Dia nacional de luta contra a violência à mulher

10 de outubro de 1980, mulheres de São Paulo ocupam as escadarias do Teatro Municipal da capital para protestar contra o aumento dos crimes de violência contra à mulher em todo o país. O ato de sororidade e total renúncia à violência estruturada pelo gênero marcaria o dia 10 de outubro como dia nacional de luta. 36 anos depois, hoje, infelizmente ainda não há muito o que se comemorar, afinal a violência persiste matando, agredindo, oprimindo e vitimizando mulheres todos os dias.

Os dados são alarmantes e estão distribuídos em todas as formas de violência, física, moral, sexual, psicológica, racial e etc. De acordo com a central de atendimento à mulher (Ligue 180), em 74% dos casos a violência é diária e semanal. Em 72% dos casos, as agressões são cometidas por homens com quem as vítimas tiveram ou mantém relações afetivas. Em cerca de 27% dos casos, os agressores são familiares, namorados, amigos, vizinhos e conhecidos.

Esses são dados que refletem principalmente a violência doméstica que tantas mulheres sofrem em seus lares ao serem subjugadas por seus cônjuges; também refletem a violência dentro de relacionamentos afetivos, onde mulheres são constantemente agredidas psicológica ou fisicamente por seus companheiros. Aí também estão os abusos sexuais que acontecem dentro de casa ou em relacionamentos. Os dados nos mostram ainda que o agressor está em todo lugar. Ele pode ser seu vizinho, amigo, conhecido e etc. Mas o que os dados não mostram são as agressões que acontecem em âmbitos de trabalho, nas escolas e universidades ou até mesmo na rua. Sem falar nos xingamentos e piadas. Qual mulher não foi alvo de comentários abusivos, desrespeitosos e invasivos? Na rua, no ônibus, em festas….? É muita violência!

E essa proporção de índices só aumenta se lembrarmos de que as mulheres constituem mais da metade da população.

Tem gente que ainda não entende o motivo de se falar tanto sobre, chegando até mesmo a alegar que a discussão deveria ser pautada pela violência em geral. No entanto, não é apenas a violência por violência que é praticada contra as mulheres. É a violência estruturante de relações de gênero e fundamentada em um contexto social e histórico em que a mulher é submissa, discriminada e possui uma atribuição de papel inferior a do homem e, portanto, não igualitária.

É o reflexo da cultura de machismo, misoginia e estupro. Não é por acaso que as mulheres são a maioria das vítimas. Pense o contrário, homens morrem, adoecem e sofrem por ter se convencionado que são inferiores, submissos? Por ter determinado papel na sociedade ou ainda por usarem essa ou aquela roupa e isso derivar em motivo de estupro? Não chegam nem a ser estuprados como mulheres o são aos montes, certo? Mas e se isso acontecesse, estaria correto? É correto ir contra a integridade física e moral de uma pessoa por seu gênero? Não. Não e não.

Por isso, hoje, 10 de outubro, falamos sim sobre. Porque o problema está enraizado e vem se transmitindo de gerações em gerações. Porque, apesar de os movimentos e as discussões estarem alcançado grande público através da internet, da militância em praças, universidades e escolas, na prática, existem de fato ações, iniciativas e leis realmente eficazes contra a violência que acomete a tantas mulheres no país? Visto que muitas vezes os culpados permanecem impunes ou recebem penas brandas, o que muitas vezes nos leva a pensar que as leis favorecem o agressor e não a vítima?

E, por fim, porque em um país onde ocorre uma denúncia de violência contra a mulher a cada 7 minutos e no qual 13 mulheres são mortas (eu disse: MORTAS) por dia é extremamente necessário discutirmos o que está sendo feito não só para enfrentar mas também para prevenir todas as formas de violência contra a mulher.

Sigamos fazendo barulho que nosso lugar é de direito e nossa luta é igualitária e justa! Queremos e iremos um dia comemorar verdadeiramente a diminuição desses números, de toda forma de violência e o direito à vida de nossas mulheres bravas e guerreiras! Mas não hoje. Hoje, manas, é dia de luta!

Coeditora do Escambau, escritora, feminista, estudante de Letras, fantasista e cheia de dicotomias. Pratica yoga, ouve música, lê, caminha pelos bosques e escreve para manter a mente sã.

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Tamires Branu

Coeditora do Escambau, escritora, feminista, estudante de Letras, fantasista e cheia de dicotomias. Pratica yoga, ouve música, lê, caminha pelos bosques e escreve para manter a mente sã.