A grande revelação

— Pai, eu tenho uma coisa pra te dizer — Julio, de apenas oito anos, falou. Seu pai era operário e acabava de chegar do trabalho.

August, por sua vez, dependurou o casaco e se dispôs a ouvir. Era um homem típico de Luisiana (se é que essa classificação é única) e sempre chegava àquele mesmo horário, aguardava sua esposa enquanto preparava o jantar e perguntava a seu filho algo sobre a escola – um ato para torná-lo menos solitário. Naquele dia, em especial, percebeu um semblante distinto do habitual no filho, e se perguntou o que Julio diria – ele era um garoto tão calado, logo o que o motivaria a falar? Em todo caso, Vivian, sua esposa, logo chegaria e tudo voltaria ao comum, esse pensamento lhe ocorria.

— O que foi? Algum garoto te incomodou no colégio? — indagou numa falha tentativa de prever o que ele diria.

— Não. Na verdade, quero dizer que sou um… Não há palavra no inglês, espanhol ou qualquer uma daquelas línguas que vocês falam só para parecerem povos diferentes para me definir, entretanto creio que o termo mais adequado seja Alien. Eu sou um Alien.

August sorriu. Em seguida, aquele homem de um metro e setenta sentou-se numa poltrona próxima ao filho – estavam na sala – e com um cuidado típico dos pais amorosos disse entre gestos com as mãos e olhares certeiros:

— Eu sei, também sou um Alien. Hoje você teve aula de Escrita Criativa?

— Não estou brincando. Não uso, em momento algum, dos seus artifícios supérfluos que vocês usam nos programas de humor. Eu sou um Alien…

— Seus? — August perguntou sem poder conter o riso.

Havia algo de estranho em Julio. Ele não ria (correspondência direta a algo engraçado), piscava os olhos pouquíssimas vezes e não gesticulava, mas… Esse sempre fora Julio – sem tirar ou pôr o que quer que seja. Naquele diálogo, em específico, a expressão do garoto em nada se alterava. Imparcial – isso o definia. “Será que ele sempre foi assim e eu nunca percebi?” – August se perguntava.

— Sim, seus artifícios norte-americanos — o garoto falou. A conversa ainda girava em torno dos artifícios de humor de programas televisivos daquele país.

— Ok, Julio. Vá se trocar. Sua mãe logo chegará e teremos que estar prontos para o jantar. Mas cuidado quando for vestir seus tentáculos, por que… — e caminhou para a cozinha.

— Eu não estou brincando — o semblante do garoto transmutou. Havia indignação no seu olhar e uma determinação em não obedecer.

August, que nunca havia visto o filho agir daquela maneira, se questionou o porquê daquilo tudo. Julio era um garoto meigo, quieto e acima de tudo respeitoso, e aquela brincadeira talvez estivesse indo além do ideal, no entanto August optou por não ir contra aquilo. “Ele é sempre tão sozinho, sem irmãos e sem amigos” – pensou enquanto analisava quais as melhores palavras para a situação.

— O que você quer então, Sr. Alien? — indagou ficando de joelhos pra gerar uma sensação de igualdade para o garoto.

— Em primeiro lugar, mais respeito. Em segundo… Bem, tenho que explicar algo primeiro — e coçou a cabeça.

Naquele instante, August percebeu que, embora Julio fosse extremamente loiro, nem sua família ou a de Vivian possuíam aquela característica biológica. Eram todos morenos. Recordou então que num determinado encontro de família algum primo declarou que nenhum dos traços do rosto de Julio lembrava qualquer dos traços dos seus pais. Aquilo ocorrera mesmo ou era só sua imaginação? Ele não lembrava, ou não sabia.

— Pois bem, fale — disse sentando-se novamente na poltrona. Julio ainda estava no sofá. — Sua mãe não se importará de adiarmos um pouco o jantar…

— Ela não é minha mãe, nem você meu pai — o garotinho o interrompeu. — Tudo que vocês sabem sobre mim, meu nascimento, documentos e derivados foram implantados. Eu sou de um planeta desconhecido e estou aqui para investigar a terra como um todo. Há, assim como eu, mais quatro homólogos que espionam em outros países. Eu nos Estados Unidos da América e os demais na Alemanha, Argentina, Moçambique e China.

