A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura

Por algum motivo que merece ser estudado, a ficção fantástica tem encontrado terreno fértil no Brasil. Acostumados a uma realidade pintada em fortes tons surrealistas, talvez nossos leitores se sintam à vontade com o irreal controlado presente nessas obras. Talvez. Fato é que para além do sucesso capitaneado por obras como a série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, não é de hoje que horror, ficção científica e, especialmente, fantasia são sucesso de público em nosso mercado editorial, a ponto de autores como André Vianco e Eduardo Spohr apresentarem números que rivalizam até com os sucessos da autoajuda.

Era de se esperar que, com tantos novos títulos sendo lançados diuturnamente,  a fantasia nacional apresentasse uma diversidade considerável. Não é o caso. Preocupados em reproduzir seus autores favoritos, ou aquela campanha épica de Dungeons & Dragons, os brasileiros repisam à exaustão o velho cenário baseado no medievo europeu, seguindo a longa tradição de Tolkien, Lewis, Moorcock e afins. E haja armadura reluzente, reis ocultos, códigos de cavalaria, ladys e milordes. Mesmo com o sucesso recente da trilogia “Deuses de Dois Mundos”, de PJ Pereira, inspirada na mitologia iorubá, e da série “O Espadachim de Carvão”, de Affonso Solano, baseada na cultura suméria, são poucas as obras que se arriscam a abandonar uma fórmula que dá tão certo.

“A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura” (Buriti Editora, 2014), de Vilson Gonçalves, é uma bela e corajosa exceção. Trazendo nomes, ambientação e questões que raramente são vistos na litfan brasileira, a obra é claramente inspirada na mitologia e nos costumes dos povos pré-colombianos (Quatrocantos, o nome dado ao mundo onde se passa a história, é uma referência a “Tawantinsuyu”, como era conhecido o Império Inca, que em quíchua significa “quatro regiões”).

“A Canção…” já começa diferente pelo tom, que foge ao militarismo reinante no gênero. O protagonista não é um guerreiro mordaz ou um herói escolhido; Yuruy Wayra, o homem de azul e púrpura do título, é um mercador. Respeitado e destemido, é verdade, mas um mercador. Há guerra, há morte e há sangue no livro, porém muito distante das batalhas quase pornográficas que dominam as páginas da fantasia. Uma ousadia em tempos dominados pelo “massa, velho”.

Aliás, a opção de tratar de pessoas comuns se estende aos demais personagens. Quando Yuruy recebe a incumbência de atravessar o continente para estabelecer um entreposto comercial, não é um grupo de bravos combatentes ou magos poderosos que o acompanha, mas pedreiros, tintureiros e metalúrgicos, o que dá uma veracidade ímpar à história. Todos muito bem desenvolvidos e aprofundados,  esses personagens roubam a cena em vários momentos, com destaque para Pukakiru, o melancólico jovem que lidera a guarda da comitiva e, aconselhado por Yuruy, passa a escrever sobre a aventura para “dissipar pensamentos e emoções”.

A galeria de tipos interessantes ainda compreende a magnífica princesa Girassol, os marujos liderados por Wáhu, as perigosas arqueiras abayuká e os temíveis piratas papa-canoas. Todo o protagonismo, porém, é do mundo de Quatrocantos. Rico, exuberante e enigmático, Quatrocantos é descrito com paixão, desde as duas grandes cidades que aparecem na trama, Terra Negra e Cajueiros (“Kay’ambu”, no idioma Buru), até as belas paisagens naturais. O resultado é encantador. Cada povo é apresentado com elementos culturais únicos, fala e traços típicos que dão a impressão de existirem de fato.

Tamanha preocupação em apresentar o máximo desse universo acaba por prejudicar a narrativa. Apesar das óbvias dificuldades e da alta dose de aventura que envolvem a expedição mercantil, não há grandes conflitos ao longo da trama, e a história se arrasta em alguns pontos, escapando do naufrágio graças ao carisma dos personagens e aos diálogos bem articulados. Incomoda particularmente o didatismo de certos trechos, especialmente quando uma nova população ou região é apresentada: como em um livro de geografia do ensino médio, são explicados os costumes, as vestes, a cultura, as crenças, os hábitos alimentares… Por mais que o nível de detalhe impressione, ao final parece que o enredo é apenas desculpa para um tour por Quatrocantos. E ver um personagem interessantíssimo como Pukakiru servir de “orelha” repetidas vezes chega a irritar.

Por sorte, o tour vale a pena, e ao final da leitura, como se já não bastasse a curiosidade pelo desfecho da epopeia, Vilson ainda saca um cliffhanger de gerar calafrios em ansiosos. O jeito é esperar por novos versos da canção, de preferência cantados de forma tão melodiosa e hipnótica quanto a voz da princesa Girassol.

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

  • Lara Forte

    Quatrocantos me conquistou pesadamente. Especialmente as guerreiras Abayuka 💚💜 Quem curtir o livro, pode aproveitar o embalo e ir atrás do conto Pindá na revista Trasgo.

    • Vilson Gonçalves

      OWN <3 <3 <3

  • Emerson Braga

    Bicho, tuas resenhas são muito bacanas!