Stephen King: uma relação de amor e ódio com o cinema

Hoje, no aniversário do Rei Stephen King, ganhei uma incumbência difícil e maravilhosa: falar de suas obras adaptadas ao cinema. Faço isso com a felicidade de um fã, e a crueldade de um cinéfilo amador. Foca na crueldade. Foca no amador.

É difícil confiar em alguém que diz que o filme é melhor que o livro. Normalmente, pensa-se numa pessoa preguiçosa, que não conseguiu perceber todo o potencial do autor durante sua leitura, e agarrou-se à uma narrativa guiada pelo viés de um diretor de cinema.

É claro que esta é uma opinião preconceituosa. Há filmes que são verdadeiras obras de arte, e que conseguem capturar a essência do que está posto no livro – ou, algumas vezes, superá-lo.

E falando de livros e de cinema, é impossível não falar de Stephen King. Nascido em Portland, no Maine (EUA) em 1947, casado com Tabitha King e pai de Joe Hill (que seguiu os passos do pai), é referência no mundo inteiro. Se você existe e está lendo isso, é quase certeza já ter sido afetado pelo toque de King, seja em seus livros, séries em filmes baseados em sua obra.

A relação de King com o cinema é de amor e ódio/decepção. Suas adaptações ou são excelentes (Um Sonho de Liberdade, Conta Comigo, O Nevoeiro), ou são muito ruins (Celular, O Apanhador de Sonhos, a nova versão de Carrie).

Com esses sentimentos mistos, trago para vocês uma lista com as melhores e as piores adaptações ao cinema da obra de King.

Os Bons

1. O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980)

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Jack Torrance, um escritor e um alcoólatra em recuperação, aceita um emprego como zelador fora de época de um hotel isolado chamado Hotel Overlook. Seu filho possui habilidades psíquicas e é capaz de ver coisas do passado e do futuro, como os fantasmas que habitam o hotel. Logo depois de se instalarem, a família fica presa no hotel por uma tempestade de neve e Jack torna-se gradualmente influenciado por uma presença sobrenatural, caminhando para a loucura.(*)

Que o filme de Stanley Kubrick é uma obra-prima do cinema e do gênero de horror, isto é inegável. A paleta de cores, a fotografia, a mudança doentia de Jack Nicholson, a quantidade absurda de cenas memoráveis…

As opiniões divergem. Alguns acham que o filme é melhor que o livro, outros pensam que é o oposto. Deixo aqui a opinião do autor sobre isso:

“O livro é quente, o filme é frio; o livro termina com fogo, e o filme, com gelo. No livro, existe um verdadeiro arco em que você vê este sujeito, Jack Torrance, tentando ser bom, mas que, pouco a pouco, vai se tornando maluco. E, quando assisti ao filme, Jack era louco desde a primeira cena. Tive que ficar com a boca fechada na época. Era uma exibição antecipada, e Jack Nicholson estava presente. Mas fiquei pensando comigo mesmo, no momento em que ele apareceu na tela: “Ah, eu conheço esse cara. Eu já o vi em cinco filmes de motoqueiro, em que Jack Nicholson fazia o mesmo papel”. E é tão misógino. Quero dizer, Wendy Torrance simplesmente é apresentada como uma dona de casa que não para de berrar.” (**)

2. Conta Comigo (Rob Reiner, 1986)

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Gordie Lachance é um escritor que recorda de um acontecimento pessoal no verão de 1959, quando tinha doze anos. Vivia numa pequena cidade do estado americano do Oregon e possuía três amigos que em certo dia saem juntos em busca do corpo de um adolescente que estava desaparecido na mata há mais de três dias. O que eles não imaginavam é que esta aventura se transformaria em uma jornada de auto-descoberta, que os marcaria para sempre.

Em minha opinião, entra tranquilo no Top 3. É um filme redondo, complexo em sua simplicidade, com um elenco afiado. Baseado no conto “O Corpo”, da coletânea “As quatro estações”, traz uma memória afetiva profunda, marcada pela estranheza e pela verossimilhança. Clássico da Sessão da Tarde, quando esta não era apenas filme de bichos.
Nada contra filmes de bichos, por sinal.

3. O Nevoeiro (Frank Daranbont, 2007)

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Após uma violenta tempestade, David Drayton (Thomas Jane), um pintor e designer gráfico do estado de Maine, fica com o seu estúdio destruído, pela força desse mesmo temporal. No dia seguinte de manhã, com as condições meteorológicas mais calmas, ele presencia uma estranha neblina que vinha de montanhas perto da casa, e estranhos e assustadores acontecimentos forçam os moradores a conviverem, sitiados, momentos de horror.

Baseado no conto homônimo publicado no livro “Tripulação de Esqueletos”, este é um clássico. Subestimado, mostra atuações incríveis de Thomas Jane e Marcia Gay Harden. O suspense e o horror são constantes. Uma sensação de desespero permeia o filme inteiro, deixando você na ponta da cadeira. A névoa ajuda bastante o clima e a sugestão da película: um terror que mal pode ser visto ou compreendido.

