“I’m Batman”

Um vigilante de aparência diabólica atormenta o submundo de uma cidade lúgubre e opressiva. Um artista do crime surge, querendo transformar a cidade em um experimento distorcido de sadismo e humor negro. O vigilante, sempre um passo à frente, suprime cada tentativa, até eliminar por completo a ameaça. Fim de História. História simples; filme ótimo.

Eu gosto de filmes. A maioria das pessoas que aprecia cinema gosta de histórias, não de filmes. São impressionadas por reviravoltas, roteiros que seguem o manual, personagens bem cortadinhos, narrativa linear. Tudo isso é ótimo para um ótimo livro, mas o cinema é uma mídia audiovisual, e um ótimo filme precisa ser ótimo em termos de imagem e som. Em Batman (1989), Tim Burton deu conta disso com excelência.

Creio que tinha seis ou sete anos quando vi o primeiro anúncio televisivo de Batman. Quando o filme foi lançado, eu sequer conhecia uma sala de cinema. Mesmo que conhecesse, seria jovem demais para compreender o hype monstruoso em torno do filme, que veio com toneladas de merchandising — com destaque para as camisetas e a música do Prince. O Batman que eu conhecia era aquele do seriado dos anos 60 — reprisado ad nauseam — e do cartum dos Superamigos, então o anúncio me despertou estranheza e medo. Lembro-me de fazer muitas perguntas à minha mãe:

— Por que ele tá todo de preto? Por que é tudo escuro? Cadê o Robin?

— É outro Batman, ué.

Minha mãe, no auge de sua sabedoria, compreendia o que passa batido para a maioria dos nerds hoje em dia: mídias diferentes abrem margem para interpretações diferentes, e seria estúpido não explorar as possibilidades.

Levei alguns anos ainda para assistir ao filme por inteiro, em parte porque o fundo musical, o Coringa sádico (interpretado brilhantemente por Jack Nicholson) e o Batman perturbado (Michael Keaton) me despertaram alguns pesadelos. Quando finalmente o concluí, aos 12 anos, descobri que era meu filme favorito. Ainda está entre os meus superhero films preferidos, mesmo com quase uma centena deles se empilhando por aí. Vamos aos motivos.

Em 1989 a DC já tinha emplacado quatro filmes cinematográficos do Superman e um da Supergirl; a Marvel já contava um bom tanto de filmes televisivos (títulos do Capitão América e do Hulk) e um cinematográfico: Howard, O Pato, de 1986. Parecia que o caso de amor entre o cinema e os super-heróis iniciado com os clássicos Superman: O Filme e Supeman II: A Aventura Continua tinha se dissipado bem rápido com uma série de produções muquiranas, genéricas e cada vez mais próximas do humor pastelão e da cafonice dos filmes B de outrora. Por isso, quando Tim Burton, então no auge de sua forma como diretor, fez seu Batman, o fez obscuro, violento e, acima de tudo, autoral.

Eu ainda não sabia que existiam quadrinhos como O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, e A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, e que estes quadrinhos haviam pavimentado o caminho para novos olhares, mais sombrios e profundos, sobre o Batman e outros heróis. Informado (embora não necessariamente influenciado) por essas referências, Burton constrói aqui uma Gotham City tremendamente expressiva, com uma arquitetura parte neogótica, parte futurista e totalmente opressiva e dark, ainda que burlesca e deliciosamente fantasiosa. Seus personagens usam frases de efeito e falam um “quadrinhês” repleto de tropos e lugares-comuns, mas o fazem sem perder o tom, sem piscar para a plateia. Não é realismo, é super-realismo.

Claro que há problemas. A Vicky Vale de Kim Basinger, interesse amoroso do protagonista, é tremendamente sem sal, e não convence como uma repórter ousada. Também fico com a impressão, sempre que assisto o filme, que Basinger interpretou a personagem como se ela estivesse sempre ligeiramente bêbada. Seu amigo jornalista, Alexander Knox (Robert Wuhl), claramente pensado como alívio cômico do filme, é absolutamente insuportável e parece estar no filme errado sempre que aparece.

Há também a assimetria herói/vilão. Astro inegável do filme (com direito até a um percentual dos lucros do filme), Jack Nicholson rouba cada cena em que aparece. Por mais que o roteiro se proponha a estudar o personagem de Batman (algo que eu adoro), a interpretação blasé/low key e consistentemente deprimida de Michael Keaton torna o herói ainda mais apagado em relação a um dos antagonistas mais larger-than-life já vistos no cinema. Incomoda-me particularmente que não vejamos Bruce Wayne interpretando o papel de playboy frívolo diante do público, não porque eu seja um purista do tipo tem-que-ser-assim-porque-é-assim-nos-quadrinhos, mas porque me parece que um milionário recluso e tragicamente feito órfão, que nunca é visto durante o dia, despertaria muitas suspeitas em uma cidade com um Batman à solta.

É moda entre os fãs, especialmente agora, que vimos um Batman cinza no cinema, reclamar do uniforme de látex preto, que veio a se tornar a norma até 2005, com Batman Begins. Para mim, por outro lado, é apenas parte da visão estilizada de Burton. Seu Batman é gótico e deprimido porque a cenografia ao seu redor é assim. Quando vemos cor, sabemos que é mau sinal: são os artifícios do Coringa, o palhaço do crime. Alegria é um mau sinal nesse universo, porque o riso é sempre fruto de algum impulso sádico.

Aliás, o Batman também tem algumas cores de sadismo, mas se você tem alguma dúvida de que ele é pintado como um verdadeiro herói, apenas ouça a trilha sonora arrepiante e épica de Danny Elfman, especialmente o tema de encerramento, e isso dissolverá suas incertezas. Esse é um herói sombrio, certamente, mas não se questiona seu heroísmo. Como os forasteiros do Western clássico, ele interfere, fala pouco, age contundentemente, reestabelece a ordem e se retira para o horizonte (nesse caso não o entardecer, mas a noite profunda), deixando apenas seu símbolo e sua silhueta para trás.

Agora, as considerações.

Melhor citação: eu sei que vocês querem o clichê “Você já dançou com o demônio sob a luz do luar?”, mas eu vou de “Eu sou o Batman”, só porque, assim como o uniforme preto de borracha, essa foi uma fórmula que este filme estabeleceu para futuras produções e ainda soa cool.

Maior pró: a construção visual altamente estilizada de um Tim Burton no auge de sua arte.

Maior contra: Alexander Knox, praticamente uma versão live-action do Scooby-Loo ou do Gorpo.

Minha avaliação pessoal: 4,8/5

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.

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Vilson Gonçalves

V. M. Gonçalves é natural de Ponta Grossa, onde atua na área de arte-educação. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e mestre em Comunicação e Linguagens pela Universade Tuiuti do Paraná, é entusiasta da cultura nerd de forma geral, especialmente do cinema. Apaixonado por folclore e culturas antigas, especialmente as Pré-Colombianas, dedica seu tempo livre à criação de universos fantásticos feitos de ideias e tinta. Em 2014 publicou seu primeiro romance, A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura, pela Editora Buriti. Expandiu o universo de Quatrocantos com os ebooks independentes Guerreiras do Sol e da Lua, em 2015, e O Rei Amaldiçoado, em 2016.