“Lobo de Rua”, de Jana P. Bianchi

Lobisomens não são nenhuma novidade na literatura brasileira. Presentes em nosso folclore (muito mais que o mito dos vampiros, inclusive), as feras foram trabalhadas por autores nacionais com mais ou menos qualidade. Entre destaques como “O Dia das Lobas”, de Nilza Amaral, “Sangue de Lobo”, de Rosana Rios e Helena Gomes, “Na Próxima Lua Cheia”, de André Bozzetto Jr, e “A Cidade dos Lobisomens”, de Thiago Fernandes, ao menos uma obra-prima: “O Coronel e o Lobisomem”, de José Cândido de Carvalho. Novas histórias sobre as criaturas são lançadas todos os dias, com a missão de apresentarem algo a mais para não caírem na vala do esquecimento.

Nascido como e-book na Amazon e transportado ao papel em cuidadosa edição independente (com direito a belas ilustrações de Renato Quirino), “Lobo de Rua”, de Jana P. Bianchi, está longe de ser esquecível. É daquelas obras que deixam o leitor angustiado ao fim da última página. Calma: o livro é ótimo; a angústia aqui é a vontade de ler mais.

A história mergulha em São Paulo, numa fantasia urbana que vai além da simples utilização da cidade como cenário, explorando as mazelas e idiossincrasias da capital paulista. O protagonista, Raul, não poderia ser melhor escolhido: vivendo na rua desde os onze anos, sem família e perspectivas, o jovem sofreu todo o mal que a indiferença de uma megalópole é capaz de infligir.  Assim, a maldição da licantropia surge como uma esperada interiorização do mal que o cerca.

O pesadelo de Raul começa logo na primeira linha, sofrendo com uma transformação dolorosamente grotesca. Sem entender nada do que está acontecendo, tem a sorte de encontrar no simpático Tito um salvador e guia. Imigrante italiano e lobisomem já experiente, Tito contrapõe a triste experiência de Raul com um temperamento solar e acolhedor, auxiliando o garoto na tentativa de conviver com a temida maldição da lua cheia.

O relacionamento dos dois é o fio condutor da trama, com diálogos precisos que aos poucos vão mostrando a construção de uma amizade e o encontro de Raul com o carinho que sempre lhe foi negado. Porém, não espere arroubos sentimentais na narrativa enxuta de Jana P. Bianchi. A linguagem é direta e árida como a capital paulista. Existe amor em SP?

Aliás, está na linguagem o grande mérito de “Lobo de Rua”. Bianchi aposta em um estilo acelerado, sem espaço para grandes devaneios, mesmo quando a ação se passa nas mentes dos personagens. A escolha acaba por impor um clima de urgência que se comunica bem com a saga de Raul e Tito e transmite a pressa típica do cenário urbano.

O ritmo cai um pouco com a aparição de Soraia, uma cigana que guarda a entrada para o misterioso abrigo onde Tito busca passar a noite lupina junto a Raul. A trama paralela envolvendo a personagem e um casal de amigos só é perdoada porque é clara introdução ao universo criado pela autora, deixando ganchos para novas histórias envolvendo a Galeria Creta e o misterioso Minotauro, que aqui só aparece de passagem.

Com um final carregado de simbolismo e redenção, mas mantendo-se firme em não ceder ao pieguismo fácil, “Lobo de Rua” é joia preciosa que merece destaque entre as obras sobre lobisomem, tanto as brasileiras quanto as de fora. Mesmo jovem, já tem lugar de respeito na matilha.


LOBO DE RUA
De Jana P. Bianchi
Edição independente
R$ 20,00 (78 páginas)
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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às terças-feiras.

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