Junte fanatismo religioso, experimentos do governo e amor paternal à direção segura e corajosa (veja o final!) de Daranbont e você terá uma das melhores adaptações de uma obra de King.

4. Um Sonho de Liberdade (Frank Daranbont, 1994)

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O filme retrata a história de Andy Dufresne, um banqueiro que passa quase duas décadas na fictícia prisão estadual de Shawshank, condenado pelo assassinato de sua esposa e do seu amante, apesar de Andy afirmar sua inocência. Durante seu tempo na prisão, ele se torna amigo de Ellis “Red” Redding, e se torna protegido pelos guardas após o agente penitenciário passar a utilizá-lo em operações de lavagem de dinheiro.

Considerado por muitos como a maior e melhor adaptação de King para o cinema, baseado no conto “Rita Rayworth e A Redenção de Shawshank”, também de “As Quatro Estações”, temos Tim Robbins e Morgan Freeman em atuações marcantes e profundas, num filme belo e intenso. Top 6.

Um Sonho de Liberdade foi, inclusive, indicado ao Oscar nas categorias: Melhor Filme, Melhor Ator (Morgan Freeman), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora.

Você precisa assistir. De verdade.

5. Lembranças de Um Verão (Scott Hicks, 2001)

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Após a morte de um amigo, Robert Garfield, conhecido como Bobby, começa a relembrar seu passado. No meio de tantas lembranças, acaba recordando a época em que tinha apenas 11 anos. Nessa época, apareceu em sua vida um senhor misterioso chamado Ted Brautigan. Entretanto, é com a amizade e atenção de Ted que Bobby aprende a ter uma outra visão de seu falecido pai, bem como as possibilidades que a vida lhe oferecia na época.

O que acontece se você misturar Stephen King e Anthony Hopkins? Com certeza, um filme épico. Apesar de ser menos conhecido do grande público, é justamente sua proposta emotiva e o toque do sobrenatural que o convertem em uma pequena obra prima. Baseado no livro “Corações na Atlântida”, temos ainda a presença de um jovem Anton Yelchin. Sem falar nas ligações claras com a série “A Torre Negra”.

Um filme lindo, de fazer chorar.

6. O Aprendiz (Brian Singer, 1998)

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Na década de 1980 no sul da Califórnia, o estudante adolescente do ensino médio Todd Bowden (Renfro) descobre que um velho senhor fugitivo nazista é o criminoso de guerra Kurt Dussander (McKellen) que vive no seu bairro sob o pseudônimo de Arthur Denker. O jovem Todd Bowden, obcecado com os atos de nazismo e do holocausto da Segunda Guerra Mundial, chantageia o velho senhor Dussander, ameaçando entregar-lhe à policia caso se recusasse a lhe contar tudo que viveu durante o tempo em que serviu ao exército alemão nacionalista, e sua relação de maldade em cada uma delas. Mas o velho fugitivo alemão prepara um sinistro plano para implicar o adolescente em um perigoso jogo psicológico.

Baseado no conto “Aluno Inteligente”, de “As Quatro Estações”, temos aqui uma história que começa minúscula, mas com consequências terríveis. Ian McKellen, como sempre, nos entrega uma performance apaixonada; e o jovem Brad Renfro nos surpreende com a entrega ao papel.

A direção sempre segura e ousada de Bryan Singer garante filme tenso, cheio de surpresas e reviravoltas, vai te deixar com um bolo na garganta no final. Entra no Top 6.

Os terríveis

1. Montado na Bala (Mick Garris) 2004

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Alan Parker é um jovem artista da Universidade do Maine, que é constantemente assombrado por imagens de morte, desde o desaparecimento do seu próprio pai, quando tinha apenas 6 anos de idade. Quando um dia suspeita que a namorada o vai deixar, Parker decide suicidar-se. Mas quando Alan recebe a notícia de que sua mãe sofreu um derrame e está internada em um hospital, ele pega uma carona para visitá-la. No meio da estrada, ele conhece uma figura sombria. É a morte, que o incita a cometer suicídio com promessas de uma vida feliz e romântica “do outro lado”.

Eu adoro esta história. É assustadora e comovente, como as boas histórias devem ser. Tem a marca de King, e nos faz entrar na cabeça do protagonista. Mas, como cinema, mas mãos de Mick Garris… bom, deixou muito a desejar.

Só é preciso um trabalho fraco e pouco investimento para provar que nem com muita boa vontade é possível salvar um trabalho ruim. Inclusive, David Arquette nos mostra como um bom ator pode, sim, fazer um péssimo trabalho quando mal dirigido.

Leiam o livro. Fujam do filme. É sério.

2. Desespero (Mick Garris, 2006)

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A caminho do Lago Tahoe para suas férias, a família Carver se vê presa ao ter os pneus de seu trailer furados. Collie Entragian é o xerife da pequena cidade de Desperation, e um policial cuja maldade transcende sua vida. Mas os Cavers não estão sozinhos. Entragian tem o péssimo hábito de, regulamente, deter os viajantes na estrada que corta a cidade de Desperation e cuja população, na verdade, foi formada a partir do seu arbítrio. O xerife também pode mudar de forma e convocar criaturas horripilantes, incluindo escorpiões, cobras e aranhas.

