O grito abafado

“Sinto tanto tua falta.”

O abraço, que deveria ter sido desfeito há vários segundos, continuou intenso. A voz abafada pelo meu cabelo proferiu a sentença e me pegou de surpresa. Senti seu aperto insistente em meu corpo se transferir para minha alma junto com aquela frase.

“Sinto tanto tua falta.”

Não imaginei que fosse, mas essa frase continuou reverberando em meu peito mesmo depois que ela saiu pela porta, de cabeça baixa, agarrada a sua bolsa, calada, tentando segurar o choro. Meu deus, o choro. Eu vi seus olhos marejados depois que ela soltou meu corpo após aquele abraço insistentemente longo e intenso, mas não forte. Fazia muito tempo que não via aquele olhar embaçado atrás das lentes grossas. Na verdade, fazia meses que não o via de jeito nenhum. Fazia meses que nem mesmo ouvia sua voz, quer fosse pessoalmente quer fosse pela interferência da Tim. A culpa, que já me corroía todo dia, só fez ficar mais agressiva e acusativa depois que ela disse:

“Sinto tanto tua falta.”

Os tamancos acolchoados dando passinhos rápidos, envergonhados, saindo pela porta depois de me encarar carinhosamente. Essa cena me doeu como poucas coisas me doíam, mas só percebi isso algumas horas adiante porque, naquele momento, a única coisa que senti foi choque. O susto não foi por não gostar ou achar impróprio. Meu espanto mesmo foi provocado pela verdade, uma verdade tão simples e intuitiva que você esquece que ela existe. Acredite, o que mais dói é descobrir o que você já sabe, mas não percebe.

“Sinto tanto tua falta.”

Foi a única coisa que ela disse naquela despedida. Eu sabia que a veria de novo dali a uma semana, mas aquilo me bateu como se fosse a última vez que eu a fosse ver. As duas horas que ela passou aqui foram estranhas nos primeiros cinco minutos, porém consegui passar por cima disso ao ver o brilho em seu sorriso ao se deparar comigo sentada no sofá com o prato na mão. Ela é difícil. Céus, como é! Mas eu sinto tanto por ela que chega a doer, mesmo quando sinto raiva. Principalmente quando sinto raiva. Esse tempo longe não foi bem porquê quisemos, mas também não colaboramos para que fosse menor. Culpa minha, culpa dela. Ninguém falaria, mas sabíamos que culpamos uma a outra e a nós mesmas. Só que meu orgulho balançou quando ela disse aquilo.

“Sinto tanto tua falta.”

Rápido e afogado, levei meu choque e precisei retrucar um “Eu também”. Não foi de alma, mas era aquilo mesmo que queria dizer. Entretanto, queria ter dito aquilo com toda culpa, ressentimento, saudade, amor e ódio que eu realmente sinto. Queria poder ter botado lágrimas nas minhas órbitas e ter soluçado sinceramente uma resposta digna. Queria ter dito, enquanto ela enfiava o nariz no meu cabelo e passava os bracinhos antigos ao redor do meu corpo, com toda minha alma:

“Sinto tua falta também.”

Jornalista por fatalidade, acredita piamente que o sentido da vida é comer bem. Vive sobre a linha tênue entre o desistir da humanidade e o se apaixonar pelo ser humano. Seu maior sonho é vender sua arte na praia e viver das coisas que a natureza dá.

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Sabrina Rolim

Jornalista por fatalidade, acredita piamente que o sentido da vida é comer bem. Vive sobre a linha tênue entre o desistir da humanidade e o se apaixonar pelo ser humano. Seu maior sonho é vender sua arte na praia e viver das coisas que a natureza dá.

  • Emerson Braga

    Feito mão mediúnica, seu texto nos toca a alma. Maravilhoso!

  • Suellen Lima

    Igual a abraço de mãe quando a gente sai de casa. Só choro.

  • Victor Vinícius

    Sem palavras pra descravar a beleza desse texto, estou encantado com suas palavras. Deslumbrante, parabéns!