Uma coluna sobre colunas

A palavra coluna, como conhecemos hoje, tem pelo menos três significados: na biologia, é um conjunto de ossos que sustenta o corpo; na arquitetura, é uma estrutura poderosa, destinada a receber cargas verticais de uma obra e a suportar grande peso; no jornalismo, é o pequeno espaço apertado e fino no canto do jornal, onde poucas palavras são usadas por um autor para passar algo de sua cabeça ao mundo.

Assim como todas as palavras de muitas possibilidades, coluna um dia teve um uso comum. Fui atrás dele no santo Google e descobri que ela é filha do latim columna e quer dizer a mesma coisa que a palavra coluna em nosso idioma. Bem, isso foi frustrante. Aprofundei-me na pesquisa, lendo a segunda frase do verbete na Wikipédia – foi cansativo, juro – e descobri que a palavra grega columen é a avô da coluna, mãe de columna. Columen quer dizer: pilar. De columen encontrei Kel, bisavô de coluna, uma palavra indo-europeia que significa “projetar-se”. Desse pequeno termo, veio até nós uma série de significados, multiplicados ao longo dos anos quando a palavra se espalhou pelo mundo. É provável que antes de kel tenha havido outros ancestrais, perdidos no tempo, apagados da história e de onde a pesquisa pode alcançar.

A nossa coluna biológica tem uma história parecida. Ela nem sempre foi dura, resistente e ereta. Há muito tempo, não passava de um fio de tecido nervoso, a notocorda. Para ser sincero, ela nem é tudo isso…. Se você têm mais de 20 anos, provavelmente, já enfrentou algum desconforto nas costas. Nossa coluna ainda não é perfeita, porém. Somos bípedes mal adaptados a uma vida sobre duas pernas. Além de nós, varias criaturas tem colunas, cada uma ligeiramente ou muito diferente da nossa.

Voltando à arquitetura, só na Grécia temos três tipos de colunas: dóricas, jônicas e coríntias, artisticamente pensadas – mas cada uma, um dia, foi uma só: essa coluna ancestral e filha de simples escoras de madeira.

As colunas jornalísticas estavam no papel, mas hoje estão nos blogs e ninguém sabe onde elas estarão daqui a mil anos. Elas podem estar escritas em gigantescas colunas arquitetônicas de LED numa cidade caótica, onde uma humanidade escrava da tecnologia modificou suas colunas biológicas para receber dados diretamente em seu sistema nervoso!

É comum acreditarmos que somos algo pronto, realizado, firme e completo, mas isso é bobagem. Significamos toda nossa existência no ser, quando, assim como a coluna, somos um vir a ser – algo incompleto que, quando visto de um pequeno recorte de tempo, parece pronto. E nesse mundo, onde Deus está morto, isso nos desespera.

Ao escrever essa coluna, de pescoço baixo e com uma péssima postura, sinto dores na espinha dorsal – coluna essa que sustenta meus braços, assim como paredes do meu quarto são sustentadas por colunas e das paredes sai a eletricidade que alimenta o computador, que substituiu – em parte – o papel e a caneta com quais colunas eram escritas.

Pretendo ressuscitar os deuses mortos pelo homens e mulheres do nosso século e do século que passou, e pretendo mentir para vocês. Falarei de seres com olhos flamejantes e cavalos que cruzam o céu sem asas. Contarei sobre martelos que partem montanhas, sobre rainhas das trevas e reis dos mares!

Sou um ateu convicto que acredita em todos os deuses e nos encontraremos aqui aos domingos, para falar sobre deuses e humanos. Escolhi o dia da coluna sem motivos, mas agora percebo que é um belo dia para se falar sobre deuses. Era aos domingos que eu ia à escola dominical, e é no domingo que a maioria das pessoas vai à igreja. Jeová deve estar decepcionado ao me ver aqui, pois escreverei sobre a concorrência na maior parte do tempo.

Outra coisa que percebo é que anos atrás eu temia os deuses. Eu tinha medo de meu próprio deus – que me castigaria, se eu saísse da linha – e temia seus inimigos, que me atacariam para me tirar da linha.

Percebi que não preciso temer – fora Temer! – Desculpem, não resisti.) – deus algum. Que Jeová, assim como as colunas, é apenas uma palavra, cujo significado e importância mudou, continua mudando e pode ser modificado por quem quer que use a palavra.

E, caso ache contraditório um ateu falar sobre deuses, lembre-se: o mesmo filósofo que disse que deus está morto, disse que todos os deuses são sofisticações poéticas e que precisamos da arte para não morrer de verdade.

E o que é poesia, senão arte?

Nasceu em 1995. Teve uma infância feliz, rodeado de amigos e videogames. Aos 12, caiu do telhado após brigar com o pai por não querer estudar literatura. Ganhou uma cicatriz triangular na mão direita e se apaixonou por Machado de Assis. Decidiu ser escritor e hoje cursa o oitavo semestre de Ciências Biológicas.

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Oziel Herbert

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