A voz da montanha

Nessa coluna buscarei retornar aos meus primeiros passos na escrita, retrabalhando textos antigos que tinham como objetivo dar forma a um mundo fantástico. Nos Contos de um Novo Mundo, vou explorar a primeira era dessa terra vasta e a juventude dos povos que a habitam. Mas esperem ver outras coisas por aqui.


 

—  Esta história pertence a um tempo muito antigo, onde não se contavam os anos, víamos as horas passar com prazer, apenas nos regozijávamos de existir. Tudo era bom, belo e pacífico. Até que Eles vieram, e juntos trouxeram fúria, violência, sangue e morte. Destruição por todos os lados. Nosso maravilhoso lar desfeito — a mãe fez uma pausa, observou os rostos dos pequeninos, assustados, mas ávidos para conhecer o que estava por vir.

—  Então fugimos. Não sabíamos para onde ir, aquele era o único lugar que conhecíamos. Andamos a esmo como fantasmas. Muitos se dispersaram, fazendo de cavernas e florestas o seu novo lar. Porém, a maioria temia ficar tão perto de nossos novos inimigos, então a marcha em direção ao norte continuou – com uma nova pausa, a mãe observou os olhos emocionados pela perda do lar que nunca chegaram a conhecer, outros ansiosos pra saber o que aconteceria adiante, orgulhosos das aventuras de seus antepassados.

—  Foi então que encontramos A Cicatriz Amarela. No primeiro olhar, sabíamos que aquele era um lugar de dor e morte, até onde a vista alcançava só havia areia. Queríamos voltar, mas o medo do que ficou para trás assombrava mais que aquilo que estava por vir. Por dias andamos naquele mar amarelo, sem nada encontrarmos. Muitos começaram a perecer, a fome e a sede tomaram de conta, e o conflito interno começou a nos separar.

— Separar quem? – questionou um dos pequenos, sendo vaiado pela turma por conta da interrupção.

— Você já deve ter ouvido sobre isso – respondeu a mãe, tocando-lhe a ponta do nariz. – Anões, Homens e Elfos costumavam ser um povo só, porém, durante o período no deserto, eles se separaram e tomaram rumos diferentes. Hoje formam três nações distintas.

— Eu nunca vi um homem, ou um elfo! – diziam vários dos pequenos.

— Talvez quando forem mais crescidos vocês verão. É raro, mas, vez ou outra, eles visitam nossa montanha, alguns de nós as suas terras. Mas essa é outra história, deixem-me continuar.

— Foi então que muitos entre nosso povo ouviram o Chamado. Era mais um sentimento. Algo em nossos corações dizia que deveríamos continuar a jornada indo para o norte, algo clamava nossa marcha. Porém, nem todos ouviram, e não quiseram mais seguir naquela direção. As tensões se agravaram, e, para evitar que sangue fosse derramado entre irmãos, aconteceu “A Grande Diáspora’’. Nosso povo, antes um só, dividiu-se em três grupos, e cada um seguiu em uma direção diferente. Muitas lágrimas foram derramadas naquele dia. Nós viemos para o norte e hoje somos os Duarvrîn, o povo livre sob a montanha; outros foram para o oeste e hoje são o Reino de Omnitéra; e o último foi para leste e se chamam Comunidade da Lótus ou Lotusári.

— Mas a nossa jornada não acabou ali. O sofrimento no deserto ainda nos castigou por muito tempo, mais do que qualquer outro povo. Somente por causa do Chamado nós persistíamos. Mesmo com ele, em certo ponto começávamos a duvidar, a dor da separação ainda fresca nos trazia arrependimento. Seguíamos pela falta de opção. Estávamos a ponto de desistir e perecer quando a avistamos ao longe. Tão linda e imponente que pensávamos ser uma miragem. Seu cume parecia alcançar o céu, e foi esse o nome que demos a ela, a Perfuradora dos Céus. Naquele momento, sabíamos que era o lugar para onde deveríamos ir – as crianças agora davam vivas.

A mãe aproveitou a deixa.

