1ª Carta

1ª Carta – dia 22 de julho de 1969

Dona Dinda,

Onde a senhora está, mãe? Espero que esteja bem. Foi mal não ter entrado em contato antes. Mas, sempre fui assim, deixo tudo pra depois. Só tenho pressa nas coisas alienadas pelo poder.

Mãe, hoje veio me ver um sargento que atende pela graça de Galego. Como seus colegas, ele não tem um nome de batismo, somente um apelido e uma patente. Parece pouco, mas, neste país, não se precisa de muito pra formar o caráter de um bom militar.

Galego não é diferente dos demais samangos que frequentam minha cela, apesar de jamais ter encostado a mão em mim. É um homem baixinho e pouco expressivo. Mantém sua cara amarela escondida atrás de um bigode parecido com o do tio Laerte. A senhora gostaria dele. Deve ser um cidadão exemplar: casado, católico e bom pai de família.

O sargento gosta de puxar conversa, tem um jeito camarada e um tom de voz tão suave que, às vezes, sinto vontade de abraçá-lo. Semana passada, ele me falou da derrota do Sonda pro Riachuelo. 5 a 3. Não sei se é verdade, mas creio que seja. Galego não tem inteligência ou criatividade suficientes pra nos torturar com mentiras. Outro dia, ele me disse que o Bergson (cursei Química com ele na UFC. Um com cara de doido, lembra?) foi condenado a dois anos de prisão. E, ainda ontem, falou que eu perdi a ida do homem à Lua. Deveria haver um código de ética proibindo que algo assim fosse dito a um prisioneiro.

O Galego é desse jeito, sempre pergunta sobre minha vida. Quer saber dos meus interesses, só pra depois fulminar cada um deles com novidades acerca do que acontece lá fora. Não acho tão ruim. Ao menos tenho com quem conversar.

Enquanto o sargento finge desinteresse e corre aquele alfinete pelas unhas, eu sei que ele não mente. Então deve ser verdade. Internaram a senhora no Asilo dos Alienados, não foi?

Mãe, endoidou de vez? Não deveria ter vindo ao quartel exigir minha liberdade. Quase consigo lhe ver no Portão das Armas, abraçada àquele quadro medonho do Costa e Silva, pedindo pra ter um particular com o responsável. No mínimo, falou pro coronel que ele cometeu um engano. Também deve ter dito que participou da Marcha da Família com Deus pela Liberdade e que seu filho é batizado, um bom cristão educado no Colégio Militar de Fortaleza. Mãe, nem seu amor à pátria e muito menos seu deus indiferente poderão nos ajudar agora. A senhora descobriu a verdade, e a verdade nos encarcerou. Por que não manteve a fé em suas imagens de gesso e ficou em casa, rezando, rezando? Não deveria ter me procurado. Eu estava pronto pra suportar qualquer coisa. E, agora que eles também a levaram, começo a quebrar, de dentro pra fora. Se eles perceberem a minha trinca, eu jamais sairei daqui inteiro. Talvez nem partido eu saia.

Sinto fome. Não posso dizer que a comida daqui é ruim, pois mal comemos. Das poucas vezes que me trazem água, sinto gosto de querosene. Se já me achava magro demais pra minha altura, imagine se pudesse me ver agora. Tenho saudade do seu pirão de cará e do arroz branco com farofa de ovo. Tenho saudade do seu braço sobre meu ombro, me servindo mais uma concha de feijão mulatinho. Sempre penso no que tinha feito para o almoço quando me prenderam.

Quem vai cuidar do Kahlo e da Frida? Certamente, não a deixaram passar em casa, antes de levarem a senhora pro manicômio. A Liduína ainda tem uma cópia de nossa chave? Se ela for, na quinta, aplicar a renda nos vestidos que a mãe terminou, quem sabe tenha dó deles e os leve com ela ─ Leva nada! Aquela lá só abraça qualquer coisa que mie. ─ Meus pobres pés-duros.

Mãe, fique tranquila. Eu sei. Ainda tive tempo de ver minha Dinda correndo atrás da viatura no dia de minha prisão. Esqueça do que me disse no meu aniversário. Eu sei que era o medo falando através de sua boca. Se não falavam a religiosa ou a governista, de seus lábios eu só escutava coisas boas.

