Misoginia, histeria e gaslighting: da política para a vida

Na política parece que pode tudo: preconceito, fascismo, crime… só não pode é ser honesto. Sendo assim, era de se esperar que mulheres em evidência sofressem como todas nós sofremos no dia a dia, seja em nossos lares, empregos, escolas, universidades, locais de lazer etc.

As revistas Época e IstoÉ que o digam. Na falta do que noticiar para descreditar a então presidenta, Dilma era alvo de críticas que não estavam relacionadas ao seu mandato, mas ao fato de ser mulher. Na verdade, é pouco provável encontrar argumentos ou fundamentos com propriedade e capazes de dar vazão a explicações coerentes para noticiar a “ruína” do mandato de Dilma. O que lemos, linha após linha, foram apenas tentativas esdrúxulas de desconstruir a imagem de Dilma.

Agosto de 2015. A Época publicou uma matéria intitulada “Dilma e o Sexo”, onde o jornalista João Luiz Vieira afirmava que a crise política no mandato de Dilma se justificaria por sua “falta de erotismo”. Chega a aconselhá-la: “erotize-se”, além de criticá-la por seu vestuário, pela época em que viveu como sendo de “uma geração de mulheres anti Jane Fonda que acreditam que a sexualidade termina antes mesmo dos anos 60” e acusá-la de criar um personagem e se transformar em uma mulher assexuada.

Por que as escolhas pessoais da ex-presidenta eram tão ou mais relevantes que a crise política e as dificuldades econômicas que o país vinha e vem enfrentando? Por causa de uma visão de mundo pautada em repressão, opressão e dominação, na qual a mulher pode ser ditada por todos, menos por ela mesma. Esse tipo de discurso só eterniza crenças populares que reforçam o sufocamento e garantem a dominação da mulher. Crenças, por exemplo, de identidade e qualificações, onde a mulher deve ser algo entre uma mescla de sensualismo e feminilidade para ser mulher; de segregação entre as próprias mulheres e entre mulheres e homens ao afirmar o que é e o que não é próprio de ou para uma mulher (lembra da cor azul, do cabelo curto, da roupa masculina…? Então); e que favorecem também a sexualização e objetificação em torno da figura feminina.

Abril de 2016. Em destaque, a manchete “As explosões nervosas da presidente” e em seguida a frase “Em surtos de descontrole com a iminência de seu afastamento e completamente fora de si, Dilma quebra móveis dentro do Palácio, grita com subordinados, xinga autoridades, ataca poderes constituídos e perde (também) as condições emocionais para conduzir o País.” Como a linguagem de uma revista não se faz apenas pelo âmbito verbal, mas também pela associação de signos imagéticos, a capa estampa um registro de Dilma em expressão exasperada e em pleno berro, demonstrando, assim, desequilíbrio.

A matéria faz ainda um comparativo entre Dilma e Maria I, a Louca, ao fazer uma retrospectiva do passado e relembrar que o método terapêutico desenvolvido pelo psiquiatra britânico Francis Willis não funcionava quando aplicado às mulheres. Resumindo, dessa forma, que: mulher não está apta ao poder e está sim fadada à ruína quando “sob forte pressão”.

Agressões similares também vem sofrendo, Janaina Paschoal, doutora em direito pela USP e advogada responsável por acusar Dilma,  ao ser tachada de louca, histérica, desequilibrada, transtornada etc. As críticas se intensificaram após a viralização de um vídeo em que a advogada discursava na USP. No vídeo, a advogada faz declarações, ergue a bandeira do Brasil, levanta a voz e os braços com muita energia e vigor, comportamento comum e natural de político em comício. Eis que vêm os opositores e a misoginia!

Desde o início dos tempos, mulheres que apresentavam comportamentos sociais indesejáveis ou não se adequavam ao padrão comportamental de gênero eram diagnosticadas com histeria. Acreditou-se mesmo que histeria era uma doença patológica própria da natureza feminina e várias mulheres tiveram suas emoções e seus sentimentos desmerecidos, sendo internadas em manicômios, medicadas e controladas. Qualquer mulher que fugisse do esperado era dita como antinatural, irracional e chegava até mesmo a sofrer tratamentos de choque ou retirada do útero. Tudo isso para manter mulheres em condição passiva e lembrá-las de que elas não podiam fazer o que bem entendessem. Não queria casar? Histérica. Queria trabalhar e estudar? Histérica. Desobediente? Histérica. Queria ser dona da sua escolha? Histérica.

