Através de Sangue e Fogo: Parte 1 – Sangue

Continuando minha jornada pelo “Novo Mundo” apresento um novo povo para vocês. Os Lótusar, também conhecidos como A Comunidade da Lótus Prateada. Nesse conto vou explorar o rito de passagem deles.


Chovera no início da manhã. Uma chuva torrencial, como se o céu lamentasse meu fracasso que estava por vir e derrubasse sobre aquele lugar suas pesadas lágrimas. Agora o sol do meio dia esquentava toda aquela água tornando o ar quente e sufocante, mas eu já estava acostumada, assim como todos que vivem ali.

Havia perdido meu caminho mais uma vez e já podia sentir os efeitos do entorpecente turvando meus sentidos. Para completar, ainda não havia conseguido minha marca, o que tornava tudo ainda mais complicado. Aquela era minha última chance, seria meu décimo quinto florescer e, caso fracassasse, seria mandada para o ermo, para o lugar de vergonha e morte.

Decido parar, sinto que corria a esmo. Verifico a ponta de minha lança, o veneno viscoso ainda estava lá, só precisava encontrar um oponente. O entorpecente podaria minhas habilidades de combates em breve. Milhares de criaturas querendo te matar o tempo inteiro nesse lugar, quando você mais precisa de um, eles parecem te ignorar.

Encontro meu norte, tomo uma grande lufada de ar e corro. Era melhor estar o mais próximo possível da Grande Lótus quando encontrasse meu oponente. Caminhar no solo enlameado se tornara complicado, então subo em uma árvore, saltando entre os galhos que se entrelaçavam revelando pequenas estradas para aqueles que sabiam como caminhar nelas.

Uso cipós e galhos para facilitar minha movimentação, tento me mover rápido, mas controlando a respiração para diminuir a velocidade de ação da droga.

Tudo escurece.

Lá estava eu, caminhando em direção ao imenso deserto. Meus pares davam as costas pra mim. Acho estranho, pois vejo tudo através de um olhar de fora, o olhar de um outro, e no coração dele havia um lamento, quase um pesar por mim.

Uma dor de impacto percorre meu corpo, me tirando do sonho.

Abro os olhos e estou no chão enlameado, meu corpo coberto de barro. Fico ali algum tempo tentando entender o que acontecera. Lembro da função da droga, de como nos conecta à floresta. Ao consumi-la, pode-se ver o futuro, o passado e o presente dos mais diversos olhares. Verdades e mentiras eram mostradas, só os mais sábios sabiam distinguir umas das outras. Somente aqueles que comeram o fruto da Lótus Dourada eram capazes de entender com perfeição as mensagens da alma do mundo.

Tento me levantar e um choque sobe por minha mão. Meu pulso torceu na queda, minha lança estava caída a alguns metros. Usei a outra mão para me erguer e busquei minha arma.

Escuridão novamente.

Agora eu vejo alguém coberto em lama. Me oculto atrás do arbusto, minha presa parecia buscar algo no chão, estava ferida e assustada. Era hora de atacar.

Quando volto, estou abaixada próxima à lança e noto que o veneno havia saído de sua ponta, perdi minha única vantagem. Sinto um frio cortar minha espinha, dessa vez eu entendo a visão. Pego a lança em um movimento suave, me ergo, todos os pelos de meu corpo estão eriçados, a dor do pulso machucado aguça os sentidos que estavam levemente turvados pela droga. Me viro e olho na direção da mata fechada, não posso ver, mas sei que há algo ali.

Mais cedo ou mais tarde aquilo ia acontecer. Pego minha adaga e, dando as costas para a mata, faço um corte em minha mão ruim. Nada excita mais um predador do que o odor de sangue. Se queria me atacar, melhor que estivesse no frenesi. Era perigoso, mas me daria uma vantagem.

Eu ouço o ruído de galhos quebrando e pelo canto do olho posso ver aquela besta felina de pelo vermelho correndo em minha direção. Seu corpo esguio e musculoso, suas presas imensas saindo da boca sedenta por minha carne, seus olhos negros alucinados pelo odor do meu sangue no ar.

