Super a sério

1978. Faz um tempão. Quando Superman: O Filme, de Richard Donner foi lançado, filmes de super-herói eram coisa de criança, um tema burlesco, matéria-prima para filmes B. E filmes B, como lembra Edgar Morin, em As Estrelas: mito e sedução no cinema, mal podiam pagar por astros de verdade pra interpretar seus Zorros, Tarzans e Supermen – astros eram apenas para filmes de verdade, aqueles sem gente fantasiada.

Então, é 2016, mal entramos em agosto e já rolou uma penca filmes de super-herói. Megaproduções, não filmes B. Sim, 1978 ficou para trás. Filme de super-herói é quase coisa séria hoje em dia (vou esclarecer porque digo “quase” ao longo das próximas edições dessa coluna).

O que mudou? Bem, seria supersimplório  afimar que tudo isso partiu de um único filme, mas é fato que o Superman de 1978 abriu portas. O slogan no pôster era claríssimo: You’ll believe a man can fly. O design e os efeitos são ousados para a época, o roteiro é de Mario Puzo (“o” Puzo de O Poderoso Chefão) e a trilha sonora de John Williams (Star Wars, Indiana Jones, Harry Potter, etc.) cede à obra uma escala épica do começo ao fim. Talvez mais importante que tudo isso: Marlon Brando, um astro reconhecido por papeis dramáticos, um dos atores mais reverenciados do cinema hollywoodiano, está lá como Jor-El, pai de Superman, entregando a fala de abertura: “Isso não é fantasia, não é o produto descuidado de imaginação selvagem”.

Mas de que trata Superman: O Filme? Bem, começamos a supernarrativa  de origem mais antiga de todas: vemos uma referência aos quadrinhos de 1938, início da história editorial do personagem, pouco antes do banho de laser azul e música épica dos créditos da abertura; vemos Kripton à luz de um sol vermelho e opressor, e a cidade de Kandor, gélida, solitária, grandiosa. Mais música épica.

O cientista Jor-El pronuncia o julgamento dos renegados Zod, Ursa e Non, que seriam vilões de Superman II (Donner claramente pretendia criar aqui um épico em duas partes, mas isso acabou não acontecendo por motivos que discutirei em análises futuras). Os renegados são presos na Zona Fantasma a tempo de se salvarem da destruição de Kripton. As autoridades do planeta parecem incapazes de perceber que o sol está prestes a explodir, mesmo que Jor-El diga isso com todas as letras. O cientista envia o filho, Kal-El, para fora do planeta, buscando salvá-lo. Ele escolhe a Terra como destino para sua nave porque também pretende que o menino se torne um salvador para aquele planeta, onde crescerá incrivelmente poderoso, à luz de seu sol amarelo.

Sim, eu sei, tudo isso é crístico pra caramba. Os criadores do herói, Jerry Siegel e Joe Shuster, que eram filhos de imigrantes judeus, criaram o personagem como uma espécie de Moisés cósmico, o imigrante superpoderoso que salva seu lar adotivo. Que seja possível também identificar Cristo e outras personagens na imagem do herói só aponta o caráter repetitivo das mitologias e nossa sede por ouvir a mesma história de formas diferentes. Minha hipótese é que personagens assim funcionam melhor quando não fogem  de suas raízes míticas e não tentam ser outra coisa.

Criado por um casal do Kansas, Kal-El cresce como Clark Kent, antes de partir em busca de suas origens e encontrar as memórias gravadas por seu pai em um cristal. Nasce o Superman. Vemos uma sequência de ações heroicas suas antes de seu confronto final com Lex Luthor (Gene Hackman), o qual não detalharei para não incorrer em spoilers.

Posso dizer, contudo, que o capanga e a namorada de Lex Luthor são minha parte menos favorita do filme. Para mim, está claro que o diretor foi pressionado a dar um ar artificialmente leve a uma história que pretendia se desenvolver com peso e seriedade, misturando temas míticos e de ficção científica. Por consequência, o núcleo dos vilões parece burlesco, exagerada e, francamente, não é uma ameaça à altura de um herói com tantos poderes.

Eu sei, eu sei: nos anos 70, o Lex Luthor dos quadrinhos ainda era um cientista maluco e um ricaço excêntrico, não o vilão que conhecemos hoje, e o filme foi bem fiel a esta imagem. Todavia, eu nunca defendo que a melhor adaptação é a mais fiel, e considerando o tom do restante da película, os antagonistas me tiram da narrativa com seu overacting e figurinos engraçados (e olha que estamos falando de um filme que tem o Christopher Reeve de collant azul e cueca vermelha).

Essa é minha única ressalva. Amo esse filme, não apenas pelo que é, mas pelo caminho que pavimentou para obras futuras, especialmente filmes que fazem referência direta a ele em seu estilo de narrar, como Batman Begins (2005) e Capitão América: O Primeiro Vingador (2011). Que Donner tenha feito o salto, em 1978, de ver em um super-herói o potencial para um drama poderoso e comovente, bem como uma narrativa empolgante e visualmente impactante de ficção científica, é algo impressionante e admirável. Alguns argumentam que precisamos contar histórias sobre Cristos e Sansões, mas quando se é humano, isso é inescapável, e se é inescapável, que seja feito com ousadia, criatividade e riqueza de olhar.

Agora, algumas considerações.

Melhor citação: “O filho se torna o pai e o pai se torna o filho”. Não tenho vergonha de dizer que dou uma choradinha nessa hora.

Maior pró: a trilha sonora.

Maior contra: O capanga chato do Lex Luthor.

Minha avaliação pessoal: 4,5/5.

 

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

LEIA TAMBÉM:

Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

  • Moacir Marcos

    Excelente análise. Revi o filme dia desses, e fiquei surpreso ao notar como a obra envelheceu bem.

    E, de fato, a trilha sonora é espetacular.

    • Vilson Gonçalves

      Ouço de tempos em tempos para inspirar, especialmente o overture, quando aparecem as torres de Kandor, que é de arrepiar.

  • Lara Forte

    Nunca vi o filme, mas agora fiquei com vontade de ver 😀

  • Emerson Braga

    Poxa, deu vontade de ver mais uma vez… E, depois dessa leitura, muito provavelmente o faça.