A Exploradora

Estavam numa sala fria e pouco iluminada, com um forte cheiro de éter. Havia duas grandes poltronas, uma de frente para a outra. Entre elas, fios, placas e eletrodos, ligados a um dispositivo que parecia ter saído de um filme de ficção científica. Eles sentaram.
— Então esta é a famosa máquina leitora de sonhos? — perguntou a jornalista. Parecia muito com Audrey Hepburn, e com certeza usava o cabelo curto para exaltar a semelhança.
— Eu a chamo de Exploradora Onírica — respondeu ele. Era jovem, magro e desajeitado. A mídia ainda não havia decidido se ele era um gênio ou um charlatão.
— Bem anos 1980, não?
— A Ficção Científica vem desde sempre prevendo o futuro. O submarino, o helicóptero, as viagens espaciais… tudo isso foi explorado antes pelos grandes autores. É possível que o conceito de minha Exploradora tenha aparecido antes, mas asseguro, senhorita Bianca, que ela é muito original.
A moça sorriu. Era muito bonita. Colocou uma mecha do cabelo escuro atrás da orelha e continuou:
— Só Bianca, por favor. Poderia nos dizer como funciona?
— Claro — disse ele, ajeitando o jaleco. — Os sonhos são o resultado de eventos eletroquímicos no cérebro, com uma assinatura energética muito particular. Uma vez que compreendemos em que frequência eles ocorrem, podemos “lê-los” e traduzi-los.
— Só isso? — disse ela.
— Não, não “só” isso. Podemos conectar dois sonhadores, levando-os a compartilharem um mesmo sonho. Uma experiência linda, mas assustadora.
— Assustadora?
— Mas não sobrenatural.
— E esse processo… ocorre sem complicações?
— Não é bem assim. Quando fazemos a ligação entre as duas mentes, pode haver uma certa… confusão de identidades.
A jornalista mexeu no gravador sobre a mesa, deixando-o paralelo à borda. Depois, perguntou:
— Mas é algo passageiro?
— Completamente. O registro dessa experiência, que chamamos de semi-fusão, não tem uma marcação de memória profunda.
Ela sorriu. Alberto desviou os olhos ao mesmo tempo que sentia o rosto esquentar.
— Posso experimentar?
— Infelizmente não. É necessário um período mínimo de treino, e…
— Por que? O senhor mesmo disse que era segura!
— Ela é segura — respondeu. — O problema é que o conflito de identidade…
— Ah, vamos lá, doutor! A matéria vai ser bem mais impactante se eu disser que experimentei a máquina!
Ele levantou da cadeira, os ombros e o pescoço rígidos.
— Seja corajoso, homem!
— Não é assim que se faz ciência, senhorita! Eu preciso de um acurado perfil psicológico seu, e é necessária toda uma preparação mental para que a recuperação possa se dar sem a fragmentação, e…
— Olha, vou ser sincera — disse ela, ficando de pé. — Sem o passeio na “Exploradora”, não vou conseguir a força necessária para que a matéria apareça com o destaque adequado. Você quer mais recursos? Quer mais visibilidade? Então façamos.
Sim, ele precisava disso. Mas não queria que pensassem que ele era irresponsável.
— O senhor é jovem, doutor. Adrenalina! Não seja tão sério! Qual o sentido de chamar a máquina de “Exploradora”, então?
Ele suava enquanto roía a unha do polegar. Era pegar ou largar.
— Ah, que se dane! — falou, dando um tapa no encosto de sua poltrona. — Tudo bem, mas tenho uma condição.
— Aceito — disse ela.
— Mas… como? Eu nem disse…
— Nem precisa. Seja o que for, esta é uma oportunidade única.
— Certo. Você aceita… sair… depois que terminarmos?
Ela sorriu.
— Pensei que eu não estaria em condições, devido ao meu “despreparo”.
Ele baixou a cabeça, o rosto vermelho.
— Mas eu não disse que não — disse ela, sorrindo.
Ele levantou a cabeça e fez que sim. Parecia maior agora, a coluna ereta, a cabeça erguida.
O cientista apontou para as poltronas. Ela sentou, e ele ajustou o equipamento em sua cabeça.
— De quem é o sonho? — perguntou ela.
— O sonho-guia sempre é do sonhador mais experiente. Acordaremos na Planície.
— Planície?
— Sim. Você vai ver.
Terminou de ajustar o capacete dela.
— Não estou vendo nem ouvindo nada, é normal isso?
Bianca levantou a mão e ele a segurou. Estava fria e suada. Alberto fez uma leve carícia e a soltou. Ela sorriu e disse “Tudo bem, entendi”.
Ele sentou e colocou o capacete, mas o seu era diferente: ele podia ver e ouvir, para melhor controlar o evento e encerrá-lo, quando o alarme tocasse. Ajustou-o para cinco minutos após o início do sonho.
— Aqui é Alberto. — O computador fez um “bip”, e uma luz amarela se acendeu na sala. — Iniciar o evento na contagem de três. Um, dois, três…
O indutor começou a soar. Frequências entrelaçadas: na superfície, Chopin; sob ela, um infrassom que conduzia ao primeiro estado do sono e acelerava os demais, levando o sonhador a atingir o estágio de sono profundo conhecido como sono REM, onde os sonhos vívidos acontecem com maior intensidade.
Depois, escuridão.