Um dos livros mais instigantes e assustadores do King, transformado em poeira do deserto pelas “talentosas” mãos de Mick Garris. O pior é ver Ron Perlman fazendo um trabalho de terceira categoria. Não vale à pena. É bem diferente do papel, mas de uma maneira desagradável e capenga.

Leiam o livro. Fujam do filme. É sério. [2]

3. Celular (Todd Williams, 2016)

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Clay Riddell (John Cusack), um artista da Nova Inglaterra, testemunha um estranho fenômeno: uma transmissão de um sinal misterioso através da rede mundial de celulares que transforma a maioria dos seres humanos em ferozes animais irracionais. Agora, ele e alguns sobreviventes devem encontrar e parar “o pulso” e a pessoa que o controla, além de encontrar o seu filho, antes que seja tarde demais.

A maior decepção de todos os tempos na minha espera das obras cinematográficas do King. Sério. Porque o livro, caramba!
Mas o filme… puxa…

E o pior é ver John Cusack e Samuel L. Jackson desperdiçados neste que poderia ser um filme de zumbis que foge do mais-do-mesmo.

E o final consegue ser pior que o do livro.

É, não foi dessa vez.

4. O Apanhador de Sonhos (Lawrence Kasdan, 2003).

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Após salvarem Duddits (Donnie Wahlberg), um portador da síndrome de Down, de vândalos adolescentes, quatro garotos ganham estranhos poderes que lhes confere uma ligação telepática. Anos mais tarde, em uma acampamento nas florestas do Maine, Estados Unidos, eles ficam presos em uma violenta e repentina nevasca. É quando eles descobrem que uma força alienígena está prestes a controlar as mentes de todos na cidade onde moram.

Serei sincero: eu gosto desse. Mas é aquele gostar safado, dos fãs de filme “B”. O problema é que esse não é um filme “B”. O orçamento e os atores, a produção, os efeitos especiais… tudo deveria ter transformado este filme num cult da ficção científica.
Nem Morgan Freeman conseguiu salvar essa bomba.

Mas é divertido.

5. Carrie (Kimberly Peirce, 2013)

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Carrie White (Chloë Grace Moretz) é uma adolescente excluída, tímida, problemática e atormentada pelos colegas da escola que nunca compreenderam seu estranho comportamento e sua aparência. Além de ser superprotegida e sofrer maus tratos em sua casa por sua mãe, Margaret White (Julianne Moore) que é profundamente religiosa, e que à impede de levar uma vida normal como as garotas de sua idade. Mas Carrie guarda um grande segredo, quando ela está por perto, objetos voam, portas são trancadas do nada, velas se apagam e voltam a iluminar, misteriosamente. Durante o baile de formatura todos irão Golpista o seu poder após uma brincadeira de mau gosto.

Esse nem a Julianne Moore conseguiu salvar. Péssimas atuações, edição ruim, escolhas mal-feitas… Chloë Grace-Moretz não convence nem a pau… Não tem muito o que falar. Apenas mais uma refilmagem desnecessária.

Saudades: Sissy Spacek e Brian De Palma.

6. Comboio do Terror (Stephen King, 1986)

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Após a passagem de um cometa pela terra, é provocada uma rebelião de máquinas contra os humanos, os caminhões da cidade começam a se mover por conta própria, parecem ter o poder de pensar e todos que estão em seu caminho são perseguidos até a morte.

Eu deixei o pior para o final. Na verdade, esse comentário eu queria comentar com uma risada meio desesperada, mas… isso não seria profissional.

A história – levemente baseada no conto “Caminhões”, do livro “Sombras da Noite” – já não é essas coisas todas, mas o pior é saber que um filme tolo, de pretensões tão bobas e efeitos patéticos, foi dirigido pelo próprio King.

Fique nos livros, King. Fique nos livros.

* * *

É claro que deixei de fora um monte de coisa boa, e mais ainda coisa ruim. E, se tem uma lição que podemos aprender com estes filmes, é que o Stephen King não deve se meter com direção e roteiros de cinema.

além disso, vem coisa muito boa por aí. Idris Elba como Roland Deschain na adaptação de A Torre Negra para o cinema, meus queridos! Das duas uma: ou entra na primeira parte da lista… ou na segunda. Sigamos orando, irmãos. A Roda do Ka não cessa de girar.

No mais, deixe aí nos comentários o teu Melhor e o teu Pior filmes do King, para a gente saber, beleza?

Longos dias e belas noites a todos, e um grande abraço a um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos.

Feliz Aniversário e Vida Longa ao King!

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(*) Fonte das sinopses: Wikipedia.

(**) http://rollingstone.uol.com.br/noticia/stephen-king-abre-o-jogo-sobre-io-iluminadoi-de-stanley-kubrick-e-tao-misogino/#imagem0

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Moacir Marcos

    Meu favorito é “Louca Obsessão” (empatado com “Conta Comigo”).
    Sem dúvida, a refilmagem de “Carrie” é o que mais odeio.