O último passeio de Joana

Era costume diário de Ana visitar Joana, sua amiga que morava no mesmo prédio. Idosa, vivia sozinha com a secretária, tinha depressão e glaucoma.

Logo cedo a amiga chegava falando:

— Bom dia, Dona Joana. Como a senhora está?

Largada no sofá, chorando, ainda vestindo roupa de dormir, respondia:

— Não tenho coragem de me levantar para tomar café e banho. Estou com medo de morrer só.

Com paciência e zelo, Ana tentava animá-la para mais um dia, com boas notícias.

— Hoje vamos passear, Joana. Ver uma exposição de Flores e aproveitar para pegar sol, caminhar um pouco.

Mesmo reconhecendo as limitações motoras e psicológicas de Joana, além da solidão, Ana procurava formas de enfrentamento saudável para a amiga, vencer desafios. Principalmente o abandono da sua única filha adotiva, que só vinha visitar a mãe no dia do seu pagamento da aposentadoria.

Pensando no passeio, Ana preparou um lanche reforçado: bananas bem maduras cozidas com canela e um copo de leite morno com tapioca.

Ao fim do café, a Ana perguntou qual roupa a amiga gostaria de vestir. Joana optou por blusas e saias com bordados diversificados e lindos, e lá se foram. Ana, bastante cuidadosa, segurando-lhe a mão, levava um guarda-sol para a pele sensível de Joana.

Diante das lindas flores, Joana parecia outra mulher. Com segurança e alegria apreciava vários tipos, nomeando-as e revelando amor e sabedoria por jardinagem.

O lazer na terceira idade é fundamental para enfrentar sofrimentos e solidão nessa fase da vida. Foi a última vez que viu a amiga sorrindo e sem lamentar mazelas.

Ao chegar em casa, Joana estava tão grata que ofereceu uma relíquia de presente: dois vasos de porcelana com pintura chinesa. Ana não esperava nada em troca dos seus cuidados, mas aceitou o presente com um sorriso.

Ao visitar a amiga no dia seguinte, Ana deparou-se com uma cena horrível. Isabel, filha de Joana, estava no apartamento junto ao seu advogado comunicando à mãe que deveria passar a escritura do apartamento para seu nome. O fantasma dos seus medos agora tornara-se realidade. Isabel levou Joana para sua casa e vendeu o apartamento.

Três meses depois, Ana conseguiu o novo endereço da antiga vizinha e foi até a casa. Encontrou Joana balançando-se numa cadeira na calçada. Estava cega. A filha interrompera seu tratamento de glaucoma.

Afagando o rosto da amiga, Ana pensava qual teria sido o seu destino caso não fosse viúva, ou tivesse irmãos, filhos desinteressados. Como seria se Joana tivesse recebido amor?

Professora de Enfermagem aposentada, mestre em Enfermagem e especialista em Ensino Superior.

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Lily Costa

Professora de Enfermagem aposentada, mestre em Enfermagem e especialista em Ensino Superior.