Pregação, prevenção e preconceito

Época de eleição, vi esta interessantíssima notícia: um candidato a vereador dizia que, se eleito, seu primeiro projeto seria multar empresas de ônibus que permitissem pregação religiosa nos coletivos. Não sei a veracidade da notícia – aliás, tenho 83,64% de certeza que é falsa –, mas aquilo me deixou emocionado. Ora, quem nunca se incomodou com “aleluias” interrompendo o silêncio circunspecto da viagem?

Sempre me perguntei se os pregadores sabem que são chatos. Ainda pela manhã, o indivíduo arrumando-se em frente ao espelho e pensando: “hoje vou chatear geral no ônibus”. A esposa lhe dá um beijo à porta e se despede: “tenha um dia chatíssimo”. Já à noite, o menino avisa a mãe: “papai chegou da chateação”. E o chato se larga na poltrona, cansado e satisfeito por ter chateado tanta gente.

Pode ser também que esses caras sejam viciados na adrenalina do palco. Sim, porque ônibus, praça e lugar público é palco pra essa gente. E convenhamos que, afora os tímidos, todo mundo gosta de dar seu showzinho.

Para ilustrar, fiquem com a seguinte historieta.

Praça lotada, o rapaz engravatado interpela a mulher.

— Senhora, senhora!

— Valha-me, Deus! Quase que tu me mata de susto, menino.

— Toma aqui essa Bíblia.

— Obrigado, já tenho uma.

— Não é de presente. É só pra ler agora.

— Agora?

— Agora.

— Estou atrasada para um compromisso.

— Você não tem nem um minuto para a Bíblia?

— Tenho, claro. Sempre. O problema…

— Então lê aí.

— O quê? Um salmo?

— Qualquer coisa.

— Hum…

— Tem que ler em voz alta.

— Tá bom, tá bom. Jesus viu Natanael vir ter com ele, e disse dele: eis aqui um verdadeiro israelita, em que…

— Pensando bem, é melhor o Levítico.

— Olha, rapaz…

— Samuel.

— Samuel, estou realmente atrasada. E já li um trecho, como você pediu.

— Não do Levítico.

— Vamos deixar pra outro dia.

— Você está com vergonha?

— Não!

— Está vermelha.

— É o sol. Agora, se me dá licença…

— Você sente vergonha de falar de Deus em público?

— Não.

— Então lê aí o Levítico.

— É que…

— Viu só?

— Tá bom, tá bom! Onde é…?

— Aqui, ó.

— Certo. Não fareis para vós ídolos, nem vos levantareis imagem de escultura, nem estátua, nem poreis preda… digo, pedra figurada na vossa terra, para in-cli-nar-vos… a ela…

Aqui e ali alguém parava por um instante. E a mulher lendo.

— … perseguirei os vossos inimigos, e cairão à espada…

— Senhora, espera um pouco. Precisa de mais força dramática.

— Hein?

— Força dramática. Esse trecho que você leu, por exemplo. Primeiro, tem que segurar a Bíblia com uma mão, assim. Pronto. Aí, quando for falar que vai perseguir os inimigos e tudo mais, levanta o braço, desse jeito. Não, mais alto. É, apontando pro céu. Aí fala e dá uma parada. Olha pra todo mundo…

— Mas não tem ninguém.

— Olha pra qualquer um, não importa. Olha nos olhos e continua: cairão à espada diante de… Você está rindo?

— Desculpe. Tem que ser com essa vozinha?

— Claro! É super importante.

— Tá bom. Segura a minha bolsa.

— Pois vá lá. Não esquece a vozinha.

Ela não esqueceu. Começou devagar, tomou fôlego, gostou da coisa. Cinco minutos e já tinha gente na ponta dos pés para vê-la. Um sucesso.

— Estes são os mandamentos que o Senhor ordenou a Moisés, para os filhos de Israel, no monte Sinai — terminou, suada.

— Amém! Glória! Sangue de Cristo tem poder! —  gritou a pequena multidão antes de se dispersar.

— E então, como me saí?

— Todo mundo parou pra ouvir a Palavra.

— Sim, mas você, o que achou?

— Chato pra burro! — O rapaz tirou a gravata e arregaçou as mangas. — A culpa não é sua. Eu bem que desconfiava que era um saco ouvir essas coisas.

— Mas… as pessoas…

— Ficaram pelo show. Ou estão endividadas. Ou levaram chifre, vai saber? Corno está disposto a tudo.

— E aquela conversa de tempo para Deus?

— Cansei de ser chato. Já deu. Me dê a Bíblia, vou tentar vender ali na frente.

A mulher ficou sem reação. Balançou a cabeça, ainda atordoada, e já ia seguindo seu rumo – agora atrasadíssima – quando um gordinho todo vestido de branco e com uns cordões largos pendendo do pescoço veio na sua direção.

— Senhora, senhora!