Quando eu era criança e passava ao lado do Asilo dos Alienados, eu tinha um medo danado de que um dos loucos pulasse o muro e me agarrasse. Mas, hoje, agora, tudo o que eu mais quero é que isso aconteça.

Finja uma loucura dócil, fale coisas sem sentido, sorria o tempo inteiro e faça tudo que lhe ordenarem. Não discorde, nem critique ou argumente. Não explique e nem pergunte. Não seja sensata e nunca demonstre lucidez. Ganhe tempo, até que um de seus irmãos consiga tirar a senhora daí. Eu fui treinado pra aguentar o que agora me fazem. Minha mãe, não.

Um pardal acaba de pousar na janelinha gradeada de minha cela. Se ele ao menos pudesse fazer as vezes de pombo-correio… Vendo o bicho ali parado, inútil, tudo o que consigo sentir é uma vontade devastadora de comê-lo.

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Emerson Braga

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Marco A

    Literatura das mais preciosas ambientada num período histórico tão marcante do Brasil e até do mundo. O Cazé já me envolveu. Quero mais! Quero mais!

    • Emerson Braga

      Poeta, assim você me dá a sensação de dever cumprido! Obrigado!

  • Roseli Pedroso

    Ah…Que texto rico em informações e lirismo puro retirado de uma brutalidade que foi esse período de torturas. Parabéns amigo pelo belo texto! Bjs

    • Emerson Braga

      Ah, como é bom ter seus olhos sobre mais esta estreia, Roseli! Obrigado pela leitura!

  • Dayse Ribeiro

    Emerson como sempre sedo maravilhoso!! Eu vi nos comentários anteriores que lembraram da época da ditadura porém eu acho esse texto tão atual!

    • Emerson Braga

      A intenção é justamente essa, Dayse: fazer um paralelo entre o passado e o presente. Infelizmente, autoritarismo e violência estatal ainda nos assombram. Obrigado pela leitura!

  • Cristina Braga

    Chorando é que comento esse texto e pegando o folego que ele me tirou. Olha Emerson é sensacional que você consiga nos levar pra dentro de uma cela e pra dentro de um homem que teme mais pela sua mãe do que pela própria vida. A dor é porque na minha experiência de filha mãe é a pessoa que personifica o amor e não merece que nenhum mal lhe atinja. Alias, quantos na época da ditadura não mereceram. Obrigada pela sensível leitura.

    • Emerson Braga

      Cristina, tenho um respeito gigantesco pelo trabalho desenvolvido por todos do Escambau, principalmente por ser um coletivo sediado em minha terra, no qual tive oportunidade de conhecer tanta gente que partilha do mesmo amor que sinto pela escrita e pela leitura. Ter meu trabalho tão bem recebido por pessoas exigentes enquanto leitores é fenomenal. Obrigado a todos pela oportunidade de estar aqui, fazendo o que mais amo e na companhia de pessoas que entendem dessa paixão que me arrebata. Abraço forte!

  • Ana Luiza Ferreira

    Que lindo, Emerson! É tão natural o modo como a sua escrita flui. Gostei muito do texto, deu vontade de chorar. Em várias partes me lembrou bastante das cartas do Henfil.

    • Emerson Braga

      Ana Luiza, bom dia. Que satisfação saber que sua experiência com meu texto foi intensa. Obrigado pela leitura!

  • Lara Forte

    Mas gente, chorei. Que texto lindo! Tão tranquilo de ler e tão pesado de digerir… Levanta tantas reflexões no meu coração que eu não sei se ler assim, quando a madrugada ameaça me roubar o sono, foi uma boa ideia. Fica meu elogio ao autor e meu agradecimento ao Escambau que aproxima a gente dessas maravilhas

    • Emerson Braga

      Obrigado pela leitura, Lara.

  • Bianca Berdine

    Maravilhoso! Tocante e crítico na medida certa, além de ter uma prosa
    muito agradável de ler. Gosto muito que você faz histórias ambientadas
    no Ceará, deixa tudo com uma sensação de estar em casa