O retorno do gato preto

O vendedor da imobiliária sorriu amarelo quando me entregou as chaves na imobiliária:

– Parabéns pelo seu novo imóvel.

Eu sempre quis morar em um lugar afastado, no meio do mato. Estava aposentada e com a expansão da banda larga poderia complementar minha renda trabalhando pela internet, mesmo isolada nos recantos de um interior qualquer.

A cidade mais próxima, onde estava sediada a imobiliária, era pequena, com habitantes que sentam nas calçadas ao pôr-do-sol para fofocar. Logo na minha primeira visita aquele lugar, já de olho em minha atual morada, descobri o motivo de seu valor baixo: a crença ferrenha na existência de assombrações no local. Pedestres que passavam pela estrada cruzando a propriedade relatavam barulhos estranhos, vindos de dentro da casa vazia.

Várias pessoas desistiram da compra, pelo visto. Eu poderia ter feito o mesmo, ou poderia barganhar ainda mais o preço da propriedade; escolhi a segunda opção. Estava ficando velha, não estúpida. O desconto concedido cobriria o valor da reforma necessária na casa antiga.

Depois de pegar as chaves na imobiliária, passei no supermercado para fazer algumas compras básicas e parti rumo a minha primeira noite em solidão, tocando música em volume alto e fazendo a limpeza dos cômodos mais necessários. Fui dormir contente, alheia a todos os alertas de familiares e olhares estranhos de amigos e de terceiros que recebi quando lhes comuniquei minha decisão.

O barulho de cerâmica se estilhaçando no chão me retirou do meu sono tranquilo. Não me recordei das histórias de assombração enquanto descia as escadas para a cozinha, onde eu tinha deixado um prato de cerâmica exposto em cima de uma prateleira. Apesar das juntas cada vez menos flexíveis, consegui pegar de relance a sombra negra do culpado do crime, um gato preto.

Eu o segui da cozinha para a área de serviço, mas ele tinha sumido. A área de serviço dava para um descampado cada vez mais selvagem, onde outrora plantou-se cana de açúcar e algodão; com certeza deveria existir algum buraco ou fresta que o gato usou para entrar.

Talvez fossem os gatos que deviam dar origem as histórias de fantasma.

Sem me importar, voltei para limpar os cacos e dormir. Quando amanhecesse, iria procurar a fresta com cuidado. Naquela hora, não poderia fazer muita coisa…

Ao acordar, o gato estava sentado na mesa da cozinha, se lambendo. Seus olhos amarelos me estudaram com cautela. Me aproximei e estiquei a mão para acariciá-lo.

O gato, no entanto, escapou e sumiu antes que eu pudesse tocá-lo. Dei de ombros. Quando fui na área de serviço atrás do buraco que ele usava, não encontrei e me despreocupei com a questão, pois se era pequeno o suficiente para que eu não notasse, nenhum ladrão poderia utilizá-lo.

Ou pelo menos foi isso o que eu pensei para me acalmar…

Não vi o gato nos dias seguintes, mas pude escutar sua movimentação pelos cômodos à noite. Se eu não soubesse a origem de todo aquele barulho, poderia até pensar que havia uma assombração ali.

Em uma tentativa de aplacar as explorações ruidosas do animal, acabei indo comprar ração de gato. Quem sabe se ele se acostumasse comigo pararia de fazer tanto barulho. Coloquei ração e água na área de serviço ao anoitecer. Meu plano não funcionou.

Na manhã seguinte, no entanto, o gato estava me esperando na mesa da cozinha, como da outra vez, imóvel. Ele se desviou do meu toque, descendo da mesa e indo em direção à porta dos fundos da área de serviço. Parou em frente à porta e ali ficou miando, sem que eu lhe desse atenção.

Depois de terminar o café da manhã não pude mais ignorar e abri a porta para que o maldito gato saísse. Ele continuou a me atazanar e avançou em direção ao descampado, pedindo que eu o seguisse.

Sem ter mais nada o que fazer, o segui, adentrando partes desconhecidas da minha própria propriedade. Ele queria mesmo que eu o seguisse, pois de tempos em tempos olhava para trás, e miava quando eu diminuía o passo.

E então, ele parou e se sentou.

– E aí? O que tem aqui para mim?

Olhei ao redor. Só mato. Então eu voltei meus olhos para o chão e vi algo branco meio enterrado no solo, a princípio eu julguei que fosse apenas pedra. Afastando a terra, vi que era a ossada de um animal pequeno que deveria estar ali há muito tempo.

A ideia de ser os restos mortais de um felino nem passou pela minha cabeça, até que o gato roçou na minha perna e o seu toque gelado fez um arrepio percorrer a minha espinha.

Gabriele Diniz é escritora de fantasia e ficção científica, e não faz nada que sirva para colocar em uma biografia. Mantém o blog Usina de Universos https://usinadeuniversos.wordpress.com/

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Gabriele Diniz

Gabriele Diniz é escritora de fantasia e ficção científica, e não faz nada que sirva para colocar em uma biografia. Mantém o blog Usina de Universos https://usinadeuniversos.wordpress.com/

  • Diego Sampaio

    Fofinho e meio assustador igual a autora 🙂

  • Rodrigo Mesquita

    ‘Repiei’.