2ª Carta

2ª Carta – dia 01 de agosto de 1969

 

Dona Dinda,

O que a senhora vê quando fecha os olhos? Eu queria sonhar um pouco mais, apesar de quase nunca dormir. Qualquer maneira de deixar este lugar é válida, mesmo que se apresente na forma de um pesadelo.

Mãe, ontem eu sonhei com a Babi. Nua, ela era perseguida por homens de terno e gravata, com medonhos rostos de criança. Sentado em uma carteira escolar, eu apenas assistia a seu desespero, enquanto os atormentadores cantavam em tom alucinado:

“Não usa vestido, não usa calção

Inverno pra ela é pleno verão”

Acordei com os gritos do Neto, um cara que fica na cela ao lado da minha. Comecei a chamá-lo assim porque, quando descem o braço nele, o pobre começa a gritar por sua Vó Maria. Ele não vai resistir. Talvez nós dois, a senhora e eu, um dia consigamos atravessar os muros que agora nos oprimem. Mas o Neto, não. Quando recebe a visita do Professor, passa a manhã seguinte chorando. Já é quase meio-dia e ainda não ouvi sua voz nem seus lamentos. Este sossego me aflige. Silêncio, aqui, é um sinal de pesar.

Dona Dinda, menti sobre a Babi. Ela não foi morar em Maranguape com a avó paterna. Se não houvessem me prendido, eu deveria partir hoje pra me encontrar com ela e com nossos demais companheiros no norte do país. Ela pensará que eu sou um covarde, um desertor.

Mãe, não me odeie, mas eu iria lhe deixar. Estava pronto pra me afastar de sua cegueira indigesta, de sua ignorância voluntária. Aí, presa nesse hospício, a senhora ainda acredita que a guerrilha da região amazônica é apenas uma fantasia? Não, mãe. Assim como um dia existiu Canudos, Araguaia também é real — mas sem o inconveniente religioso. Lá, junto ao povo do campo, demos início à revolução socialista que atravessará o Brasil, em ondas, até o sul. Sabemos dos riscos envolvidos, trata-se de uma viagem sem volta, mas nosso entusiasmo sobrepuja o medo da morte. Me interessei pela guerrilha quando, em uma reunião no centro acadêmico, no começo de maio, o Patinhas nos falou  sobre o que está acontecendo lá em cima. Há muito sangue camponês derramado pelo governo e pelos latifundiários. Hoje, lutamos ao lado dos homens da terra e, amanhã, ganharemos os grandes centros.

Em poucos dias, eu aprenderia a atirar. Mas, para mim, tudo está perdido. O Saulinho, filho da tia Penha, foi enviado pelo Exército pra matar meus correligionários. É uma vergonha. O único Fernandes que partiu pro Araguaia vai lutar do lado inimigo. Ele queria ser ator, mãe. E retornará do Araguaia como coadjuvante do massacre orquestrado por esse governo golpista.

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Sabe, não entrei pra resistência com a finalidade de lhe dar desgosto, como a senhora gostava de repetir. Foi por causa da Babi. Eu frequentava o DCE apenas pra vê-la falar sobre a responsabilidade da classe estudantil no processo de libertação do povo. O amor por aquela menina ― segundo suas palavras, uma índia agitadora ― me fez um homem melhor, consciente de quem sou e de meu papel na história do país. Babi poderia ter sido tudo o que dela esperavam, mas rejeitou o estilo de vida conservador e abraçou suas convicções, como militante e como mulher. Por isso, ainda a amo. Por isso, tenho pesadelos com ela.

Dona Dinda, respeito seu sacrifício. Ter largado o curso de Direito pra me criar, quando meu pai desistiu de abandonar a esposa, não deve ter sido fácil. Mas exigir que eu abrisse mão de meu propósito como voto de gratidão por sua renúncia sempre me pareceu uma chantagem burguesa. Eu tinha pressa em ir pro Araguaia. Eu não suportava mais o entorpecimento da mãe diante da Discoteca do Chacrinha e nem as velas acesas pra iluminar os carrascos que agora preparam nossos funerais. A senhora, em sua devoção aleijada, rezava pra que os militares me dessem um susto, me ensinassem uma lição. Faz ideia do quanto, neste preciso momento, estou assustado?

Hoje pela manhã, o sargento Galego recostou-se à grade de minha cela e disse que o Professor usará meus dedos em sua aula de matemática.

Mãe, a Babi não sabe o que se passa comigo. Papai foi embora sabendo do seu amor por ele. A mulher que eu amo nem sonha com o quanto lhe quero bem. Pensa que eu sou um frouxo, que não valeria a pena ter me comido entre uma e outra reunião do partido.

O Professor chegou.

Não crie expectativas. Nem toda a dor do mundo me forçará a aprender lição alguma ensinada por ele.

Espero, de verdade, que não lhe ministrem entorpecentes no Asilo dos Alienados.

De seu menino torto,

Cazé

Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance “A Morte de um Embusteiro Viajante” e do livro de contos “Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros”, além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

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Natural de Fortaleza, no estado do Ceará, é autor do romance "A Morte de um Embusteiro Viajante" e do livro de contos "Amores, Desafetos e Outros Despautérios Acerca de Eros", além de colunista das revistas Plural e Samizdat.

  • Juliana

    Amei a narração da segunda carta. O que mais me chamou a atenção foi a descrição do local ( hospício) aonde se encontrava a sua mãe e a esperança e dentro de um cenário cruel , excludente ele continua SONHAR.

    • Emerson Braga

      Espero que as próximas cartas também lhe proporcionem bons momentos de leitura, Juliana.

  • Lara Forte

    Eu não tenho estrutura. Nossa. Bate lá dentro da consciência e revira é tudo. Sei nem expressar…

    • Emerson Braga

      Gratidão pelo carinho da leitura, Lara.