Convencionou-se que mulher é naturalmente emotiva, sensível, como se essas emoções fossem exclusivamente femininas e não de qualquer pessoa, independente de gênero. E por ignorância diante da natureza biológica feminina, mulheres sofreram e sofrem até hoje.

Dizer que uma mulher é louca e usar isso para justificar o momento complicado pelo qual ela esteja passando ou o contrário é violência psicológica! Aliás, existe até um termo para isso: gaslighting. De acordo com a Wikipedia, gaslighting é “uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.” O termo também é usado quando existem agressão e opressão psicológicas à figura da mulher ao limitá-la a louca, histérica, dramática e seus sinônimos.

Então, espero que você, caríssimo leitor, compreenda: a questão não é a crítica ou a acusação, mas o modo pelo qual essas críticas e acusações foram apontadas. Ou melhor, é o conteúdo, o teor da acusação. São agressões morais, pessoais, profissionais, condicionadas ao fato de a vítima ser uma mulher. Pensemos o seguinte: se o presidente, advogado, ministro, fosse um indivíduo do sexo masculino, certamente não seria acusado de histeria, loucura ou muito menos teria sua condição de homem justificando a sua ruína.

Tais discursos repercutidos na mídia apenas contribuem para a hostilidade e discriminação que tantas mulheres sofrem país afora ao assumir um cargo de responsabilidade, seja na política ou em empresas. Não é à toa que as mulheres são mais da metade da população, mas ocupam somente cerca de 10% dos cargos políticos, apesar do incentivo de políticas públicas.

E teve muito mais.

Enquanto Dilma defendia por 13 horas o seu mandato, rebateu o fato de ter sido chamada de mulher dura e que se não o era, era adjetivada com “sensível”. Como a própria disse: “Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”.  Foi também chamada de frágil e ela rebateu: “não foi isso a minha vida”. Sem falar no “tchau querida” envolto em um tom irônico e ofensivo. Luciana Genro, candidata a presidência da República em 2014, foi alvo de comentários que incitavam violência. Maria do Rosário, ex-ministra, também foi alvo de comentários que incitavam violência não só contra ela, mas também contra outras mulheres. Clarissa Garotinho foi vaiada por não comparecer a votação por estar de licença-maternidade. Manuela D’ávila, deputada, foi alvo de críticas por postar uma foto amamentando sua filha, Laura, e por isso teve seu ofício questionado.

Porque mulher em posição de poder assusta e é sempre trucidada. Mulher que não segue as convenções de papeis sociais que foram atribuídos a elas através do patriarcalismo, que decide não ser apenas “bela, recatada e do lar”, é estigmatizada e derrubada. Mas acrescenta aí: a gente vai continuar assustando, incomodando e resistindo à misoginia, ao machismo e a todo e qualquer tipo de violência.

Pouco me importa o seu partido, a sua escolha ou por quem você vota, só quero te dizer uma coisa: é mulher? Filho? Marido? Namorado? Amigo? Deixa de lado a política e considera o seguinte comigo: por que todas as mulheres, estejam elas em posição de poder ou não, são desacreditadas e menosprezadas por rótulos como louca, histérica?

Você faz isso? Pare! É violência e das feias. Que tipo de pessoa é você que precisa recorrer a violência para deslegitimar uma mulher e inutilizá-la?

Chamar uma mulher de louca não diz nada sobre ela, mas diz muito sobre você.

Coeditora do Escambau, escritora, feminista, estudante de Letras, fantasista e cheia de dicotomias. Pratica yoga, ouve música, lê, caminha pelos bosques e escreve para manter a mente sã.

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Tamires Branu

Coeditora do Escambau, escritora, feminista, estudante de Letras, fantasista e cheia de dicotomias. Pratica yoga, ouve música, lê, caminha pelos bosques e escreve para manter a mente sã.