A dívida que todos pagam

— Você gosta de charadas? – questionei com um largo sorriso. Ele não me respondeu, apenas me encarava com os olhos arregalados manchados pelas lágrimas.

— Você sabe qual é a dívida que todos devem pagar? – continuei, independente do silêncio. Ele apenas me encarava com terror.

— Responda! – gritei.

—O… o tributo do Rei? – respondeu, mais perguntando do que respondendo, a voz embargada pelo choro.

Eu ri.

— Não seja tolo, se essa fosse a resposta, a pergunta não seria uma charada. Você quer a resposta? Você quer? Você quer? – eu o instigava gesticulando, e ele se encolhia a cada movimento de minhas mãos.

— Você está tão perto que não consegue vê-la. Eu darei essa trégua para você, só dessa vez. – uma pausa dramática. Ele olhava com olhos molhados, o ranho que escorria entrando na boca, o rosto substituído por uma máscara de medo e desespero.

— É a Morte! – eu disse. — Essa é dívida que todos devem pagar. Cada pessoa viva um dia terá que acertar essa conta. Para sua sorte hoje, você não estará mais em débito.

— Como assim? Eu não entendo, por que você tá fazendo isso comigo?

Eu olhei com nojo para aquela criatura magra, com manchas verdes da peste espalhadas pelo corpo. O medo deformava ainda mais o rosto feio. Não consegui sentir pena daquela criaturinha patética. Estava acabando com a diversão.

— Você é um sobrevivente da peste, não é? – perguntei, tocando na mancha verde em sua testa. Ele encolheu e estremeceu diante do gesto.

— Sim senhor, foi um milagre! – respondeu rápido, como se tivesse recuperado a confiança, motivado pelo feito de sobrevivência.

“Milagre”. Eu odiava aquela palavra. O que esse tolo chama de milagre, eu chamo de pecado.

— Você não vê? — falei. — Esse é justamente o problema. Não posso aceitar isso, não é natural. Você deveria estar morto, e eu vim corrigir esse erro.

Ele continuava a me encarar com os grandes olhos estúpidos.

— É isso que você é, um erro da natureza, e não uma porcaria de milagre! — meu grito fez com que ele caísse da cadeira.

— Mas…mas…mas – gaguejou ele.

— Ah cale-se, eu cansei de você. – Com movimento rápido, cortei sua garganta.

Ele nem conseguiu gritar. Mal percebeu o golpe, apenas me olhava, desesperado. Até que levou as mãos ao pescoço tentando, em vão, estancar o sangramento que já cobria seu peito e manchava o chão. O cheiro metálico empestou o ar já viciado com o fedor da peste. Já estava morto antes de eu sair.

Sai em uma rua enlameada pensando que encontraria o ar puro da noite ao sair daquele ambiente fétido de peste, mas a rua estava tão podre quanto aquele casebre. Malditas cidades dos homens, elas fedem a mijo e merda.

Havia um sujeito encapuzado parado na rua. Malditos esquisitos. Malditas cidades.

Andei pelas ruelas em busca de uma taberna. Além de beber algo forte, lá também eram ótimos lugares para encontrar os Trapaceiros – aqueles que escapam da morte por algum motivo. Sempre tem alguém contando alguma história surpreendente, e assim fica mais fácil de localizar os devedores.

Veja bem, eu não sou perverso. Apenas cumpro meu dever, que é devolver a natureza para o curso certo. Muitos podem me chamar de monstro, assassino, demônio, mas eu sou um pobre Coletor. Estamos todos em débito e por algum motivo, alguns escapam de pagar o seu, e meu trabalho é encontrá-los e cobrar-lhes o que é devido.

Não me olhe assim!

O que aconteceu lá atrás foi apenas uma conversa. Veja bem, eu não tenho muitos amigos, então eu gosto de conversar com os devedores. O que me chateia, é que muitos deles se comportem como aquele lá atrás. Eu perco a paciência e eles ganham uma morte suja. É muito melhor quando eles lutam ou argumentam, cobrar um chorão só estraga meu humor.

Cheguei na taberna e ela também fedia, só que a vômito e mijo. Pelo menos aqui eu poderia beber algo para turvar meus sentidos. Depois de alguns copos de Veneno Anão – eu adoro essa bebida por que existe uma chance de você morrer bebendo -, em poucos minutos eu já estava abraçado com o bardo, acompanhando suas cantigas. Isso é algo que eu também gosto das tabernas, alguém que você nem conhece vira teu amigo. Mas o mesmo vale para os inimigos, e eu tenho uma facilidade para fazer os do segundo tipo.

