O Michel, o doutor e os cogumelos

Poupo-me de buscar sentido na história que pretendo contar. Tendo em vista que ela é fruto de meu inconsciente, de minhas entranhas, de uma visita de Morpheus numa noite de sono tranquilo. Nada do que escrevo daqui em diante faz sentido e, se o faz, eu não o compreendi.

PS: Se entender o que ler aqui hoje, espero que não tenha a ousadia de contar a alguém, pois não desejo compreender o que vivi, me bastam as sensações que senti.

 

No início, as luzes estavam apagadas. Uma delas se acendeu, iluminando uma sala simples, com seis cadeiras negras e giratórias ao redor de uma mesa retangular de pedra lisa, imaculada, brilhante e infinita. Perdoe-me o excesso de adjetivos, mas a mesa me chamou muita atenção e parecia essencial para o entendimento do sonho. Nas cadeiras, seis pessoas se sentavam, das quais eu reconheci apenas um, que era eu mesmo. Não me lembro do gênero, sexo ou cor de nenhum dos cinco, mas creio, sem dar muita certeza disso, que haviam pelo menos duas mulheres e um homem de  cabelo rastafári castanho, além do mais, um dos cinco usava um saco de linho na cabeça, ocultando seu rosto. O saco estava amarrado ao seu pescoço por uma corda de forca.

O piso da sala era de cerâmicas azuis. De um tom peculiar, estranho, que beirava ao roxo, mas que continuava azul. Cada quadrado separava-se do outro por listras acinzentadas que, vez ou outra, pareciam brancas. Havia uma porta, do lado esquerdo da sala. Para ser sincero, era um vão, um buraco retangular com dois metros de altura e um metro de largura, pelo qual uma sombra se projetava para dentro da sala, estendendo-se sobre o piso. Chamo-o de porta, pois coisas entraram e saíram por ali e é para isso que as portas servem.

Presumi que nenhum dos seis sabia o porquê de estarem ali, pois encarávamos uns ao outros, buscando os motivos. Tenho a impressão de que tentamos conversar, mas a voz não saia de nossas bocas e gestos e olhares não pareciam suficientes para que nos comunicássemos.

Entrou no Quarto Azul seu primeiro visitante, um homem alto, gordo, de pele queimada pelo sol. Seus olhos saltavam, astuciosos – sim, astuciosos, astutos e audaciosos –, por trás das lentes de seus óculos quadrados. Vestia um roupão de banho, preto e branco, mal amarrado, deixando sua barriga e alguns pelos do peito a mostra, suas calças pareciam feitas do mesmo tecido e estavam presas na sua cintura por um laço.

Sim, esse ser feito de poeira do sono era parecidíssimo com o Michel, filósofo cuja filosofia amamos odiar. Porém, o filho de Morpheus usava uma grande e bela peruca afro, um tanto cômica, apetrecho que Michel, pelo pouco que sei dele, não usaria.

Ele entrou na sala pulando, alegre. Nós, os seis, o encarávamos com desconforto. Incapazes de nos levantarmos das nossas cadeiras, infelizes com sua felicidade, que mais parecia caçoar de nós. De suas mangas em forma de sino, ele puxou dois pequenos cogumelos. Abriu a mão direita, revelando um basidiomiceto cor de mostarda, similar ao orelha de pau. Era poroso, e seus esporos saltavam pelo ar numa nuvem amarelada de “sementes” que, encontrando condições apropriadas, germinariam, dando luz a uma nova geração de fungos.

Na mão esquerda, ele trazia um Phallus, um cogumelo peniano, não tão pornográfico quando parece, de cabeça marrom, como folhas secas caídas há muito tempo, beirando o branco, mas ainda marrom. Pequenos pontos coloridos mudavam de cor a cada milissegundo em sua cabeça: lilás, amarelo, verde limão, azul, branco, a sequencia de cores se repetia. Haviam ainda estruturas semelhantes a tentáculos que se misturavam, formando uma rede, similar a uma teia de aranha, logo abaixo da cabeça.

