Transtorno, amor e caga-regras

Desculpe o transtorno, preciso falar de assunto frio.

Decerto que, se não leram – ler é um luxo nestes dias em que todo mundo quer mais é escrever textão em rede social –, vocês ao menos ouviram falar da coluna de Gregório Duvivier na Folha, “Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice”. Sim, aquele texto meio fofo meio creepy que mostra como seu namoro com a Clarice Falcão era cuti-cuti, romance de boutique hipster, naquele clima de filme indie cult bacaninha mais do mesmo, que, por sinal, eu adoro.

Vocês também devem ter visto a reação da galera que não curte relacionamentos “ursinhos carinhosos”, ou que sequer acredita que exista coisa assim. E, entre os que acusaram Gregório de fazer marketing para “Desculpe o Transtorno”, filme em que faz par romântico justo com a ex-namorada, havia quem aproveitasse para estabelecer regras de romances mais “realistas”. Rafinha Bastos puxou o trem: brigar pelo lençol e cagar de porta aberta são itens essenciais em sua lista.

Uma semana de gente se desculpando por transtornos e debatendo seus amores me fez imaginar como seria um mundo onde apenas amores “de verdade” poderiam ser vividos. Casamento só depois de aprovado em comitê. Um pouquinho de burocracia pra apimentar as coisas.

Pois vamos à cena. Corta para um cartório no centro da cidade. Já fazia uns quarenta minutos que tinham levado o casal à salinha apertada nos fundos. Ela bufava, ele tamborilava os dedos no balcão.

— Reginaldo!

— Que é?

— Te aquieta!

Ele juntou as mãos ansiosas. Passou a assobiar.

Três sinfonias depois, a porta finalmente abriu. Era a encarregada, com aquela cara de segunda-feira que todo bom funcionário de cartório precisa ter.

— Então os pombinhos querem se casar?

— Sim, sim.

— Trouxeram os documentos?

A moça remexeu numa pasta e sacou um calhamaço. Obviamente desinteressada, a encarregada limpou as lentes dos óculos, fungou, arrumou o cabelo, estalou a língua, fungou de novo e tomou os papéis nas mãos.

— Hummmm… muito bem, trouxeram os prints do Instagram, do Facebook, os dois juntos na foto de capa… ótimo. Orkut?

— É necessário? — O rapaz pareceu surpreso.

— Quanto tempo juntos?

— Dois anos.

— Ok, dá pra passar. Cadê os celulares?

Eles entregaram. O descanso de tela do aparelho dele era uma foto dela numa cachoeira; o dela mostrava-o jogando futebol na praia.

— Certo, agora é só preencher o formulário. — A encarregada entregou três folhas pra cada. — Volto daqui a pouco.

Demorou mais uma hora.

— Terminaram?

O casal entregou os formulários.

— Xiii… tem um problema no seu, Sr. Reginaldo.

— Problema?

— No item dezoito. Você marcou a opção “Nunca”.

— Marquei. É verdade.

A encarregada virou os olhos enfastiados para a moça.

— Ele nunca peidou na sua frente?

— Ele não peida.

— Como assim não peida?

O rapaz ficou encabulado.

— É uma condição médica. Desde criança, nunca peidei.

— Isso não existe.

— Eu trouxe atestado.

— Tá aqui. — A moça abriu a pasta.

— Não, não, não. Não tem essa de atestado. Tem que peidar. Que casal é esse que um não peida na frente do outro?

— Mas eu peido na frente dele!

— Tem que ser os dois. Como é que eu vou passar a documentação de vocês… Peraí, você acabou de peidar?

— Errr… não. — A moça sorriu. — Reginaldo, meu amor, foi você?

— Milagre!

— Vocês sabem que não adianta mentir, né? Só por causa disso, vou adicionar uma restrição aqui no processo.

— Não, por favor. Desculpa. É que a gente tá planejamento o casamento há tanto tempo…

— Não posso fazer nada.

— Mas… não tem outro jeito?

— Sem ele peidar? Não.

A moça encheu os olhos de lágrimas, logo envolvida em um abraço pelo rapaz, mais triste que assistir o Fantástico de ressaca.

— Eu… eu não queria ser assim.

Aí desataram a chorar. Era uma desgraça: cumpriam todos os requisitos, menos aquele. Pior que sequer havia tratamento. E agora?

A encarregada suspirou.

— Ok, ok, tem um jeito.

Os dois levantaram os olhos vermelhos, animados.

— Já pensaram em fazer um filme juntos?


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

  • Wilson Júnior

    Esperando um texto dessa coluna que vai ser literalmente, a espinha dorsal de um ser humano.

    Muito bom!

  • Lara Forte

    Eu ri e o texto ta bom demais.
    Quanto à questão do “desculpe o transtorno…” concordo totalmente com a critica de que ninguém pode sair por ai ditando o que é é o que não é amor verdadeiro. O problema do texto foi a exposição desnecessária da Clarice (que foi bombardeada com fãs exigindo que a volta do casal, alguns bem agressivos) e a auto promoção mesmo de “veja como sou fofo e maravilhoso nesse texto que parece ser sobre outra pessoa mas na verdade é sobre mim”, que serviu de exemplo pra outros tantos homens, famosos ou não. Escrever que o casamento acabou quando ela descobriu as infidelidades dele ele nao escreve, ne? Mas desse jovem eu também já não espero muita coisa mesmo não…