Cavalo de Troia

Eu sei que aconteceu alguma coisa. Ele sempre volta estranho quando uma missão o incomoda.

Saulo deu-me um beijo no rosto e, em silêncio, foi até a geladeira. A long neck chiou quando a destampou. Ele tomou três longos goles, fez uma careta e suspirou.

Pousou a garrafa sobre o balcão. Eu já estava começando a falar sobre a marca que ia ficar quando ele estendeu a mão espalmada em minha direção e balançou a cabeça.

— Por favor, hoje não, Leila. Sem brigas, sem descanso para copos, sem isopor. Por favor. Por favor.

Ele puxou uma cadeira e sentou. Seus olhos estavam vermelhos, e as lágrimas vieram, silenciosas, sem controle.

— O que houve, meu amor?

— Não quero falar agora, ok? Só me deixe aqui.

Dei-lhe um beijo no alto da cabeça e saí. Era verdade o que diziam: estamos sós, mesmo quando não estamos.

*

Ele veio deitar depois de meia noite. Eu o ouvira na cozinha antes, mexendo na geladeira, e depois o cheiro de pão quente espalhou-se pela casa. Provavelmente bebera o suco de goiaba que estava na jarra.

Depois, tomara um banho demorado e sentara em sua cadeira preferida na sala, onde lera aquele livro do famoso autor morto na primeira metade do século passado, Stephen King. “A Torre Negra”, se não me engano. Ele estava adorando esse.

Jogou seu braço pesado sobre mim e deu-me um beijo no pescoço.

— Sei que está acordada, Leila – disse. — Desculpe por hoje cedo.

— Tudo bem — respondi, mas ele sabia que não. Era difícil esconder os pensamentos de alguém que podia lê-los.

— Sei que assinei um contrato de sigilo — continuou ele —, e sei que devo procurar um dos especialistas do governo para desabafar, mas…

— Não, amor — disse ela. — Não me conte. Eles…

— Eu te ensinei técnicas avançadas de bloqueio, Leila. Você já foi testada das maneiras mais variadas, e todos lá no Setor dizem que você seria um agente excepcional. Eu posso te contar. Estou seguro.

— Mas, Saulo! Eles podem ter escutas pela casa!

Ele sentou, alerta. Pingos grossos começaram a martelar o telhado.

— É chuva — disse ele. — Adoro chuva. Não, Leila, não há escutas. Sou S5, você sabe que eu as sentiria.

Sentei-me, recostando-me na parede. É verdade, ele sentiria escutas e espias. As eletrônicas.

— Saulo, você é o melhor agente de infiltração do Setor. Se eles souberem que você vazou informação…

— Você quer compartilhar comigo ou não, Leila? Pensei que fôssemos companheiros! Eu preciso confiar em você!

Suspirei. Ele estava decidido.

— Se você precisa tanto, fale. Mas não haverá volta depois. Mesmo que eleve suas defesas a nível S6, você nunca poderá relaxar, e sabe disso!

— Se preciso for, eu chegarei a S7!

— Você sabe o que acontece com quem chega a S7! O Rodrigo…

— Eu não ligo! Só não quero mais me sentir tão sozinho!

Ele suava e chorava agora. Estava completamente desestabilizado. Era a primeira vez que o via daquele jeito. Fiz que sim.

— Eles suspeitam que você é uma espiã chinesa.

— Isso é absurdo!

— Eu sei! Rodaram três vezes um gen-diagnóstico, mas mesmo com resultados negativos…

Ele tapou o rosto com as mãos.

— Pediram que você me executasse, não foi?

Ele não conseguia falar. Seus ombros subiam e desciam descontrolados, seguindo o ritmo do choro.

Ele tomou um longo fôlego e conseguiu se acalmar. Eu podia imaginar todo o código disciplinar passando diante de seus olhos. Enxugou o rosto com um lençol, fungou e disse:

— Mas eu te amo tanto, Leila! E eu mesmo te verifiquei tantas vezes… se você estivesse fingindo, eu saberia!

— Eles te deram uma missão, e você não vai cumprir?

— Eu jamais te machucaria, meu amor! Eu juro! Prefiro morrer!

Não havia mais o que fazer.

— Judas 489 — falei, e ele congelou. Apenas seus olhos se mexiam, confusos, acompanhando-me. — Eu sou seu protocolo de segurança. Fui gerada a partir de uma matriz chinesa modificada, mas nasci aqui.

Ele tentava se mexer, mas sem sucesso. Nem mesmo as pálpebras tremiam.

— Você não poderia ter me dito sua missão. Era um teste. Vem sendo posto sob estresse já há mais de um ano, e só precisaria ter aguentado mais alguns dias para ser promovido a S6. É realmente uma pena, meu amor.

Os lábios e extremidades de Saulo estavam ficando arroxeados.

— Não me olhe assim. O Setor não precisa de agentes fracos. Pelo que vi, te quebrariam com facilidade em alguns meses sob tortura. Agente Saulo, você é uma perda de tempo e dinheiro. O Setor não precisa de agentes assim.

Ainda demorou mais de um minuto para que seu corpo caísse, mole, sobre o colchão. Eram impressionantes o condicionamento físico e a disciplina, apesar de tudo o que havia passado.

Aproximei-me dele e, devagar, dei-lhe um beijo. Os lábios ainda estavam mornos.

A chuva havia passado. Tirei o pijama e caminhei, nua, até o jardim. Três homens saíram das sombras: dois passaram por mim em direção à casa, e o último entregou-me um envelope.

— Seja bem-vinda ao nível S6, Agente Leila.

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Michel Euclides

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

  • Arthur Zopellaro

    Gostei demais, consegui imaginar a cena todinha, um clima oriental interessante. Parabéns!