Michel soltou os cogumelos no ar feito um mago ou um louco e se foi, voltando para as sombras de onde viera. Os fungos flutuaram e, no ar, cresceram. Pareciam animais, vibravam, balançavam, tremiam e, quando alcançaram o tamanho de um tronco humano, estagnaram o crescimento, mas permaneceram no ar. Os pontos coloridos do cogumelo Phallus se desenvolveram, transformando o fungo numa água viva psicodélica, que lançava uma gama de cores. Dezenas de tintas que não se misturavam, bailando, dançando pelo ar. O cogumelo amarelo, que já não era tão belo, tornou-se horrendo, parecia um bolor de pão com vontade e desejo, ansioso para apodrecer o que era vivo e tornar tudo podre.

Subitamente, vi quatro dos seis num sofá. Estava de pé ao lado deles com o encapuzado, observando. A mesa e as cadeiras haviam sumido, apesar de a sala continuar a mesma, eterna e azul. Os quatro estavam em posições largadas, pescoços para trás, olhos no teto. Os cogumelos, agora, voavam sobre eles. Aqueles sob o cogumelo mostarda apodreciam, os esporos cresciam sobre a carne dos coitados, corroendo-a, dando lugar as hastes e hifas do hospedeiro. Nos rostos das vítimas, cresciam pequenos corpos de frutificação. Era horrendo.

Aqueles sob o cogumelo água-viva estavam boquiabertos. Suas íris eram como as de um cego, pálidas, leitosas e suas pupilas estavam expandidas ao extremo. Eles babavam e pareciam não pertencer mais a seus corpos.

Lembro-me de uma segunda visita na sala azul, um certo personagem britânico conhecido como “O Doutor”. Um alienígena aventureiro que viajava por todo espaço-tempo em busca de aventuras e novidades. Ele era a sexta encarnação do personagem, tinha cabelos loiros e cacheados, de estatura mediana e roupas estupidamente coloridas e extravagantes. Ao contrário de suas roupas, a expressão era ranzinza, cheia de asco, desprezo e nenhuma modéstia.  Em sua mão esquerda, trazia um controle remoto quadrado, roxo, com um botão vermelho e uma antena de metal que mais parecia um brinquedo infantil. O aparelho apitava e, aos resmungos, o Doutor andou pela sala. Não parecia ver ou se importar com nenhum dos quatro sobre o sofá. Mexeu em alguns fios atrás do móvel, que eu não percebera até então, e foi embora sem dar a mínima para nós. Meu herói da juventude abandonara-me no caos.

De repente, houve uma explosão. O saco que cobria o rosto do encapuzado sumiu e subitamente a corda que o amarrava o levou ao teto, quebrando seu pescoço, matando-o. Havia fumaça, faíscas, fios espalhados por todos os lados. Senti-me jogado num cenário de terror tecnológico, num laboratório após um ataque terrorista, num universo de robôs atacando mortais, num misto de Matrix e Exterminador do Futuro. Tecnologia quebrada, frágil, caos e uma sensação de horror que se espalhava por meu corpo. Tudo isso ao redor do homem pendurado no teto, de pescoço torcido e olhos fechados. Seu rosto era uma máscara de tristeza e melancolia. Percebi então, quando um canto da sala explodiu, lançando luz ao ambiente, que o homem era Michel. Assustei-me, dessa vez sem a paralisia do horror, e corri até a porta. Os quatro haviam sumido e, em algum lugar em meio ao caos tecnológico, tocava The Silence, de Simon and Garfunkel.

Quando atravessei a porta, vi-me sozinho, seminu de sunga azul, cercado pela escuridão. Longe de mim – e se afastando; cada vez mais distante. – ouvi o refrão da música.

Hello Darkness My Old Friend”….

Fechei os olhos.

Ouvi o som do silêncio.

Senti-me abraçado por ele.

Respirei fundo, em paz como nunca me senti no mundo dos vivos ou dos sonhos.

A música havia acabado.

E eu acordei.

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

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Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

  • Sarah Oliveira

    Sensacional, sem palavras a descrever esse texto magnífico!!