O maravilhoso mundo da tradução

Eu nunca parei muito para pensar na tradução das coisas, ou nos tradutores das coisas, até eu começar a cursar tradução na universidade (sim, tradução mesmo, tradução pura, um bacharelado inteiramente dedicado para este ofício e não umas matérias optativas de um curso de letras). Lembrava vagamente que a tradutora de Harry Potter se chamava Lia alguma coisa e que, nas fanfics de HP que eu lia na internet, as pessoas quase sempre preferiam colocar os nomes originais dos personagens e até virei Ginny Lupin nos fóruns que participei.

Tirando isso, eu não fazia a menor idéia do quanto a tradução era presente na minha vida, que dirá o quanto era importante. Eu realmente nunca tinha parado para imaginar que sem um monte de tradutores por aí eu jamais seria a pessoa que eu sou hoje. Eu via claramente como os autores que eu lia eram importantes para a minha formação, eu só não me tocava que se não houvesse tradutores eu jamais conheceria os autores. Sendo assim, eu entrei de última hora no curso de tradução sem fazer a menor idéia do que me aguardava, sem fazer a menor idéia de como seria meu trabalho.

A real é que não dá para simplesmente passar as palavras de uma língua para a outra. Isso porque as línguas, in-felizmente, não são iguais; porque as línguas influenciam mais do que apenas a nossa comunicação, elas também agem diretamente na nossa maneira de pensar; porque as línguas não carregam só mensagens, elas carregam culturas inteiras. Um exemplo rápido para esta dimensão é: o pão que imaginamos quando pensamos em ”pão” é certamente diferente do pão que um alemão imagina. É claro que alguns destes elementos são mais facilmente notados quando traduzimos um texto literário mergulhado no contexto cultural de sua produção, ou um poema onde a linguagem é geralmente muito condensada, mas isso é uma verdade para todos os tipos de tradução, incluindo para traduções técnicas e científicas.

A tradução é um universo feito de escolhas: para cada palavra ou expressão com 10 camadas de significação, o tradutor precisa escolher quantas camadas vai deixar de fora do texto traduzido e quantas vai fazer questão de incluir (e depois precisa pensar e escolher de que forma ele fará isso…), uma vez que em raríssimos casos é possível trazer toda a significação. Exemplo disso é a tradução da palavra inglesa “host” que pode representar anfitrião, exército, muitos ou hóstia. Isto nos remete às famosas e infames “perdas de tradução”. Realmente, não se pode dizer que não existam perdas de tradução, posto que existem. Mas não se pode esquecer que existem também ganhos de tradução e que ela é fundamental para a continuação da vida de uma obra literária.

Esse universo feito de escolhas configura-se como um mundo altamente volátil e impreciso. Julgar uma tradução como boa ou ruim é uma tarefa complicadíssima, pois é preciso levar em conta muitas variáveis. Talvez seja possível afirmar que toda tradução tem o potencial de ser ruim e boa ao mesmo tempo, e que ser qualquer um dos dois é simplesmente uma questão de descobrir o quanto se alinham o projeto tradutório e a tradução feita. É indispensável, creio, que uma tradução de qualidade tenha um projeto tradutório bem refletido com objetivos definidos.

Dois termos muito usados no mundo da tradução são “estrangeirização” e “domesticação”. Um projeto de tradução com tendência estrangeirizadora procura deixar claro que o texto se trata de uma tradução, que pertence a outra cultura, visando assim mostrar o Outro. Um projeto de tradução com tendência domesticadora, por outro lado, busca produzir um texto que possa ser lido com naturalidade, que pareça ter sido feito naquela língua. E os dois tipos são super ok, mas criam efeitos diferentes no leitor e, por isso, um mesmo tradutor pode optar por um ou outro de acordo com suas intenções e com a finalidade do texto a ser traduzido.

Na tradução de uma obra literária em prosa, a tendência estrangeirizadora tem maior facilidade de adequação. Neste tipo de obra, podemos contar com recursos variados, como notas de rodapé, que vêm em nosso auxílio quando damos de cara com um termo específico de determinada cultura. Se estamos traduzindo “A Viajante do Tempo” e encontramos a descrição do traje típico de um escocês das highlands com seu kilt, é possível explicar em notas de rodapé que as highlands são a região montanhosa da Escócia e que o kilt é um saiote tradicional usado por homens. Em contrapartida, se estamos traduzindo uma peça de teatro ou legendando, não podemos contar com este tipo de recurso. Enquanto na literatura existe espaço para que haja estranhamento e assim o conhecimento de uma nova cultura, o mesmo não pode ser feito com facilidade em mídias que exigem o reconhecimento e compreensão quase imediatos do receptor.