— Finalmente, escapamos do deserto escaldante, e não foi sem custos. Muitos sequer viram a Perfuradora, tombados no árduo trajeto. Ainda haveriam perigos em nosso caminho. Chegamos em uma nova terra e nela encontramos frutas, animais para nos alimentar e riachos para matar nossa sede. Agora andávamos por belas planícies verdejantes e quanto mais ao norte íamos, mais o clima esfriava – suspiros cortavam o silêncio, olhinhos agora lacrimosos, pensando nos que haviam morrido ou se perdido no terrível deserto. A mãe se questionava se aquela idade era adequada para eles ouvirem uma história tão séria, mas assim eram os anões, endurecidos desde a infância. “Somos herdeiros desse povo resoluto”, pensou ela, “devemos nos orgulhar disso”.

— Apesar de bestas perigosas habitarem aquele lugar, tão belas e ricas eram as planícies que muitos ignoraram o Chamado e se instalaram naquela terra, pois ela muito lembrava nossa antiga morada. A jornada ainda cruzaria uma imensa floresta de árvores altas e grossas, algumas tão gigantes que era possível morar em seu interior. Dali, já era possível dimensionar as montanhas que nos serviriam como moradia. Os dias de marcha foram incontáveis, mas agora chegava ao fim — a plateia estava silenciada, a expectativa mantinha as respirações presas, e quem ousasse parar a narrativa recebria cascudos dos colegas.

— Chegamos ao sopé das montanhas, uma gigantesca cordilheira que se estendia a se perder de vista de leste a oeste, com o topo tão alto em certos pontos que sumia entre as nuvens. Achamos uma entrada. De início houve medo, mas aquele sentimento que havia crescido em nossos corações era mais forte e nos empurrava sempre à frente. Enquanto andávamos, sentíamos como se aquele lugar nos abraçasse. O ar era pesado, o cheiro de umidade e terra se misturavam. A escuridão era completa, só rompida pelas tochas. Caminhamos perdidos por horas, naquela imensidão de veias rochosas. Quando muitos já falavam em voltar, encontramos uma gruta. Ela se abria em um amplo salão natural. Nesse lugar nosso povo encontrou os Goblins pela primeira vez. Eles nos cumprimentaram e ofereceram comida. Não entendíamos seu idioma, mas nos comunicamos por gestos, ali ainda não sabíamos que esse pequeno povo seria essencial para nossa vida dentro da montanha — sussurros pipocaram sobre os Goblins, mas a mãe tinha que ser firme ou se perderiam na bagunça.

— O Sentimento se acalmara — disse, interrompendo o burburinho. — Estávamos em um lugar que podíamos chamar de lar. Aprendemos depois que o sentimento era conhecido entre os Goblins como Ouvir a Voz da Montanha, uma força inexplicável que move o coração dos que vivem. Poucos eram escolhidos e esses poucos seriam para sempre protegidos por ela. Passamos a adorá-la, e o amor dos anões foi tão grande que foi preciso gerações até que um de nosso povo voltasse a pôr os pés na superfície. Aprendemos também que no coração da montanha há um lugar profundo e misterioso, e nesse lugar acreditamos que habita o dono da Voz. Mas apenas uns poucos são chamados até o lugar, e na presença da voz eles nunca retornam. Acredita-se que no momento de maior necessidade do nosso povo, os desaparecidos retornarão para nos ajudar.

A mãe encerrou a história. Os pequeninos exibiam expressões aparvalhadas. Demorou alguns segundos até que um deles levantou a mão trêmula.

— Mas mãe, nenhum deles voltou? – questionou.

— Houve apenas uma vez – a voz da mãe era dura. – Mas essa, meu pequeno, é uma outra história.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Moacir Marcos

    Cara, que texto bacana! A gente fica “preso” até o fim, ansiosos que nem as crianças ouvindo a história da mãe.

  • Emerson Braga

    Wilson, você tem estilo. Sua maneira de escrever é muito peculiar, sua marca. Muito bom!

    • Wilson Júnior

      Valeu Emerson! Elogio seu é coisa linda de deus!

  • Juliana

    Quero saber dessa outra história!