Como foi daquela vez.

— Me desculpe, é só um pouco de vômito. – digo com um sorriso para o grande a quem atingi com um jato quente e fedorento bem nas costas.

— Eu vou matar você! Vamos lá para fora! – foi a resposta dele.

Pelos deuses, isso foi rápido. Melhor assim. O coitado caiu direito na minha armadilha. Sempre estão prontos para brigar, ainda mais com um nanico magrelo como eu, só facilita muito o meu trabalho.

Não me julgue ainda!

Eu estava apenas me divertindo. Mas esse maldito passou a noite inteira se vangloriando que era imortal, que seu corpo era fechado. Contou inúmeras histórias, como uma lança errou sua cabeça por centímetros, apenas por que um amigo chamou seu nome e ele virou o rosto na hora certa, ou como acabou não indo para a batalha devido a um porre e todo mundo que estava nela morreu, ou quando se atrasou de chegar em casa e ela foi destruída por um pedregulho atirado por um gigante. É possível que metade sejam asneiras de um bufão, mas se uma for verdade e eu acredito que seja, tenho que cobrar. Não sei bem porque, mas esse tipo de coisa me persegue.

— Vai lá João Sortudo, acaba com esse merdinha! – gritou um dos comparsas em incentivo.

Você entende agora o que eu estava falando? É muita provocação!

Ele correu pra cima de mim de maneira descuidada. Poderia ter encerrado a peleja mas apenas me desviei deixando meu pé, e ele tropeçou e caiu de cara na lama.

Eu tinha que me divertir.

Furioso com a humilhação, sacou uma faca da cintura. Era o que eu queria, um motivo para não me segurar. Reiniciou a investida em minha direção, e mais uma vez me evadi com facilidade. Coloquei-me do lado esquerdo de seu corpo, minha mão entrou por baixo de seu braço em um movimento rápido, ela encostou espalmada na lateral de seu peito, a lâmina em meu braço deslizou rápido pelo meu pulso, entrado em seu torço em uma estocada como a ferroada de um animal peçonhento.

Ele deu mais alguns passos e tombou, mas eu já não estava mas ali.

Não fiquei pra discutir minha legítima defesa, andei pelas vielas sujas e escuras da cidade. Após andar por algumas ruelas, lá estava o sujeito encapuzado mais uma vez. Seria o mesmo? Continuei, pois se existia alguém ali para ser temido, esse alguém seria eu. Quando passava em frente dele, fui interrompido por um questionamento.

— Você é um Coletor não é? – a figura estranha tinha uma voz masculina, rouca e suave.

— O que eu faço da minha vida, não lhe diz respeito. – respondi tentando disfarçar a surpresa. Não haviam muitas pessoas em todo mundo que soubesse que os Coletores sequer existiam, muito menos quem eles eram, então de alguma forma ganhou minha atenção.

— Não precisa me hostilizar, tenho uma proposta a fazer. Tenho certeza que será de seu interesse.

— Estou com orelhas de elfo para o que vai dizer.

— Eu quero que você mate alguém para mim, você seria capaz?

— Que surpresa! O que eu tenho a ganhar com isso?

— Ouro. Além disso, se você conseguir cumprir a missão, o reino dos homens vai cair e haverão muitas mortes, não é a ela que você serve?

Me incomodava o fato dele saber demais.

— Isso me apetece sim. – Menti. — Mas eles são devedores?

— Mais que a maioria dos homens — respondeu. — E então, aceita o trabalho?

Fiquei em silêncio. Ele me olhava ansioso, e pude perceber que estava com medo de estar na minha presença. Estava certo de se sentir dessa forma.

— Eu aceito! – respondi, acabando com o tormento do estranho.

Ele me entregou uma bolsa com ouro e um pergaminho que continha os alvos. Após apertarmos as mãos, ele saiu. Fiquei ali em pé observando-o se afastar, após uns dez passos parou. Virou-se para mim, eu ainda o observava com um sorriso no rosto, mesmo ao longe na escuridão pude ver o medo em seus olhos enquanto ele convulsionava, até que tombou.

Veja bem. Como eu disse antes eu não sou um monstro, eu não faço guerras, eu apenas procuro os Trapaceiros e faço com que eles paguem. Como muitos pelo mundo afora eu apenas cumpro meu dever. Porém, não há nada que eu odeie mais do que esse tipo de gente que pensa que o mundo está à venda e com um punhado de ouro ou palavras doces podem fazer o que quiser, que podem manipular ou controlar a Morte.

Escute bem essa lição: Você não pode comprar a Morte. Você já está em débito com ela.

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.