 

Ele despertou numa sala escura. Havia vidro quebrado por todo lugar.
Aquele não era o sonho dele. Acostumara-se a despertar nas planícies – o aroma de grama e terra molhada mesclando-se com a suave luz da manhã – quando entrava em Oníria — o “Mundo dos Sonhos” compartilhado.
Caminhou até a janela. Um grande sol vermelho ardia no céu cor de sangue. Fazia muito frio, e uma terra estéril estendia-se até o horizonte.
— Onde diabos…?
— Doutor! Onde estamos?
Ele se virou. Bianca estava vestida com uma roupa de pano grosseira, e tinha uma arma na mão. Parecia exausta.
— Finalmente podemos libertar os outros!
— O que está acontecendo? Que sonho é esse?
— Não temos tempo! Eles descobriram nossa chegada faz cinco minutos! Vamos!
— Ei, Bianca, isso não é real! Relaxe… tem alguma coisa diferente, mas deve ser um erro de program…
O tapa ardeu, inesperado.
— Ei! O que você…?
— Nós somos a resistência, e eles estão chegando! Vamos!
— Quem são eles?
— Os que vieram de Fora! Corra!
O desespero dela… Aquele era um sonho vívido demais!
— Encerrar evento! — gritou a frase codificada. Em breve acordaria na poltrona, o gosto de bile na boca e o mundo a girar. O laboratório. O mundo real.
— Qualquer minuto agora… — começou a falar, mas foi interrompido por uma forte explosão.

 

Estava deitado no chão, o gosto de sangue na boca e uma forte dor no lado direito do corpo. Virou a cabeça e viu Bianca atravessada por um pedaço de madeira. Esticou a mão e sentiu-a fria e imóvel.
Não conseguia sentir as pernas. Sua mente começou a ficar enevoada
Uma criatura aracnoide entrou através dos destroços. Um forte cheiro almiscarado tomou conta do que era a sala.
— Ninguém pode escapar — disse uma voz dentro de minha cabeça.
— Encerrar… evento… — sussurrou Alberto, antes de tudo escurecer e sumir.


Imagem: O Sonho, de Pierre-Cécile Puvis de Chavannes

Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.

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Nativo de um século analógico, fã de literatura de FC e Horror. Contista e poeta, escreve por necessidade. Músico e fotógrafo amador, acredita que a beleza do mundo reside no fato de não haver sentido (ou segredo) algum.