a poesia é uma forma válida de expressar opiniões. Políticas, sociais, culturais, as críticas estão por todo lado, levantando diversas bandeiras e podendo ter formas modernas e conservadoras. A palavra tem poder. Opiniões e críticas podem tronar-se arte. E que virem! Que de ano em ano, possamos citar mais dez, mais mil poemas belos e engajados.


*Ferreira Gullar responde a pergunta Braskem: para fazer arte engajada. <http://www.fronteiras.com/noticias/ferreira-gullar-responde-a-pergunta-braskem>

**Entrevista Ferreira Gullar: 85 anos de poesia. Disponível em: <http://www.fronteiras.com/entrevistas/entrevista-ferreira-gullar-85-anos-de-poesia>

Coeditora do Escambau, formada em direito, cheia de interesses e sem tempo. Escritora das horas vagas e de outras nem tanto.

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Ana Luiza Ferreira

Coeditora do Escambau, formada em direito, cheia de interesses e sem tempo. Escritora das horas vagas e de outras nem tanto.