No fim das contas, minha impressão é que ser um tradutor é como ser um detetive culinário.

Provamos um prato da culinária local de outra cultura e nos propomos a fazer este mesmo prato na nossa casa. O que seria muito mais fácil se tivéssemos a receita, mas, logicamente, nós não temos. Temos que refinar nosso paladar ao ponto de conseguirmos identificar o máximo de ingredientes possíveis. E aí temos que descobrir também a maneira certa de misturar tais ingredientes para obter o resultado final que desejamos. De vez em quando, temos a sorte de encontrar o autor, digo, o chef, para que ele nos dê a receita que ele mesmo usou, mas é melhor não contar com isso. Em geral, temos somente as nossas próprias papilas gustativas e as receitas do site da Ana Maria.

Uma vez que descobrimos os ingredientes que compõem o prato (enredo, contexto histórico-social, registro linguístico, marcas culturais, marcas de estilo pessoal, vocabulário, entre outros), temos que ir às compras. Nesse momento, precisamos fazer uma escolha: vamos até o mercadinho da esquina cuidado pela Dona Terezinha ou vamos comprar as coisas na delicatessen que vende produtos importados e tem um nome phyno em francês? Podemos fazer um saboroso prato com apresentação igual à do original, mas um gostinho distintamente brasileiro ou nos esforçar para recriar em nossa cozinha um prato que nos transporte para o local em que estávamos ao comê-lo pela primeira vez. E aí entram as horas e horas de pesquisa para que possamos saber tudo sobre cada ingrediente e como combiná-los para o sucesso da refeição.

Nós sabemos desde o princípio que o prato não será igual, pois isso seria impossível. O importante é entender que é uma simples, ainda que muito complexa, questão de escolha; e perceber que aquele risoto incrível feito com o arroz específico, um vinho verdadeiramente italiano, limões sicilianos plantados na Sicília e salpicado de um verdadeiro grana padano pode ser tão gostoso e tão bem executado quanto uma maravilhosa pizza de chocolate com sorvete e calda de chocolate bem quentinha que a gente só encontra no Brasil.

Tradutora, estudante de literatura, amante de línguas estrangeiras, curiosa profissional, PhD em procrastinação. Levemente estranha, péssima puxadora de assunto, boa contadora de histórias e poeta mediana. Decidi ser escritora com uns 7 anos, mesma idade em que comecei o primeiro dos vários livros que nunca terminei <3 Acredito, com alguma reserva, que esse dia ainda chegará. Enquanto isso eu deixo umas coisas perdidas por aqui de vez em quando: https://medium.com/@laeticia.monteiro

Laeticia Monteiro

Tradutora, estudante de literatura, amante de línguas estrangeiras, curiosa profissional, PhD em procrastinação. Levemente estranha, péssima puxadora de assunto, boa contadora de histórias e poeta mediana. Decidi ser escritora com uns 7 anos, mesma idade em que comecei o primeiro dos vários livros que nunca terminei <3 Acredito, com alguma reserva, que esse dia ainda chegará. Enquanto isso eu deixo umas coisas perdidas por aqui de vez em quando: https://medium.com/@laeticia.monteiro

  • Lara Forte

    Eu percebi a importância dos tradutores na adolescência, lendo O Diário da Princesa, que é uma série de 10 livros, mas que foi traduzida por diversos tradutores (que as vezes pareciam não ter lido as traduções anteriores). Foi ali que eu vi que as escolhas do tradutor influenciam muito a história e fazem toda a diferença. Mas fazia tempo que eu não pensava no assunto… Texto muito bom!

  • Diego Sampaio

    Fiz umas traduções de RPG, peguei uma vez um suplementos de piratas e lá vou eu tentar entender termos nauticos e procurar algum correspondente raozavel, complicado…

  • Juliano Martins

    Olá Laeticia! Parabéns pelo texto! Bem interessante. Sou tradutor há 8 anos. Comecei um canal para falar sobre tradução no YouTube, o nome é Viver de Tradução. Meu nome é Juliano. Dá uma olhada! Abraços!