O deus de cada um

diria eu que deus não existe? que é como um estrangeiro de mim? que não tem nome nem parte comigo? não, ele brinca comigo todos os dias a cada poema que escrevo e cada palavra parece um termo que principia. e olha, que já o matei umas tantas vezes e ele insiste, resiste, revive. é como minha mãe dizia dos sapos, na minha infância, a gente os expulsa com sal pela porta e eles teimam em voltar. brincalhão, menino velho. creio que o trago em mim, e não imaginas como é difícil, no peito, carregar uma maldição pulsante; insaciável e egoísta. não lhe basta uma eternidade, a todo instante quer o centro da percepção, da consumação, é isto. e é mesmo o que nos move.

compará-lo a um sapo, é só um modo de dizer, não uma blasfêmia contra a pele que não tem, ou contra a forma, não, talvez metáfora. por um instante ausente e a gente morre, ele nos empurra da alegria da embriaguez até o vazio do copo. quantas vezes, não gozamos juntos. outro dia eu estava com ele no bar, e ele me revelou segredos que nem Moisés soube, choramingou que se sente um incompreendido… deus também precisa do divã.

nossa amizade beira o ódio, mas se consome de amor. dividimos tudo, ou melhor, quase tudo, porque nem tudo quero de fato. deus já me traiu com um beijo e se fez de ausente e eu, como um cão perdido do dono, confuso, fiquei na estrada desértica: muitas vezes é isto, quando perco a palavra. mas, não dá tempo a saudade, ele se cria, se dá, se muda; revira e volta.

há muitos templos, sacerdotes, profetas e aqueles que se curaram de deus foram proclamados santos. não sabem que nunca se prende deus entre paredes e velas, nem no silêncio; ele se manifesta é na verdadeira oração do prazer. é uma festa no mistério do corpo.

chama de um infinito perecível. na minha carne, a pele que quero; e na tua, o que queres? além da verdade ou da mentira, do bem e do mal, se revela.

seu nome: Desejo.

 

 

Escultura de Antonio Canova – Eros e Psique

Escritor, poeta e estudante de filosofia. Autor de “Máquina de Inventar Instantes” (Ed Premius, 2015), seu livro de estreia, também escreve para o blog “A Fábrica do Efêmero”.

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Escritor, poeta e estudante de filosofia. Autor de “Máquina de Inventar Instantes” (Ed Premius, 2015), seu livro de estreia, também escreve para o blog “A Fábrica do Efêmero”.

  • Emerson Braga

    Show, meu bom!