Preparo minha esquiva.

Eu não posso atacar até ter minha marca. “O primeiro golpe pertence a floresta”, recito a lei.
Aquele é um oponente poderoso, e existe a chance morrer do primeiro golpe. Mas o que eu posso fazer? Morrer durante o ritual era melhor do que no deserto como uma banida, sem honra.

Nesses momentos, para uma mente treinada os segundos se alongam, ainda mais somado ao sentimento de morte eminente. Me abaixo. Olhando de lado, vejo o bote preparado. Tinha que evitar o engalfinhar ou seria meu fim. No segundo final abaixo meu corpo. A criatura me erra, mas é esperta. Estica as patas traseiras e suas garras talham minhas costas.

A dor corre pelo meu corpo e quase desmaio. Desconhecia a gravidade do ferimento, mas não era bom. Olho a criatura que agora está na minha frente, vejo a besta preparar o novo bote. Muito sangue vertia das minhas costas, o odor no ar afetava o animal. Ela se movia de um lado para outro emitindo seu silvo rouco, me avaliando.

Era linda, agora pude notar que era uma fêmea. Seu pelo era vermelho como folhas secas do outono, magra mas com vários músculos se destacando em seu corpo desenhado para caçar, olhos vivos e ferozes.

Eu estou agachada, quase deitada, a dor pulsando nas minhas costas me fez esquecer da mão.

Só teria uma chance, qualquer movimento errado seria fatal, se é que eu já não estava condenada. A fera hesitava, então eu daria um estímulo. Passo a mão cortada nas minhas costas, sinto uma ponta e depois chicoteio meu sangue no ar.

Deu certo. Ela inicia a investida.

Em um segundo estou lá abaixada vendo aquele magnífico predador correndo em minha direção, no outro eu era o predador correndo para a presa ferida, protegendo minha cria, buscando alimento. Eu era a presa esperando o bote daquela besta, minha mente perdida numa mistura entre os dois seres. Eu salto sobre minha caça indefesa.

Revelo a lança oculta sob o corpo quando a fera já está no ar.

Vejo a arma de minha presa, mas já é tarde para voltar.

Seguro com toda força que tenho a lança escorada no chão.

Me choco contra arma e a sinto atravessar meu corpo, rasgando meu coração.

Recebo o impacto do animal, a força do movimento arremessa nós duas.

Dou um grito final, a vida deixando meu corpo.

Escuto ela tombar rugindo.

A presa se aproxima de mim e me olha nos olhos.

Deito ao seu lado e beijo seu focinho. Minha cabeça doí, o mundo gira.

— Obrigado pela luta — digo para fera

O sol se apaga.

Algo áspero está sendo esfregado contra o meu rosto. Timidamente de início, depois mais forte e intenso. Abro os olhos e só vejo vermelho. Seus pequenos olhos amarelos encontram os meus e ele se afasta assustado. Era um filhote de lince pelo-de-sangue. Era filho dela.

O corpo da grande lince estava ao chão com minha lança atravessada. Tento me levantar, a dor nas costas e no pulso quase me impedem. O pequeno me observava curioso, de uma distância segura. Me aproximo da grande fêmea, afago os pelos de sua cabeça. Com alguns solavancos retiro a lança, a ponta fica presa no corpo, mas me serviria de apoio.

— Xó, sai daqui — digo tentando afastá-lo, mas ele me ignora e pula de um lado para o outro, puxando brincadeira.

Por que não dava atenção à mãe tombada? Seus olhos estavam vidrados em mim. Decido ignorá-lo e sigo meu caminho. Estou ferida e o cheiro de sangue está no ar. Se já era perigoso antes, não duraria muito se aparecesse outro desses.

Naquele ponto da floresta não haviam estradas. Eram caminhos que só podiam ser trespassados por aqueles que ali viviam. Após um tempo, noto que as árvores diminuem de tamanho, o que me dá a certeza de estar no caminho correto. Em breve eu chegaria na clareira e veria a majestosa árvore onde meu povo esperava para me tornar um deles.

