De opinião a respeito

Por que dar conhecimento das nossas opiniões? Amanhã, podemos ter outras.”
– Paul Léautaud

A frase do escritor e crítico francês pode parecer inquietante em tempos de redes sociais. Divulgamos nossas opiniões a todo momento, quase sempre sem reflexão. A internet é urgente, e precisamos ter opinião formada sobre tudo.

Paladinos da liberdade de expressão, não se assanhem: é ótimo que existam canais para todos se expressarem. Já disseram que a internet é talvez o caminho mais seguro para uma democracia de fato. Pode ser. Ocorre que, na ânsia de dizer o que pensamos, esquecemos de filtrar certas bobagens que certamente nos causarão vergonha no futuro. Ou vergonha alheia em nossos amigos. Pior: é grande o risco de resvalarmos no desrespeito.

Se ofensas contra minorias um dia já foram toleradas, temos nos esforçado para evoluir, superar a barbárie. Óbvio que ainda existem – e existem aos montes – aqueles que perderam o bonde do tempo e lembram com saudade de quando era aceitável fazer piada comparando humanos a macacos.

Coincidência ou não, costumam fazer parte de grupos dominantes, ainda que existam os casos anedóticos de oprimidos que falam em nome de seus opressores. Emitem suas opiniões sem levar em conta os danos que elas causam e, quando alguém lhes aponta o dedo e diz “você me ofendeu” ou “você está ofendendo um monte de gente”, colocam-se na posição de vítimas.

“Respeitem a minha opinião”, bradam.

Opiniões não merecem respeito, pessoas sim. Posso respeitar o direito deles a opinar, mas não preciso respeitar o que dizem. Uma opinião que passa por cima da dignidade, da empatia e de direitos arduamente conquistados deve ser exposta, criticada, achincalhada. Que se ridicularize essa opinião em praça pública: é um meio de garantir que não voltemos a fazer isso com pessoas, como fazíamos há algumas décadas.

“Liberdade de expressão!”, ladram.

Considero um tanto paradoxal que clamem por liberdade de expressão quando flagrados em preconceito por quem historicamente não tinha voz. Uma mulher se indignar com uma frase misógina, ou com uma história machista, ou com um “só sabe pilotar fogão”, só é possível porque alcançamos um patamar democrático que permite que ela se expresse. Lembrem-se que muitas de nossas mães ainda se calam diante dos maridos.

Não, o que desejam não é liberdade. Querem o direito à ofensa, ao desrespeito, e sonham em calar os oprimidos. Aliás, odeiam esses termos: “oprimidos” e “opressores”. Querem o direito a discriminar alguém por conta de sua orientação sexual, por exemplo. Acham engraçadíssimas as piadas com trans, mas se revoltam quando alguém lembra que estamos no século XXI.

“Respeito” vem do latim “respicere” (re-, “de novo”, com specere, “olhar”). Olhar novamente, ter atenção: isso é respeitar. Antes de exigirmos respeito às nossas opiniões, que nós mesmos dediquemos respeito a elas, ao menos no sentido da língua morta: pensemos com calma, analisemos mais uma vez. Quem sabe, este respectus que dedicamos às nossas opiniões não garanta o respeito às outras pessoas?

Sei que é difícil abandonar hábitos cultivados há gerações. Sei que é difícil se desconstruir.

Das cavernas às estrelas, ainda temos um longo caminho.

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

  • Juliana

    Gostei muito do texto.O autor discorre criticamente uma realidade no momento importante.Viva a democracia,pelo menos nas redes.Viva a liberdade de expressão.