— Ah, não! Macumba já é demais!

Atravessou a rua correndo e desapareceu na outra calçada. O coitado do gordinho lá, sem fôlego, tentando chamá-la.

— O engomadinho levou a sua bolsa!


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Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

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Moacir de Souza Filho

Editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Escreve às às terças-feiras.

  • Lara Forte

    Kkkkkkkkkk. PERFEITO

  • Juliana

    Excelente. Concordo com o texto. Acredito no que já conheço de estudo bíblico sério.Jesus Cristo , grande mestre diz na Bíblia.Quando for falar com teu pai vai sozinho para o teu guarto e fala , não faça com os fariseus que pregam em praça pública para impressionar.”Eu encontro Deus numa flor , numa meditação sozinha, no rosto de uma criança , e aprendi num ensinamento “que a humanidade é isenta de pecado”M. Taniguchi. O oportuna reflexão.

    • Lara Forte

      Concordo demais contigo

  • Any

    Compreendi o que quiz dizer, porém não concordo com a forma que foi expressado o assunto aqui, apesar de seu talento notório com as palavras e forma direta de comunicação. rsrs.
    Sim, infelizmente há muitas pessoas que extravasam e agem guiadas por vontade humanas, de maneiras inadequadas. Afinal como na própria Bíblia está escrito: “Só porque uma pessoa passa pela circuncisão (símbolo de aliança com Deus, retidão…) mostrando isso exteriormente, não quer dizer que é realmente circuncidada, até porque essa aliança deve ocorrer no coração.” {Romanos 2:28,29}
    Mas enfim… Há sim muitos que não agem como devem, mas por favor não confundam as coisas! Nem tudo é “8 ou 80”.
    Gostaria de ver em uma crítica isso ser citado, no dia-a-dia isso poderia ser levado em conta.
    Muitas pessoas já foram tocadas de uma boa forma por essas mensagens que são “incômodo” para alguns, muitas realmente precisavam ouvir que “ainda há uma esperança para elas” Ou um “Jesus te ama, apesar de tudo!” Mas quem quer saber, não é mesmo?! Ultimamente só queremos que nossos ouvidos estejam em paz em locais públicos. Estamos por demais ocupados ouvido as vozes de nossos problemas, ora essa! Não importa muito, se alguma palavra dita ali pode mudar o dia de alguém ao nosso lado!

    Infelizmente hoje há muita “confusão” com as coisas, estão “misturando” tudo. E nem é só a respeito de religião. Atualmente se acha que todo morador de rua é usuário de drogas. Todo vendedor de salgados na rua é chato, desocupado ou ainda ex-presidiário. Todo garoto de rua é trombadinha, e se for negro então… Não há tentativa de compreensão com disposição para averiguar.
    Não se pode generalizar as coisas poxa vida. É triste isso e muito sério! O mundo vai de mal à pior, por simples ignorância.

    Talvez o que não nos agrade não seja mesmo para nós aquele dia. Ou seja e estamos ocupados sendo ríspidos de mais para perceber!
    Enfim, não julgue a muitos por uns poucos. Com respeito dá para todos viverem no mesmo mundo, seja de raça ou religião diferente. Com ele dá para se falar sobre qualquer assunto!

    E sobre o Evangelho:
    “Podemos até rir do Cristianismo, zombar dele e ridiculariza-lo. Mas ele funciona. Ele transforma vidas!” Bem dizia Josh Mcdowell.

    É isso!
    O amor está aí apesar de tanto mal. E as vezes é ele de verdade. O aceita quem quer.
    Só acho que isso deveria ser exposto também. rsrs
    Produtividade nas áreas de sua vida e prosperidade no saber para ti. Deus lhe abençoe.
    Obrigada. :3

  • Emerson Braga

    Moacir, a sensação que tenho quando leio seus textos é a mesma que eu experimentava quando um contador de histórias talentoso animava as manhãs de sexta-feira, no primário de minha infância. Sua escrita nos envolve de maneira gentil, não nos empurra nada, e flui com uma naturalidade sensacional.

    Quanto aos pregadores em coletivos, são o meu maior pesadelo. Aliás, todos os dias, para vir ao trabalho, pego um ônibus que sintoniza ― no volume máximo, acredito ― a rádio Liderança. É um misto de cabaré brega com movimento carismático… Tocam as Coleguinhas, a Ave Maria com Papa Francisco, umas orações sofríveis com um frei e depois lascam mais música de chifre. Uma tortura…

    Deveriam manter suas crenças em seu lares e seus templos. Muitas vezes, pelo bem da coletividade, é importante que a lei se imponha para modificar uma cultura estabelecida pelo costume. Ônibus, geralmente, é o trasporte que nos leva de casa pro trabalho e do trabalho pra casa… Deveria ser um ambiente de sossego, e não de luta contra o capiroto. Pobre diabo!