Esse sentimento me motiva a continuar, a me mover mais rápido. Eu caminho em uma marcha rápida usando a lança quebrada como apoio. A ferida em minhas costas doí, o sangramento não para. Vejo o céu e o tom laranja anuncia o fim da tarde. Logo a minha frente vejo os altos galhos da Lótus rasgando o céu como se tocassem as nuvens, suas folhas brancas que brilhavam douradas pelo sol era uma visão magnífica daquela distância. A Lótus era visível de quase toda parte da floresta se você subisse em uma árvore, mas somente quando você estava próximo é que compreendia a majestade. Para mim, só era possível a aproximação durante o rito, pois só os membros da comunidade tinham esse direito. Só os que venciam a travessia. Nunca foi meu destino ser banida. Eu veria a Lótus na plenitude de sua beleza, sob a luz do luar, tornando-seuma torre prateada.

Paro de sonhar, decidida a encerrar logo minha jornada, mas quase vou ao chão. Uma de minhas pernas estava paralisada, a droga tinha iniciado seu mais terrível efeito.

Por que agora? Eu estava tão perto!

É como se a floresta ouvisse a arrogância em meus pensamentos e me punisse. Olho para trás e noto que o filhote estava ali, observando apreensivo.

— Sua mãe não morreu em vão! Eu não falharei aqui! – disse para o pequeno, que se aproximou e roçou em minhas pernas.

Me apoiando nas árvores, usando a lança como muleta, eu me arrasto pela floresta. Meu coração  acelerado, eu já não podia ouvir, minha visão escurecia vez por vez, o efeito foi rápido. O pequeno lince me acompanhava de perto, monitorando com seus olhos que pareciam entender a situação. Sabia que estava perto, entre as folhas das árvores eu via a fumaça das fogueiras.

Me apoio numa árvore para respirar, a dor nas minhas costas é intensa, a maldita droga nubla meus sentidos, mas não tira minha dor.

Olho para o lado e vejo um de meu povo caído ao chão de olhos vidrados. A droga já atingira seu ápice nele. Não me preocupo, parecia jovem e teria outras chances de se provar para o povo, já para mim era a última, e agora via que ela escapava como água entre os dedos.

Meu braço que usava a lança adormeceu. Agora metade do meu corpo estava paralisado. Ainda assim, mantenho-me de pé. Tenho que me lançar em impulsos para me mover. O tom púrpura anunciava que os últimos raios de sol se despediam. Logo à frente já posso ver a clareira.

Perco a outra perna. Vou de cara ao chão. Sinto o gosto da lama e das folhas.

Mas eu não paro, não ali. Coloco toda a força do meu corpo naquele braço, uso as raízes para arrastar meu corpo, o chão barrento dificulta. Vejo o pequeno lince dando pulos ansiosos ao meu redor. Meu coração estava prestes a explodir, meus pulmões ardiam, meu estômago revirado me fez vomitar. Eu não parei.

Por fim, a escuridão.

Eu não posso mais ver, mas estou acordada. Continuei em frente, os espinhos e raízes me ferindo. Eu me arrasto. Perco a noção do tempo, o mundo não existia mais. Só restavam as dores de meu corpo quando meu último recurso parou de funcionar.

Senti a língua áspera do lince novamente contra meu rosto, a única coisa que ainda me ligava com o mundo além da dor. Senti o choro bater em minha garganta. Engoli de volta.

Enfrentaria o Repúdio com dignidade.

Continua…

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

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Wilson Júnior

Idealizador do Escambau, escritor, estudante de História e fã de cultura pop. Somente após vinte e seis anos criou coragem para colocar para fora suas aspirações literárias.

  • Juliana

    Wilson Junior gostei da dignidade….Nesse conto encontro peças que amo como lama, flores e floresta.Para mim , qualquer conto que traga elementos citados é DIGNO de parabéns.

  • Vilson Gonçalves

    Gente, que tema lindo, que lince lindo, que narrativa linda <3