— It’s clean, mas espere… — August entrou no jogo.

— A missão, porém, será cancelada daqui a dois minutos – o interrompeu novamente e prosseguiu. – E teremos que iniciar o que vocês chamam de… O próximo passo.

De repente, os olhos de Julio piscaram muitas vezes por um curto período de tempo. Havia algo de errado, qualquer pessoa saberia disso.

— E porque está me contando isso? — os olhos de August o fuzilaram, ele estava sério. Aquilo fazia parte da brincadeira.

— Pelo único e exclusivo motivo que gostei da maneira como vocês me trataram… Vocês fazem parte do lado bom da humanidade. Logo, preciso que vocês venham comigo…

— O quê? Pra onde? — o operário indagou. August seguia dramatizando uma seriedade quase que nata, todavia estava cansando daquilo. Paciência nunca foi um dos seus pontos fortes.

— Para meu planeta, lá vocês…

Seu relógio apitou. Em dois minutos Vivian chegaria – um lembrete.

— Não vamos a lugar algum — o pai declarou pondo um ponto final no assunto. Confirmou no relógio no braço esquerdo que já era tarde, embora ele ainda não tivesse preparado o jantar. — Agora vá trocar de roupa, pois sua mãe já deve estar chegando e você sabe o quanto o trabalho dela a estressa — falou andando em direção a cozinha.

— Coopere. Você só tem uma chance de sair ileso…

As gargalhadas de August ecoaram pela casa – seu filho estava bem humorado naquele dia, porém tinha que reconhecer que aquela brincadeira já estava indo tão longe que sequer o reconhecia. Algo nele dizia que aquele não era seu filho, mas na verdade nunca fora. As mãos de Julio tremeram e seus dentes trincaram – ele estava irritado. Quando August se preparou para repreendê-lo e cumprir seu papel de pai… Bem, fica difícil cumprir seu papel de pai quando um raio vermelho sai dos olhos do seu filho de oito anos e derrete todas as suas células.

Em meio ao odor do antigo corpo de August derretido, Julio falou algumas palavras numa língua estranha com a mão no rosto – era sua maneira de se comunicar – e seguiu para a janela. Ao chegar lá, olhou para trás e concluiu que ninguém reconheceria os restos do seu pai postiço. Pulou do quarto andar e antes de chegar à altura que equivaleria ao terceiro piso já se transmutara num pássaro e voava em direção a nave-mãe que o esperava camuflada acima das nuvens.

— Eu deveria ter ouvido o agente que atua na Alemanha. Os humanos conseguem ser mais irritantes que surpreendentes — disse num alemão perfeito, sem qualquer sotaque.

De muito falar de si esqueceu quem é, e transcreve os dados que encontrou: Admirador assíduo da fantasia inglesa, culpado por adorar o humor argentino, fã de Caetano e alguém que se sente velho apesar da idade. Não sabe o que essas informações podem oferecer a quem lê, mas sabe que escreve, pois só preso a isso consegue viver em liberdade.

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Conrado Franconalli

De muito falar de si esqueceu quem é, e transcreve os dados que encontrou: Admirador assíduo da fantasia inglesa, culpado por adorar o humor argentino, fã de Caetano e alguém que se sente velho apesar da idade. Não sabe o que essas informações podem oferecer a quem lê, mas sabe que escreve, pois só preso a isso consegue viver em liberdade.

  • Moacir Marcos

    Muito bom! O conto me lembrou uma história divertidíssima de Luís Fernando Veríssimo em seu “Comédias para ler na escola”. Se bem me lembro, chama “A Espada”, e trata de um garotinho que revela ao pai sua verdadeira identidade: ele é uma espécie de reencarnação de um guerreiro sagrado, senhor dos trovões. É uma graça.

  • Oziel Herbert

    Love it